Depois de enfrentar demônios, dragões, deuses antigos e jogadores irritados com o balanceamento, a Blizzard encontrou um adversário que não pode ser derrotado aumentando o dano do personagem: a negociação coletiva.

Quase 1.900 funcionários ratificaram contratos que estabelecem regras para demissões, trabalho remoto e uso de inteligência artificial. A tecnologia não foi expulsa da raid, mas agora terá de passar pela reunião da guilda antes de alterar as condições de trabalho.

A guilda saiu do chat e entrou no contrato

Os acordos foram alcançados depois de dois anos de negociação entre a Blizzard e trabalhadores representados pela Communications Workers of America, a CWA.

Segundo o comunicado oficial do sindicato, as condições abrangem profissionais de World of Warcraft, Overwatch, Diablo, Hearthstone, Warcraft Rumble, controle de qualidade, tecnologia, desenvolvimento de histórias e outras áreas compartilhadas.

Além de reajustes salariais, os contratos estabelecem procedimentos para reclamações trabalhistas, proteção contra demissão sem justa causa, adaptações para pessoas com deficiência e manutenção do modelo híbrido, com três dias presenciais por semana.

A IA não foi banida, só perdeu acesso de administrador

O trecho mais significativo obriga a Blizzard a discutir, avaliar e negociar usos de inteligência artificial que afetem o ambiente de trabalho.

Isso não significa que funcionários poderão vetar automaticamente qualquer ferramenta, tampouco que a empresa esteja proibida de utilizar IA. O acordo estabelece que mudanças relevantes não poderão simplesmente chegar como uma atualização silenciosa instalada pela administração.

Conforme destacou a PC Gamer, a cláusula cria um precedente importante numa indústria em que a tecnologia já ameaça transformar funções criativas antes mesmo de alguém terminar de ler os termos de uso.

Demissão continua existindo, mas ganhou mecânica de retorno

Os contratos também ampliam a proteção dos trabalhadores diante dos cortes que atingem repetidamente o setor de games.

Funcionários sindicalizados demitidos terão direito a quatro semanas adicionais de indenização, independentemente do tempo de serviço. Além disso, poderão retornar a vagas abertas em qualquer unidade sindicalizada da Blizzard durante 14 meses após o anúncio do desligamento.

O direito de retorno não impede demissões, mas dificulta que profissionais experientes sejam descartados numa atualização e substituídos por novas contratações na seguinte. Segundo o Los Angeles Times, os cortes anunciados pela divisão de games da Microsoft tiveram peso considerável durante as negociações.

A Microsoft ganhou uma missão trabalhista

A presidente da Blizzard, Johanna Faries, reconheceu a ratificação como um marco e afirmou que os acordos refletem o compromisso de continuar trabalhando em conjunto com as equipes.

O resultado também pressiona outros estúdios controlados pela Microsoft. Afinal, depois que uma empresa do tamanho da Blizzard aceita negociar IA, indenizações e segurança profissional, fica mais difícil fingir que essas discussões pertencem apenas ao reino da fantasia.

Durante anos, jogadores aprenderam que entrar numa raid sem combinar funções é a maneira mais rápida de provocar uma catástrofe. Com o novo contrato, a Blizzard descobriu que a mesma regra vale para inteligência artificial: antes de soltar a máquina no mapa, será preciso conversar com quem mantém o servidor funcionando.

 

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