Reggie Bannister, o eterno vendedor de sorvetes que trocou a colher por armas para enfrentar o Homem Alto na saga Fantasma (Phantasm), morreu aos 80 anos. A informação foi confirmada por sua esposa, Gigi Bannister, e repercutida pela imprensa norte-americana nesta semana. O ator morreu no domingo, 9 de agosto, em sua casa em Crestline, na Califórnia.

Bannister esteve nos cinco filmes de Phantasm, acompanhando a franquia de 1979 a 2016 e transformando Reggie de um sujeito aparentemente comum em um dos heróis mais improváveis (e queridos) do cinema de terror.

Depois de quase quatro décadas encarando o Homem Alto, desta vez é o público que precisa lidar com a despedida.

O último adeus do Reg Man

Segundo Gigi Bannister, o ator havia sido diagnosticado com demência com corpos de Lewy e doença de Parkinson. A família, porém, não anunciou uma causa específica para a morte.

A esposa também relatou que Bannister havia sido exposto ao Agente Laranja enquanto servia no Exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã.

A notícia provocou homenagens entre fãs e pessoas que fizeram parte de sua trajetória.

Don Coscarelli, criador e diretor de Phantasm, lamentou a perda daquele que foi muito mais do que um colaborador recorrente. Os dois mantiveram uma parceria artística que começou antes mesmo de o Homem Alto colocar suas esferas prateadas para voar.

E talvez seja impossível falar de Bannister sem falar de Coscarelli — assim como, depois de 1979, ficou difícil falar de Phantasm sem mencionar Reggie.

Antes das esferas prateadas

Reginald Horace Bannister nasceu em 29 de setembro de 1945, em Long Beach, Califórnia, e sua primeira grande paixão artística não foi o cinema.

Foi a música.

Antes de aparecer diante das câmeras, Bannister participou da cena musical de Long Beach e integrou grupos como The Greenwood County Singers, ligado ao folk norte-americano. A música continuaria presente durante toda a sua vida, paralelamente ao trabalho como ator.

Mas houve uma interrupção muito menos divertida nesse caminho.

Bannister serviu no Exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. Em depoimentos posteriores, contou que era contrário à guerra, mas acabou convocado e atuou como operador de rádio ligado a uma unidade especializada em armamento.

De volta à Califórnia, retomou a vida artística.

E então apareceu um jovem cineasta chamado Don Coscarelli.

Os dois se conheceram no circuito artístico de Long Beach, quando Bannister participava de apresentações teatrais. O encontro abriu as portas para trabalhos nos primeiros filmes de Coscarelli, incluindo Jim, the World’s Greatest e Kenny & Company, ambos dos anos 1970.

Era o começo de uma parceria que logo ficaria… bem mais estranha.

Um sorveteiro entrou no mausoléu e virou lenda

Em 1979, chegou aos cinemas Phantasm, escrito e dirigido por Don Coscarelli.

O filme misturava terror, ficção científica, fantasia e imagens surreais para apresentar o misterioso Homem Alto, interpretado por Angus Scrimm, além das famosas esferas metálicas que se tornariam uma das marcas registradas da franquia.

No meio daquele pesadelo estava Reggie.

Bannister interpretava uma versão ficcional de si mesmo: um simpático vendedor de sorvetes e músico, amigo de Mike e Jody, que acaba arrastado para o confronto contra o Homem Alto.

No primeiro longa, Reggie ainda não era exatamente o grande herói da história.

Isso mudaria bastante.

Conforme Phantasm crescia, o personagem também crescia. O sujeito comum foi ganhando protagonismo, armas, atitude e uma disposição impressionante para continuar enfrentando horrores interdimensionais quando qualquer pessoa sensata já teria mudado de cidade.

No terceiro filme, Reggie já estava definitivamente colocado no centro da ação.

O vendedor de sorvetes tinha virado herói de ação, só que sem músculos impossíveis, capa ou superpoderes.

Talvez justamente por isso os fãs tenham gostado tanto dele.

Quase quatro décadas encarando o Homem Alto

Bannister participou de todos os cinco filmes da franquia.

O primeiro Phantasm chegou em 1979. Depois vieram Phantasm II (1988), Phantasm III: Lord of the Dead (1994), Phantasm IV: Oblivion (1998) e, finalmente, Phantasm: Ravager (2016).

São 37 anos separando a primeira e a última aparição do ator na saga.

Poucos intérpretes do terror tiveram a oportunidade de acompanhar o mesmo personagem por tanto tempo e menos ainda viram uma figura inicialmente secundária crescer até se tornar praticamente o coração da franquia.

Enquanto Freddy tinha sua luva, Jason sua máscara e Leatherface sua motosserra, Reggie tinha seu jeito de sujeito comum, seu Plymouth Barracuda e, posteriormente, uma nada discreta espingarda de quatro canos.

Convenhamos: existem maneiras piores de entrar para a história do terror.

