Johnny Depp, Amber Heard e a opinião pública

Nos últimos meses, a transmissão em plataformas de streaming que mais repercutiu e que mais quebrou recordes não foi a de nenhuma série ou filme. Curiosamente, foi o julgamento de uma ação de difamação movida por Johnny Depp contra a ex-esposa Amber Heard. Em seis semanas, a rede americana Law & Crime, que passou todas as audiências do processo no YouTube, chegou a um total de 83.9 milhões de horas assistidas. Com um pico de acesso simultâneo de 3.5 milhões de pessoas.

A CourtTV, outra rede americana de canais jurídicos, teve um aumento, em maio, de 239% na televisão e 300% em seu streaming. Outros números assustadores são das redes sociais. A palavra “julgamento” apareceu nos chats da Twitch 8 mil vezes, e os nomes de Johnny Depp e Amber Heard 960 e 979 vezes, respectivamente, no primeiro dia do processo. As menções ao julgamento e a Amber Heard voltaram a subir depois que as fotos com hematomas no rosto da atriz foram reveladas. A palavra “julgamento” foi mencionada 16 mil vezes e o nome dela apareceu 9 mil vezes nos chats.

Em 1º de junho, quando o tribunal decidiu oficialmente que a manchete e as duas declarações feitas na entrevista de Heard difamavam Depp, as menções ao ator na Twitch dispararam: seu sobrenome apareceu nos chats 24 mil vezes. Já no TikTok, o engajamento foi ainda maior. Segundo um artigo da BBC, o número de visualizações de vídeos no TikTok com a hashtag #justiceforjohnnydepp era de cerca de 18 bilhões no momento em que o texto estava sendo escrito.

Sessão Dupla: O quanto temos nossas opiniões influenciadas por poderosos e pela mídia? Coloca os óculos escuros da verdade e descubra!

Mas, quanto desse engajamento foi orgânico? O mesmo artigo conta que uma empresa israelense contra a desinformação online acompanhou todo o processo e descobriu que cerca de 11% da discussão foi conduzida por contas falsas na internet. Segundo o diretor da empresa, este seria um número enorme, dado que normalmente a porcentagem de contas falsas em grandes discussões fica entre 3% e 5%. Mesmo os advogados de Heard já haviam declarado preocupação quanto a quantidade de fakes levando a discussão em favor de Depp.

Fora das redes sociais, não foi difícil perceber a enxurrada de notícias e cobertura da mídia sobre o caso. Nem perceber que em sua maioria a cobertura midiática tinha um lado. Pouco ou nada se falou que, apesar do caso de difamação, Depp já havia sido condenado pela Justiça por ter agredido violentamente Heard. Será que a fama e o poder do ator não entraram na equação na hora da mídia fazer sua cobertura? E quanto da opinião pública, favorável a Depp, não foi influenciada por essa mesma cobertura?

Enquanto é praticamente impossível provar qualquer afirmação sobre essa influência, a discussão sobre o poder da mídia e de seus agentes está posta. E já que o assunto é uma certa doutrinação da opinião pública, o Sessão Dupla de hoje é sobre um filme que pode ajudar nessa reflexão tão necessária: “Eles Vivem” (1988), de John Carpenter, diretor conhecido por “Halloween” (1978) e “O Enigma de Outro Mundo” (1982).

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“Eles Vivem” e os óculos escuros da verdade

“John Nada, um andarilho sem sentido em sua vida, descobre um par de óculos escuros de sol capaz de mostrar o mundo como ele realmente é. Enquanto caminha pelas ruas de Los Angeles, Nada percebe que tanto a mídia quanto o governo usam de mensagens subliminares no cotidiano, destinadas a manter a população subjugada”, diz a sinopse. “Eles Vivem” é uma mistura de gêneros, como é comum na obra de Carpenter: praticamente uma paródia política de ficção científica. E as duas coisas são intrínsecas: o filme só é tão poderoso politicamente por ser uma paródia.

Carpenter se apropria da paranoia dos filmes de monstros dos anos 50, dos extraterrestres invasores de corpos, como a verdadeira imagem por trás da sociedade capitalista. Alegoricamente invertendo a lógica do real. Toda a nossa sociedade de consumo é uma mentira criada para nos dominar, a verdade é digna de um terror hollywoodiano. Quando coloca os óculos escuros, Nada vê as revistas, os programas de TV, os outdoors com a verdadeira forma que têm: ordens para que os humanos se reproduzam, consumam, não pensem, e vejam o dinheiro como um deus. Uma cena de um padre que diz como a elite controla os seres humanos é cortada para um plano de uma televisão que mostra o Monte Rushmore, com as faces dos pais fundadores dos EUA entalhadas na pedra. Um corte preciso, metafórico, hilário, como todo o filme. Uma crítica tão óbvia e, por isso, tão essencial e poderosa.

