Há bandas que comemoram aniversário soprando velas. O Helloween preferiu apagar qualquer dúvida sobre sua longevidade com guitarras, serpentinas, balões gigantes e mais de duas horas de power metal.
Diante de uma Suhai Music Hall lotada, no dia 19 de setembro, os alemães encerraram a turnê de 2026 provando que quatro décadas de carreira não precisam virar uma visita guiada ao museu.
O repertório atravessou diferentes formações, recuperou raridades e reuniu Michael Kiske, Andi Deris e Kai Hansen no mesmo palco, com espaço para nostalgia, material recente e pequenas imperfeições humanas.
No fim, a abóbora chegou aos 40 anos com algumas marcas do tempo, mas ainda pegando fogo.
A casa abriu os portões sem invocar o caos

Foto por Débora Lyrio
Antes de a banda entrar em cena, a própria Suhai Music Hall passou por um teste importante. Afinal, receber um show esgotado de heavy metal exige mais do que pendurar algumas caveiras na parede e torcer para o público encontrar o banheiro.
Na experiência desta reportagem, a operação funcionou bem. A abertura dos portões ocorreu no horário previsto e a apresentação começou pontualmente às 21h. Os banheiros estavam acessíveis e em boas condições, enquanto a disposição dos mezaninos ajudou a distribuir o público e ofereceu diferentes possibilidades de visão do palco.
A percepção corresponde à proposta estrutural apresentada pela própria casa. Segundo o site oficial da Suhai Music Hall, o espaço comporta mais de 9 mil pessoas, possui pista de 2.900 m², áreas cobertas e climatizadas, mais de 12 bares, camarotes e mezaninos com visão privilegiada.
Nada disso rouba a atenção quando funciona, e esse é justamente o elogio. A estrutura permitiu que o público se preocupasse com o Helloween, não com uma missão paralela para localizar saídas, banheiros ou um ponto minimamente confortável.
Três vozes entraram numa abóbora

A formação atual do Helloween poderia facilmente virar uma reunião de condomínio com sete pessoas tentando falar ao mesmo tempo. Entretanto, o palco mostrou justamente o contrário.
Michael Kiske e Andi Deris dividiram boa parte do repertório com naturalidade. Ora cantavam juntos, reforçando refrões construídos para serem berrados por milhares de pessoas, ora deixavam que cada fase da banda recuperasse sua própria identidade.

Kai Hansen, por sua vez, assumiu o centro do palco em canções associadas aos primeiros anos, especialmente “Ride the Sky” e “Heavy Metal (Is the Law)”. Não parecia um convidado visitando a antiga casa, mas uma peça novamente encaixada no lugar de onde nunca deveria ter desaparecido.



Enquanto isso, Michael Weikath, Sascha Gerstner e Markus Grosskopf sustentaram a muralha instrumental sem disputar espaço desnecessariamente. Dani Löble também teve seu momento particular com um solo de bateria recebido como atração, não como intervalo técnico disfarçado.

A força do show nasceu justamente dessa convivência. Em vez de apagar as mudanças de formação, o Helloween transformou cada uma delas em parte do espetáculo.
O repertório escapou da prisão dos grandes sucessos
Depois de “Let Me Entertain You”, de Robbie Williams, preparar ironicamente o terreno, a banda começou com “March of Time”. A escolha já deixou claro que a noite não seguiria apenas a cartilha dos sucessos obrigatórios.
Na sequência, “The King for a 1000 Years” colocou a fase de Andi Deris no centro da celebração. Depois vieram “Future World”, posicionada surpreendentemente logo no começo, e uma sequência formada por faixas como “We Burn”, “Twilight of the Gods”, “Ride the Sky” e “Hey Lord!”.
Outro presente apareceu com “I’m Alive”, tocada pela primeira vez nessa turnê. Afinal, algumas dessas composições não frequentavam os shows desde a época de seus respectivos lançamentos.
O álbum Giants & Monsters também ganhou espaço com “This Is Tokyo”, “Into the Sun”, “Universe (Gravity for Hearts)” e “A Little Is a Little Too Much”. Naturalmente, o material recente não provocou o mesmo coral ensurdecedor dos clássicos, mas evitou que a comemoração virasse uma banda cover de si mesma.
Essa escolha cobrou um preço. Canções como “If I Could Fly”, “Forever and One (Neverland)” e “How Many Tears” ficaram de fora, enquanto a fase Deris poderia ter recebido uma representação mais ampla. Por outro lado, qualquer repertório capaz de atravessar 40 anos deixará alguém agarrado ao próprio disco favorito, perguntando por que aquela faixa específica não entrou.
Kiske tropeçou, mas a música não caiu

Uma crítica não precisa fabricar defeitos, porém também não deve esconder o que aconteceu. Dois breves desencontros foram perceptíveis durante a apresentação, sendo o mais evidente em “Eagle Fly Free”, quando Michael Kiske perdeu a entrada depois do primeiro refrão e chegou a interromper momentaneamente o vocal.
Parte do público atribuiu o episódio a uma possível falha de Dani Löble. Contudo, sem acesso ao retorno dos músicos ou às pistas isoladas da mesa de som, responsabilizar vocalista ou baterista seria transformar palpite em laudo pericial. O mais correto é registrar que houve um desencontro entre voz e execução.
Isso não comprometeu a apresentação. Kiske havia passado boa parte da noite mostrando por que continua entre as vozes mais reconhecíveis do metal, além de compensar qualquer tropeço com bom humor, simpatia e interação constante. A recepção compreensiva do público também impediu que segundos imperfeitos engolissem mais de duas horas de competência.
Outra ressalva veio da análise de Igor Miranda, que identificou um som embolado e estridente em pontos das pistas comum e premium. A observação merece ser registrada, sobretudo porque a percepção acústica pode mudar bastante conforme a posição.
Na experiência geral do Teoria Geek, onde eu estava, entretanto, nenhum problema técnico foi suficiente para diminuir o impacto da noite.
Talvez essa seja a medida justa: os erros existiram, mas não receberam tamanho maior do que tiveram.
O acústico desmontou as armaduras