O emprego mais apropriado (ou assustador) possível

E a relação entre Bannister e Phantasm produziu uma daquelas histórias que parecem inventadas especialmente para uma matéria do Teoria Geek.

Depois de terminar as filmagens do primeiro filme, o ator precisou continuar pagando as contas como qualquer outro mortal.

Seu emprego? Entregar flores para o Sunnyside Mortuary & Cemetery, em Long Beach.

Sim. Um dos locais ligados ao universo visual e às filmagens de Phantasm.

Segundo o material oficial da franquia, Bannister passou cerca de dois anos trabalhando com entregas de flores para o cemitério e chegou a colocar arranjos dentro do mesmo mausoléu utilizado nas filmagens.

Imagine explicar isso numa entrevista de emprego:

— Experiência anterior?

— Passei um filme inteiro enfrentando acontecimentos sobrenaturais em mausoléus.

— E depois?

— Continuei trabalhando lá.

Pois é… Reggie Bannister simplesmente levava o método a sério demais.

Nem só de pesadelos vive um homem

Embora Phantasm tenha sido sua grande casa cinematográfica, Bannister construiu uma carreira que ultrapassou a franquia.

Ele apareceu em outros títulos do terror, entre eles Silent Night, Deadly Night 4: Initiation e Wishmaster, além de continuar colaborando com produções independentes.

A música também nunca desapareceu.

Bannister continuou cantando, compondo e se apresentando ao longo dos anos, inclusive com a Reggie Bannister Band. O curioso é que essa faceta musical acabou entrando no próprio DNA de Reggie em Phantasm: o personagem toca guitarra justamente porque aquele instrumento já fazia parte da vida do ator muito antes de o Homem Alto aparecer.

No fim das contas, o personagem carregava muito do próprio homem.

Talvez seja uma das razões pelas quais parecia tão genuíno.

Relembre sua trajetória

De músico e veterano de guerra a um dos rostos mais queridos do terror independente, Bannister construiu uma carreira especialmente ligada ao cinema de gênero. Relembre alguns dos trabalhos que marcaram seu caminho:

1976 — Jim, the World’s Greatest
Um dos primeiros trabalhos de Bannister com Don Coscarelli, ainda antes de a dupla entrar definitivamente para a história do terror.

1976 — Kenny & Company
Outra colaboração inicial com Coscarelli. Foi durante esse período que a parceria artística entre os dois se fortaleceu, preparando o terreno para o projeto que mudaria suas carreiras.

1979 — Phantasm (Fantasma) — Reggie
Bannister surge como o vendedor de sorvetes e amigo de Mike e Jody que acaba envolvido nos acontecimentos sobrenaturais relacionados ao Homem Alto. Era o começo de uma jornada que duraria quase quatro décadas.

1988 — Phantasm II — Reggie
O personagem retorna muito mais envolvido na guerra contra o Homem Alto. O segundo filme amplia sua importância dentro da saga e ajuda a moldar a versão mais combativa que os fãs aprenderiam a amar.

1990 — Silent Night, Deadly Night 4: Initiation — Eli
Bannister ampliou sua presença no cinema de terror ao participar do quarto capítulo da franquia Silent Night, Deadly Night.

Quando Reggie virou o caçador

1994 — Phantasm III: Lord of the Dead — Reggie
Aqui, o antigo vendedor de sorvetes já ocupa definitivamente o centro da ação. O terceiro filme consolidou Reggie como um dos principais heróis da franquia.

1997 — Wishmaster — Det. McCarthy
Participação em outro título que se tornaria cult entre fãs do terror dos anos 1990.

1998 — Phantasm IV: Oblivion — Reggie
Mais uma vez, Bannister retorna ao universo surreal de Coscarelli e à interminável batalha contra o Homem Alto.

2016 — Phantasm: Ravager — Reggie
Trinta e sete anos depois do primeiro filme, Bannister voltou ao personagem para o quinto capítulo da saga. O longa encerrou uma das mais duradouras associações entre ator e personagem do terror independente.

Quando o homem comum vira imortal

Por fim, Reggie Bannister nunca precisou ser o monstro da franquia para se tornar inesquecível.

Não tinha as lâminas de Freddy, nem escondia o rosto atrás da máscara de Jason. Também não era a presença ameaçadora do Homem Alto.

Era justamente o contrário. Reggie parecia um de nós: um sujeito comum que tocava guitarra, vendia sorvetes e, por algum azar cósmico monumental, acabou precisando enfrentar criaturas sobrenaturais, dimensões paralelas e esferas voadoras assassinas.

E continuou voltando. Filme após filme, década após década.

Talvez seja por isso que a despedida de Reggie Bannister tenha um peso diferente para os fãs de Phantasm. Angus Scrimm deu à saga seu grande pesadelo; Bannister ajudou a dar a ela seu coração.

Sendo assim, o Homem Alto pode até ter perseguido Reggie durante quase quarenta anos, mas algumas lendas nem ele consegue levar embora.

 

Quer saber mais novidades sobre filmes? Então, clique aqui.

Conheça nosso canal no YouTube: