“Agente Oculto”, Marvel e Netflix

A Netflix continua procurando uma franquia de ação com grandes astros para chamar de sua. E, ao que tudo indica, continua falhando. Depois de “Alerta Vermelho”, com Ryan Reynolds, The Rock, e Gal Gadot, no ano passado, a nova aposta da plataforma é “Agente Oculto” (2022), com Ryan Gosling, Ana de Armas e Chris Evans. Tudo o que envolve o projeto, de partida, já era questionável. Desde a junção do gigante do streaming (e sua produção Fordista de produtos criados por algoritmos) com os Irmãos Russo, diretores de sucessos da Marvel como os dois últimos filmes dos Vingadores que, na melhor das hipóteses, costumam se dar bem quando o que se requer deles é botar em prática a visão de terceiros (no caso, do estúdio) de uma fórmula repetitiva e ceifadora de olhares próprios.

Muito tem se falado sobre a questão dos efeitos visuais nos filmes da Marvel, com a empresa recebendo diversas acusações de péssimas condições de trabalho para seus artistas de CGI. O impacto do abuso que sofrem os trabalhadores pode ser sentido também nos visuais dos filmes e séries do estúdio, que nunca refletem a quantidade absurda de dinheiro que custa cada um dos projetos. Mas, “Agente Oculto” demonstra que, além dos prazos apertados e problemas de gestão da pós-produção, não dá para eximir de culpa os realizadores que tocam os projetos antes destes chegarem nos computadores dos times de efeitos visuais. Com a incapacidade dos irmãos Russo de enquadrarem sequências de ação e coreografias de luta, sobra para o CGI tentar representar visualmente as ideias contidas no roteiro e que os diretores não souberam resolver durante as filmagens. O resultado, na cena do avião por exemplo, é dos piores usos dos efeitos em muito tempo.

Agente Oculto e Intriga Internacional

Todo o filme sofre dessa incapacidade de fazer o que muitos diriam ser o elemento essencial do cinema: a encenação para a câmera. A atividade de preencher a tela a partir da relação dos atores, interpretando seus personagens, com os cenários, os objetos de cena, as movimentações no quadro, a iluminação, etc. Em “Agente Oculto”, parece que os diretores nunca sabem ao certo o que mostrar, ou como tornar suas imagens significativas, precisando, em vez disso, apelar para muletas superficiais: uma luz chamativa, um movimento de câmera inútil, um drone que sobrevoa a ação sem conseguir localizar o que mostra, uma montagem acelerada que sofre em encontrar um ritmo específico. E não é uma questão de estilo que se sobrepõe à narrativa (não teria nenhum problema se fosse), de cineastas que escancaram os elementos formais e que tiram justamente daí a sua arte. São apenas artifícios vazios, em enquadramentos insignificantes, em planos desprovidos de qualquer ideia.

“Agente Oculto” tenta se filiar aos filmes de intrigas internacionais, como 007, Missão Impossível e Bourne. Como pai de todos eles, está um longa de 1959, chamado justamente de “Intriga Internacional”, de Alfred Hitchcock. Como tecer comparações, pensar no que um filme é ou deixa de ser, com o que ele se parece, é sempre um bom exercício crítico, falar sobre “Intriga Internacional” ajuda a entender essas questões de estilo levantadas sobre o filme dos Irmãos Russo.

Agente Oculto e Intriga Internacional

Alfred Hitchcock e o estilo cinematográfico

Para além da alcunha, que pouco ou nada diz sobre o cineasta, de “mestre do suspense”, Hitchcock talvez possa ser chamado, mais corretamente, de mestre do estilo. Segundo os teóricos David Bordwell e Kristin Thompson, “cada filme desenvolve técnicas [cinematográficas] específicas de forma padronizada. Esse uso unificado, desenvolvido e significativo de escolhas técnicas particulares é o que chamamos de estilo”. Cada diretor usa determinadas técnicas e cria um sistema estilístico específico.

O estilo de Hitchcock orbita na ideia do que ele mesmo chamava de “direção do espectador”. Ou seja, em como o diretor pensava cada plano, cena e sequência para guiar, com mão firme, o espectador pela narrativa. Para criar exatamente as emoções e efeitos que ele precisava para cada momento do filme. As formas de dispor os atores e objetos nos cenários, de como enquadrar, de como movimentar a câmera e de como montar, por exemplo, tinham esta finalidade última. Nada, nos filmes de Hitchcock, aparece a não ser exatamente quando e como o cineasta quer. O que vemos ou deixamos de ver no quadro foi pensado para “manipular”, de certa forma, a narrativa e nossas sensações em relação a ela.