Um dos momentos mais simpáticos surgiu quando Kiske e Deris ficaram sozinhos no palco. Sentados, os vocalistas brincaram com trechos de “Suspicious Minds”, de Elvis Presley, e “Yesterday”, dos Beatles, antes de iniciarem “A Tale That Wasn’t Right”.
A primeira parte permaneceu acústica. Depois, a banda completa retornou e transformou a balada numa demonstração de como peso e delicadeza podem ocupar a mesma música sem pedir autorização ao síndico do heavy metal.
Mais do que uma pausa, o trecho mostrou a cumplicidade entre dois cantores que, em outra realidade, poderiam ter sido apresentados como rivais. A química descontraída entre ambos resume a principal virtude desta fase: o Helloween não parece sete contratos dividindo um palco, mas uma banda inteira satisfeita por ainda estar ali.
“I Want Out” ainda é um grito de liberdade

Foto por Débora Lyrio.
Para mim, o momento mais marcante não poderia ser outro.
Ouvi “I Want Out” ao vivo pela primeira vez no Rock in Rio de 2019, numa fase em que sua letra encontrou um significado muito maior do que o de um clássico do power metal. Naquele momento, a música se transformou num grito de liberdade diante da vida que eu levava.
Não foi apenas um refrão cantado com milhares de pessoas. Foi o início de uma mudança na forma como eu enxergava minhas escolhas, meus limites e aquilo que ainda aceitava. Hoje sou uma pessoa completamente diferente, e parte dessa transformação começou naquele show.
Por isso, ouvir “I Want Out” novamente, sete anos depois, não significou voltar ao mesmo lugar. Foi encontrar a pessoa que eu era em 2019 e mostrar a ela que aquele grito não ficou perdido no meio da multidão.
Em São Paulo, a música apareceu no meio do repertório, distante da posição final que costuma ocupar. Para mim, isso não reduziu seu impacto. Apenas antecipou o momento em que o show deixou de ser somente uma comemoração dos 40 anos do Helloween e voltou a conversar com a minha própria história.
O futuro ganhou serpentinas e o doutor soltou as abóboras

A produção visual acompanhou o tamanho da celebração. Telões, iluminação, animações e intervenções narradas pelo Keeper transformaram o palco sem sufocar os músicos.

“Future World” recebeu uma chuva de serpentinas, efeito que voltou em outro momento da apresentação. Já durante “Dr. Stein”, enormes balões laranja foram lançados sobre a plateia, convertendo a pista numa mistura de laboratório, festa de aniversário e campeonato mundial de não deixar a abóbora cair no chão.

A despedida utilizou o trecho final de “Keeper of the Seven Keys”, depois de “Eagle Fly Free”, “Power” e “Dr. Stein” formarem um bis difícil de contestar. Em seguida, os músicos permaneceram no palco agradecendo, saudando o público e distribuindo palhetas e baquetas.
Não houve pressa para encerrar. Depois de 40 anos, o Helloween parecia saber que alguns minutos de gratidão valem mais do que qualquer pose cuidadosamente ensaiada.
Quarenta anos e ainda muito vivo

O Helloween não apresentou um show perfeito, mas entregou algo mais valioso: uma celebração viva, generosa e consciente da própria história.
As pequenas falhas não esconderam o desempenho dos músicos, assim como a ausência de alguns clássicos não impediu o repertório de representar diferentes períodos. Pelo contrário, as raridades, as músicas recentes e a alternância entre os três vocalistas mostraram uma banda que não deseja passar o resto da carreira apenas tirando poeira de troféus antigos.
A Suhai Music Hall também cumpriu bem sua parte. Pontualidade, estrutura, acessibilidade e organização permitiram que uma apresentação esgotada acontecesse sem transformar a experiência do público numa batalha anterior ao primeiro acorde.
Se o Dr. Stein conseguiu construir vida juntando peças diferentes, o Helloween fez algo parecido em São Paulo: reuniu fases, vozes, lembranças, alguns tropeços e milhares de fãs numa criatura de 40 anos que continua barulhenta, divertida e muito longe de precisar voltar ao laboratório.
Repertório do Helloween em São Paulo
- “March of Time”
- “The King for a 1000 Years”
- “Future World”
- “This Is Tokyo”
- “We Burn”
- “Twilight of the Gods”
- “Ride the Sky”
- “Into the Sun”
- “I’m Alive”
- “Hey Lord!”
- “Universe (Gravity for Hearts)”
- Solo de bateria
- “I Want Out”
- “A Tale That Wasn’t Right”, com trechos de “Suspicious Minds” e “Yesterday”
- “A Little Is a Little Too Much”
- “Heavy Metal (Is the Law)”
- “Halloween”
Bis
- “Invitation” e “Eagle Fly Free”
- “Power”
- “Dr. Stein”, com o encerramento de “Keeper of the Seven Keys”
Conheça nosso canal no YouTube:







