TUDO EM TODO LUGAR AO MESMO TEMPO

Depois de alguns meses de atraso em relação ao lançamento nos Estados Unidos, finalmente chegou ao Brasil o queridinho “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”. Produzido pela também queridinha A24, produtora que ganhou fãs nos meios cinéfilos do mundo todo, o filme dirigido pelos Daniels tem sido muito bem recebido pela forma inusitada com que trata as relações de uma família chinesa morando nos Estados Unidos.

“Uma ruptura interdimensional bagunça a realidade e uma inesperada heroína precisa usar seus novos poderes para lutar contra os perigos bizarros do multiverso”, nos conta a sinopse. Sendo assim, é óbvia, até pelas datas de lançamento próximas, a comparação inicial com “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”. Mas, essa brincadeira já muito feita revela uma verdade mais profunda sobre o filme. “Tudo em Todo Lugar…” se aproveita da narrativa expansiva, com vários “multiversos”, para impor uma certa “Marvelização”, ou seja, um jogo de pistas e easter eggs que, ao menos em teoria, enriquecem a experiência do espectador que se preocupa em aprofundar e identificar as diversas fontes da cultura pop que o filme se apropria para construir sua história e os mundos que se apresentam durante a projeção.

Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo e o cinema da China
Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), dos Daniels

Referências essas que transitam entre cenas e visuais bem identificáveis do cinema chinês ou de seus discípulos ocidentais. Para ficar em duas óbvias: a inspiração de um dos multiversos nas imagens do cineasta Wong Kar-Wai, mais notadamente de “Amor à Flor da Pele” (2000), de um lado, e as ligações mentais entre universos feitas por computadores dos anos 90 como em “Matrix” (1999), de outro. Kung Fu, sequências de ação em câmera lenta e a atriz Michelle Yeoh completam o mix da “cultura chinesa para gringos” que o filme assume.

Já que revisões para encontrar todas as referências se tornaram comuns, podemos dar um passo a mais e usar de “Tudo em Todo Lugar…” para discutir um pouquinho o cinema chinês e indicar uma boa porta de entrada para uma forma cinematográfica tão distinta da nossa, ainda que o ocidente continuamente tente absorver essa forma de jeitos mais palatáveis para o grande público. Já de cara é importante esclarecer que o que chamamos aqui de cinema chinês se refere principalmente ao eixo China-Hong Kong, sem entrar nos pormenores das diferenças entre as duas indústrias que se resvalam e se distanciam em igual medida, no intuito de tratar de questões mais gerais em relação aos cinemas destes territórios.

UMA BREVE QUESTÃO HISTÓRICA

É curioso que a questão central para a narrativa de “Tudo em Todo Lugar…” seja a de uma mente rachada, dividida, porque a história da China também é a de um país cortado, quebrado e dividido. Desde o século XVIII, as potências imperialistas começavam a exercer seus poderes pela Ásia; no século seguinte, a Inglaterra passa a comercializar ópio na China (proibido nas terras britânicas e no próprio país), causando uma disputa com o governo chinês que ficou conhecido como A Guerra do Ópio. A vitória dos ingleses impôs uma série de tratados desiguais, que garantiam a abertura dos portos chineses, a comercialização do ópio e a ação de missionários cristãos. Um desses tratados obrigou a China a entregar Hong Kong para os britânicos, com a região tornando-se uma colônia. O país dividido entre os poderes das potências imperialistas (Inglaterra, França, Japão, Estados Unidos…).

Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo e o cinema da China
Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), dos Daniels

De 1916 a 1928, viu seu território dividido entre os Senhores da Guerra, os chefes militares da República Chinesa. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Império japonês invade a região com o intuito de anexá-la ao seu poder, inclusive escravizando e prostituindo as mulheres chinesas. Mesmo com a reestruturação do país iniciada por Mao Tsé Tung a partir de 1959, os conflitos dentro do território chinês continuam até hoje, por exemplo em relação a Hong Kong, que deixa de ser colônia inglesa apenas nos anos 1990, e se torna uma zona independente e com governo próprio.