Agente Oculto e Intriga Internacional

Daí o sentimento de que Hitchcock é um enganador, mas nosso enganador favorito. Seus filmes nos guiam por pistas falsas, escondem a verdade num plano que mente e vice-e-versa. Boa parte deles tratam de pessoas que fingem ser quem não são, ou que são confundidos com outras pessoas. Em “Intriga internacional”, o publicitário Roger Thornhill, interpretado por Cary Grant, é sequestrado pelos vilões que acham que ele é um espião chamado George Kaplan. O protagonista consegue escapar e passa a investigar a identidade do tal de Kaplan, descobrindo que tudo indica que ele é ou se parece muito com o espião. O fato do personagem de Grant ser um publicitário não é coincidência. “No mundo da publicidade, não existe mentira, apenas exagero”, ele diz. O filme funciona justamente neste jogo de encenações em que ninguém sabe exatamente quem o outro é. Nada é exatamente uma mentira, mas um exagero da verdade. Thornhill, o homem errado, progressivamente se torna o proto-James Bond, charmoso, esperto. Fugindo de cidade em cidade dos EUA, livrando-se de ameaças e conquistando as mulheres que cruzam seu caminho, assumindo a identidade de Kaplan.

Para entender o estilo preciso de Hitchcock, basta ver a cena do sequestro, quando os vilões confundem o protagonista com Kaplan. Em primeiro plano, Thornhill se senta numa mesa de um restaurante. Ao fundo, podemos ver dois homens, os sequestradores (mesmo que ainda não saibamos disso). Nos planos em que só vemos o protagonista e seus companheiros de almoço, o som do garçom chamando por George Kaplan ao fundo sobe progressivamente. O protagonista, sem ouvir o chamado do garçom, levanta a mão para pedir para usar o telefone. Então, um plano que começa nos companheiros da mesa de Thornhill se move lateralmente e depois para frente, até o que antes era o fundo do quadro, criando um plano médio dos dois sequestradores atrás. E um deles exclama “Kaplan!”. Com dois ou três planos simples, Hitchcock conseguiu encenar toda a confusão de forma clara e precisa.

Agente Oculto e Intriga Internacional

Outro momento icônico em “Intriga Internacional” é o da perseguição do avião dedetizador. Uma sequência praticamente muda, toda construída a partir da montagem de planos do rosto de Cary Grant olhando a estrada deserta ao seu redor e planos subjetivos (ou seja, vemos o que o personagem vê) que enquadram o avião ao longe se aproximando. Até que um plano mais longo mostra Grant correndo do avião enquanto ele sobrevoa baixinho, quase em cima de sua cabeça. A perfeita orquestração da encenação, das escolhas de onde colocar a câmera e da montagem. Um terceiro e último exemplo de como o olhar da câmera (portanto o nosso; portanto manipulado por Hitchcock) guia exatamente o que devemos ver ou deixar de ver em cada cena é o que acontece num trem. Vemos Cary Grant e a personagem de Eva Marie Saint se beijando. Um corte nos leva para o corredor do vagão, onde vemos um funcionário com um bilhete na mão abrindo a porta de um dos quartos. Corta para um plano detalhe de uma mão recebendo o bilhete, que diz “O que faço com ele pela manhã?”. A câmera se afasta e mostra num plano médio o grande vilão do filme, interpretado por James Mason, lendo o recado. Tudo fica claro imediatamente: quem mandou o bilhete, a quem ele se refere, qual a relação entre todos os personagens.

Poderíamos citar outras centenas de exemplos perfeitos sobre o preciso estilo de Hitchcock. Mas, como escreveu o crítico Miguel Marías, continuar descrevendo e analisando as imagens do diretor só serve para deixar o texto “exatamente o oposto dos filmes de Hitchcock: mortalmente chato”. Porque todo esse estilo meticuloso criava filmes aterrorizantes, engraçados, surpreendentes, eletrizantes. Hitchcock era perverso no melhor sentido do termo, que nos enganava por tramas sobre desejos, sobre o medo, sobre pesadelos e sonhos absurdos.

Curiosamente, voltando agora a “Agente Oculto”, os filmes de Hitchcock – e “Intriga Internacional” não é diferente – também são o oposto do filme dos irmãos Russo, apesar das tramas em comum de espionagens, perseguições, deslocamentos e labirintos que se sucedem. Onde um era um gênio da encenação, do enquadramento, dos movimentos de câmera, da montagem, que demonstrava em todos os filmes como um grande cineasta sabe exatamente o que e como mostrar as coisas, os outros dois continuam provando que não fazem ideia do que fazer na hora de transformar um roteiro em imagens. Onde um fazia filmes excitantes em todos os sentidos, os outros dois (para usar adjetivos tão insignificantes quanto as imagens de “Agente Oculto”), só conseguem criar produtos visualmente terríveis e, no limite, completamente enfadonhos.

“Agente Oculto” está disponível na Netflix. “Intriga Internacional” está disponível na HBO Max.

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