No último final de semana aconteceu a famosa San Diego Comic-Con, o evento nerd por excelência que há bastante tempo é usado pelos grandes estúdios norte-americanos para anunciar seus novos projetos e exibir prévias dos filmes e séries que estão por vir. No meio de tanta novidade, trailers dos lançamentos da Marvel e afins, um dos teasers exibidos pode ter passado batido: o de “John Wick 4”.

A franquia de ação estrelada por Keanu Reeves começou sem muito alarde em 2014. Primeiro filme dirigido por Chad Stahelski, que foi dublê de Reeves desde o primeiro “Matrix”. Logo se tornou um fenômeno cinéfilo, um ponto fora da curva dentro do gênero em Hollywood, mais próximo da beleza brutal das coreografias de ação do cinema asiático do que dos espetáculos de CGI mal dirigidos mais comuns da indústria. Daí vieram as continuações, com o segundo capítulo sendo talvez o auge da série, um filme direto, plasticamente pensado para tirar o que tem de melhor na relação entre as lutas do assassino profissional e os espaços assombrados em que ele circula.

John Wick X Buster Keaton

Pra tentar entender parte do que faz “John Wick” ser celebrado, o Sessão Dupla de hoje, assim como já havia feito em relação a “Top Gun: Maverick”, propõe uma comparação. Partindo das inspirações que os próprios filmes citam visualmente, vamos pensar a franquia em relação a um dos grandes astros do cinema mudo, provavelmente entre os mais importantes precursores dos filmes de ação: Buster Keaton.

A Obsessão Pela Fisicalidade

“John Wick: Um Novo Dia Para Matar” começa com planos aéreos de Nova Iorque. Um corte nos posiciona em uma das ruas da cidade, olhando para a fachada de um prédio onde é projetada uma cena de “Sherlock Jr.”, (1924) de Buster Keaton. Na cena, o protagonista tomba com sua moto e ambos derrapam. Na rua de Nova Iorque, abaixo da projeção, uma moto aparece escorregando enquanto um homem de capacete corre atrás dela. A intenção deste plano não poderia ser mais clara: situar na metrópole do séc. XXI um mundo semelhante ao de Keaton, como se aqueles personagens estivessem saindo da tela para existir no nosso momento histórico.

John Wick X Buster Keaton

A obsessão do personagem John Wick, um matador perseguido pelo passado, que vê a necessidade de continuar cometendo seus assassinatos como a única forma de existir, é uma obsessão física. Pelos movimentos das lutas, pelo combate, por testar e ultrapassar seus próprios limites. De alguma forma, pode ser traçado esse paralelo com o ator, Keanu Reeves, que depois de “Matrix” se aprofundou pessoalmente nas artes marciais, tentando sempre unir essa obsessão com seus projetos. Tanto que o ator, em 2013, dirigiu o filme “O Homem do Tai Chi”, também colocando em prática sua admiração pelas lutas. Da mesma forma, a obsessão pela fisicalidade transformada em arte também era a de Buster Keaton.

O ator e diretor veio do vaudeville, uma forma de entretenimento popular que mesclava apresentações teatrais, música e circo. A fisicalidade das apresentações, dos números acrobáticos, seguiu Keaton ao cinema, em algo que pode ser chamado de cinema de atrações. Um tipo de cinema que se afastava da narração ficcional e se focava em truques, efeitos de palco e “atrações” que podiam ser vistas num show de vaudeville, por exemplo. O que Keaton fazia era trazer esses estímulos teatrais para a cidade, locais urbanos ou cenários que só o cinema podia conceber.

John Wick X Buster Keaton

Casas, trens, carros, faziam parte do arsenal de truques do artista. Um de seus efeitos mais famosos e repetidos é o que mostra a fachada inteira de uma casa caindo sobre sua cabeça, enquanto ele passa intocado por estar posicionado justamente onde passa uma janela aberta. Por essa descrição, dá para perceber a preferência de Keaton pelo risco, pelas cenas fisicamente desafiadoras, e também a obstinação pela precisão dos movimentos calculados que envolviam seus filmes.