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O cinema do diretor costuma tratar de temas sociais, normalmente de uma sociedade ou grupo social aterrorizados por um Mal, desconhecido e escondido. Michael Myers, o assassino de “Halloween” é a personificação desse mal, que aterroriza um subúrbio americano incapaz de não se destruir com a influência maléfica. A “coisa” do “Enigma de Outro Mundo” também, agora invisível, mas sempre presente. Em “Eles Vivem”, a questão colocada é a da visão. Os óculos escuros que permitem ver quais são os seres que controlam nossa vida cotidiana; quem e como as elites do planeta ditam nossos gostos e formas de vida a partir da mídia. Uma vez que passamos a ver, que reconhecemos a verdade por trás das imagens, das propagandas e programas que consumimos, somos capazes de agir.

Mas como agir? John Nada é um típico herói de filmes dos anos 80, bombado, que sai na porrada e solta frases de efeito. Sua ação é por meio da violência, como sempre era nos Rambos da vida, mas aqui ele não é um soldado, uma peça no xadrez de poder norte-americano. Ele é um trabalhador braçal, pobre, que mora num acampamento de sem-tetos. É um herói revolucionário. Num dos momentos mais icônicos do filme, uma longuíssima cena de luta entre Nada e seu amigo Frank, a porradaria acontece porque o protagonista tenta convencer o outro a colocar os óculos escuros. Momento também típico dos filmes de ação da época, absurdo e engraçado, mas com um subtexto profundo. É difícil convencer os outros que eles estão sendo manipulados. Mais ainda, nesse caso. Frank é um homem negro, pobre, que tem uma família para sustentar. A necessidade, a pobreza, a batalha pelo sustento também são formas de dominação.

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Carpenter é, assumidamente, muito influenciado por Howard Hawks, diretor do cinema clássico Hollywoodiano, que também se apropriava dos gêneros cinematográficos a partir de suas preocupações específicas. No caso, das ações dos homens perante sociedades que, ou eram atacadas por grupos outsiders, como em seus faroestes, ou precisavam se manter com suas características particulares em um mundo que dificulta a manutenção desses estilos de vida, como em “Paraíso Infernal” (1939). Um cineasta que a partir das ações obstinadas de indivíduos tratava da sociedade moderna como ninguém. John Carpenter herda essa aptidão para construir universos expressivos visualmente e tematicamente.

A Los Angeles de “Eles Vivem” é construída a partir dos contrastes sociais que aparecem pelas bordas e pelo fundo do Cinemascope, um tamanho de tela largo que abriga os prédios da metrópole capitalista que engolem os acampamentos dos moradores de rua, os sítios de obras em que o protagonista trabalha, as ruas apinhadas de proletários. O aspecto repressivo contra aqueles que não se subjugam pelo sistema aparece nos helicópteros que sobrevoam observando os cidadãos, e na sequência assustadora em que a polícia, numa contraluz vermelha, invade e destrói as moradias populares, como monstros saídos da escuridão.

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Assim como Hawks, que fazia obras-primas dos gêneros em que se arriscava, Carpenter faz com “Eles Vivem” uma obra-prima da comédia, da ficção científica, do filme de ação, do cinema político. Com seu bom-humor e sua disposição de acreditar nos gêneros e tratá-los como terrenos férteis para seus interesses artísticos, o cineasta alcança um tratado político que discorre, no tempo das mídias de massa, sobre o conceito de ideologia. Na concepção da palavra que significa um conjunto de pensamentos das classes dominantes que são passados para as classes dominadas sem que elas percebam. E pior, de forma que elas passem a defender e reproduzir essas ideias e práticas que, na verdade, servem para oprimi-las.

A partir desse conceito, e desse filme, que demonstram que nossos gostos, ideias, costumes, opiniões, podem estar sendo decididas e manipuladas por grupos dominantes que têm seus próprios interesses por trás disso (como numa cena de “Eles Vivem”, que conta que as criaturas que controlam o mundo são “empreendedores” que vieram escravizar a Terra), fica posta a discussão. O que a gente vê na TV, no cinema, nos streamings, nos jornais, nas revistas influenciam a nossa forma de pensar? Quem se beneficia das narrativas que nos são transmitidas? Basta colocar os óculos escuros da verdade para descobrir.

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