Esse brevíssimo contexto histórico é importante porque muito dos cinemas chineses partem de questões de nacionalidade, seja nos grandes filmes de estúdio mais ligados ao continente, seja nos filmes mais independentes de Hong Kong. A partir da década de 1970, com a Nova Onda de Hong Kong, vários diretores, com estilos diferentes e distintos entre si, surgiram e ajudaram a consolidar a produção local, hoje uma das únicas que bate de frente com a produção hollywoodiana. Comumente, com esses temas perpassando as obras de cineastas distintos. Wong Kar-Wai, por exemplo, que é citado visualmente em “Tudo em Todo Lugar…”, localiza seus filmes em uma sociedade moderna, tomada por símbolos do imperialismo ocidental e do mundo globalizado, como McDonald’s e placas da Coca-Cola. Um outro exemplo, bem recente, é o filme “Limbo” (2021), de Soi Cheang, que trata de Hong Kong como um não-lugar, “perdido” entre o continente socialista e a sociedade capitalista ocidental.

Chungking Express
Chungking Express (1994), de Wong Kar-Wai

Mesmo nas grandes produções, o tema da nacionalidade é importante, sendo comum que estes filmes tratem de lendas da cultura chinesa ou de eventos reais da história. É aqui que a dica de hoje do Sessão Dupla se encaixa, “Era Uma Vez na China” (1991), de Tsui Hark. Este é o primeiro de uma série de filmes históricos, que acompanha o médico Wong Fei Hung, figura real importante por seu combate contra as forças estrangeiras que invadiam seu país. Interpretado por Jet Li, ainda novinho, o médico também era mestre em Kung Fu, o que coloca “Era Uma Vez…” como um ótimo representante do cinema de artes marciais, que diretores chineses como John Woo ajudaram a popularizar mesmo nos Estados Unidos nos anos 1990.

ERA UMA VEZ NA CHINA

O anti-imperialismo é a marca registrada do filme, que mostra o território dividido entre o controle principalmente da Inglaterra e da França. Um épico de ação preocupado em representar uma nacionalidade e a defesa dela, explorando o estilo anárquico de Hark, ainda que adaptado para um entretenimento popular em relação aos trabalhos da Nova Onda feitos pelo diretor. Como costuma-se dizer dos grandes cineastas da ação, o movimento nos filmes de Hark se aproxima de uma dança, onde as artes marciais comportam uma musicalidade que é ao mesmo tempo uma forma de batalha e uma expressão cultural, ou seja, uma defesa pessoal e de uma cultura.

Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo e o cinema da China
Era Uma Vez na China (1991), de Tsui Hark

Quando se diz de um estilo anárquico, além da questão política que isso possa representar, é também pela oposição consciente do diretor em relação às “regras” da linguagem cinematográfica. Com a câmera, Hark constrói o espaço deslocalizado, com closes e detalhes em câmera lenta, cortes muito rápidos, lentes que deformam as laterais do quadro. Mesmo a narrativa é muito rápida, sem tempo para estabelecer exatamente os personagens. Tudo é puro movimento. E o impacto que cada ação de cada personagem exerce atinge a experiência de quem assiste. Uma espada que corta a tela parece, literalmente, cortar a tela. A montagem acelerada parece acelerar o coração do espectador junto. Não há a distância comum para mostrar os movimentos da luta, mas sim a intenção de colocar quem assiste dentro de cada embate, sentindo cada soco e chute.

Ainda que o todo seja de uma cacofonia visual, cada gesto é devidamente pontuado pelas escolhas de enquadramento e pelo tempo em que aparece na tela. A primeira sequência de “Era Uma Vez…” engloba suas relações temáticas e formais já desde o princípio. Em uma frota de navios, uma apresentação cultural chinesa é interrompida por soldados franceses que atiram nos artistas. Wong Fei, então, salta para salvar os apetrechos da apresentação. Em câmera lenta, com Jet Li pendurado em cabos praticamente flutuando sobre as cordas do navio. O simples gesto de resgatar o figurino de dragão chinês toma um peso completamente diferente: estético, cinético e político.

Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo e o cinema da China
Era Uma Vez na China (1991), de Tsui Hark

Composto por um grande número de cineastas com estilos e preocupações diferentes, os cinemas chineses talvez possam ser definidos de maneira genérica, com o perdão de ser simplista, como uma arte que tira suas particularidades das experiências materiais e identidades nacionais, sejam elas celebratórias ou críticas, como o faz todo grande cinema. Uma expressão cultural que o ocidente continuamente tenta assimilar em vão, mas que é tão específica que, ao conhecê-la, qualquer tentativa – incluindo as que são vendidas como originais e “maluquinhas”, como é o caso de “Tudo em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo” – passa a ser nada além de comum e banal.

“Era Uma Vez na China” está disponível no Prime Video.

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