A tal da “magia do cinema” tem um exemplar perfeito na obra do ator e cineasta. Cada plano precisava ser milimetricamente enquadrado para que os efeitos atingissem seu potencial máximo. Por exemplo: uma cena mostra o personagem de Buster comprando um cavalo por U$5,00. A placa com o preço aparece pendurada embaixo do animal. Quando o personagem sai com o cavalo, a câmera estática revela que, na verdade, a placa se referia a um casaco que estava à venda, mas que não aparecia justamente porque, com o preciso posicionamento da câmera, o animal a encobria. Nenhum outro enquadramento possibilitaria o mesmo efeito cômico.

Essa precisão da encenação revela um dos aspectos mais importantes do cinema, e que fica muito evidente na obra de Keaton: a relação dos corpos dos atores no espaço. Como eles se movimentam, quais serão os gestos, com qual velocidade, em que posição a câmera estará, a qual distância, como os cenários serão mostrados, com qual iluminação. Tudo isso está envolvido em um conceito chamado “mise-en-scene”, “colocar em cena” em francês. Conceito cuja origem vem justamente do teatro. Dá para dizer, a partir disso, que o personagem de Keaton é um disruptor da mise-en-scene. Que se apropriava do que os espaços da cena podiam oferecer para moldá-los a seus próprios interesses anárquicos da comédia e da ação.

As narrativas desses filmes serviam a um propósito muito claro: de criar cenários que possibilitassem desafios físicos e truques visuais. Sempre focando em fugas, perseguições, enganações e dificuldades causadas pelo espaço. Da mesma forma, mas com uma finalidade mais nefasta, são pensadas as narrativas de John Wick. Chad Stahelski, o diretor, recentemente falou em entrevista sobre como os capítulos da franquia são criados. “Pensamos em como fazer o personagem sofrer”, disse. E, na encenação, como ele usará dos cenários e objetos de cena para enfrentar seus adversários. Uma anedota contada no primeiro longa, e que se repete visualmente no segundo, é de como o assassino usou um lápis para matar um grupo de pessoas. Keaton e Wick vivem em mundos de perseguições sem fim. São personagens trágicos, no fim das contas. E precisam subverter o mundo físico para escapar.

Buster Keaton

Como as obras de ambos tendem a forçar os limites dessa fisicalidade e espaço, tendem também a ultrapassar o real. Em “O Grande Sinal” (1921), provavelmente o maior exemplo de uma disrupção que progressivamente força os limites da realidade, a sequência final transforma uma casa em um ambiente de desenho animado. O cenário inteiro, com seus vários quartos e armadilhas e passagens secretas dentro deles, chega a ser enquadrado em um só plano. Enquanto Keaton assume completamente seu aspecto de animação e pula entre os ambientes enfrentando os bandidos que querem matá-lo. Um outro aspecto plástico se encontra em John Wick. Desde o primeiro filme, com as luzes neon e os raios que cortam a noite na sequência final, o personagem assume um aspecto mítico, “o bicho-papão”, quadrinesco. As legendas estilizadas parecem balões de uma HQ, ou as letras de um quadro de Pop-Art.

O ponto alto dessa estética está em “John Wick: Um Novo Dia Para Matar”, que demonstra como a quebra da realidade causada pelo esgarçamento do físico permite não só uma estilização visual, mas também maneiras sempre criativas de brincadeiras formais que transformam os ambientes em formas expressivas e cinematográficas: a sequência da “casa de espelhos” em um museu de Nova Iorque. Não por acaso, que lembra a cena de Charlie Chaplin em “O Circo”.

Esse tipo de comparação entre obras distintas não serve apenas para pontuar referências e inspirações. Muito do cinema contemporâneo se apoia na mera citação despropositada. Diferente disso, conhecer o cinema para além da nossa época permite iluminar as potencialidades dessa arte, permite pensar o que pode ser feito hoje. E, principalmente, demonstra o quanto ainda temos o que aprender com os mestres do passado.

Vários do curtas e longas do Buster Keaton podem ser vistos de forma gratuita no YouTube. “John Wick: Um Novo Dia Para Matar” está disponível no Star+.

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