Um dos lançamentos da HBO em 2018 foi a série Objetos Cortantes, adaptação da obra literária de Gillian Flynn. O livro que deu origem à série foi publicado em 2006 e é o primeiro da autora que também escreveu Garota Exemplar, outro sucesso que foi igualmente adaptado para as telas, dessa vez como filme, em 2014.  

Em Objetos Cortantes, acompanhamos a jornada de Camille Preaker (vivida por Amy Adams), uma jornalista investigativa que é designada para averiguar o desaparecimento de duas garotas em Wind Gap, sua cidade natal. Devido a familiaridade que ela tem com o local, seu editor-chefe a encarrega de explorar o mistério que está cercando a cidade, porém, como percebemos ao longo do enredo, Camille não fica nada contente ao ser obrigada a retornar.

No decorrer da história, vemos as várias motivações que ela tem para não gostar do ambiente em questão, e seu retorno à cidade acarreta em inúmeras reviravoltas dentro de si mesma. Camille é alcoólatra e possui problemas psicológicos que fazem com que pratique auto-mutilação. Devido a isso, ela tem o corpo repleto de cicatrizes de palavras escritas na própria carne, feitas com a utilização de objetos cortantes. Consequentemente, Camille é dona de uma personalidade reservada e discreta, usando sempre roupas de tons escuros e que cubram perfeitamente seus braços e pernas. 

O título de cada episódio representa algumas das palavras marcadas na pele de Camille. Ela não apenas se mutila sem qualquer padrão, cada agressão equivale a uma palavra que simboliza algo para si mesma e ela sente necessidade de deixar aquilo gravado em seu corpo.

Tais transtornos surgiram exatamente como resultado de sua infância e adolescência vividas em Wind Gap. Desavenças com a mãe, que nunca lhe deu apoio ou atenção, não possui o mínimo apreço por ela e faz questão de deixar isso claro, junto com uma total falta de afeto, fazem com que Camille afunde ainda mais e desconte no álcool essas perturbações. 

A família é composta pela mãe, Adora (representada por Patricia Clarkson), pelo padrasto, Allan (Henry Czerny), e pela filha caçula, meia-irmã de Camille, Amma (Eliza Scanlen), uma garota que tem em torno de 14 anos, é mimada e faz coisas proibidas para a idade, porém, aos olhos dos pais, é uma bonequinha de porcelana, perfeitamente delicada e pronta para obedecer aos mais velhos. Com o desenrolar da trama, percebemos que Amma é extremamente manipuladora e faz com que todos ao seu redor realizem tudo que ela quer. 

Wind Gap, que é o cenário de onde acompanhamos a história, é uma cidade pequena e podemos perceber a divisão de classes sociais que existe entre o público local. As pessoas são bisbilhoteiras, todos se conhecem e aqueles que não possuem um bom status social, trabalham em subempregos.

A chegada de Camille à cidade deixa a população curiosa pois a mesma veio para investigar o desaparecimento de duas meninas pré-adolescentes e a situação mexeu com os ânimos dos moradores que estão sendo analisados pelas autoridades que buscam desvendar o mistério dos crimes ocorridos.

O enigma que envolve a cidade traz à tona diversas lembranças de Camille no período da infância/adolescência e vamos compreendendo o que ocasionou o estado caótico em que ela se encontra atualmente. Seu retorno à Wind Gap manifesta-se como um mergulho no passado e em meio à investigação que se sucede, juntamente com o detetive Richard Willis, (vivido por Chris Messina) enviado especificamente para investigar o caso das meninas desaparecidas, eles seguem analisando as possibilidades do que pode ter acontecido.

Tensão, suspense, problemas psicológicos, mistério e drama familiar são os componentes dessa minissérie. Com 8 episódios no total, em uma só temporada desvendamos todo o emaranhado de incidentes até chegar a um final impactante e inesperado. O plot twist da última cena nos deixa refletindo sobre o que acabamos de assistir e ficamos querendo ligar todos os pontos para poder compreender na íntegra a história sendo encaixada.

Objetos Cortantes possui uma trilha sonora incrível que também é um ponto merecido de ser comentado, pois, é composta de músicas que encaixam perfeitamente na cena reproduzida, ressaltando o clímax da história e sendo incorporada à tensão narrada. Nos sentimos efetivamente vivendo em Wind Gap, partilhando de todos os segredos que a envolvem. 

A série nos lança a reflexões sobre como podemos lidar com situações de atritos familiares, traumas vividos ao longo dos anos e as consequências desses traumas. É uma história que prende a atenção e levanta questionamentos em torno dos problemas psicológicos existentes, muitas vezes, dentro de cada um de nós, ocasionados por baques do passado e que refletem negativamente no presente.

A adaptação mostrou-se bastante fiel ao livro em que foi baseada e a direção ficou por conta de Jean-Marc Vallée, diretor também de Big Little Lies (outro sucesso da HBO).

Até o momento foi descartada uma possível nova temporada, levando em conta que toda a trama foi desvendada nos 8 episódios apresentados. Porém, o mesmo foi dito em relação a Big Little Lies que teria também apenas uma e atualmente estão produzindo a segunda temporada da série, devido o sucesso de público e boa avaliação da crítica.

Ficamos no aguardo de novidades. Vamos esperar para ver!