SESSÃO DUPLA

Um dos grandes apelos do cinema, e de qualquer forma de arte audiovisual, é o de ser uma “máquina de empatia”, como dizia o crítico Roger Ebert. Ou seja, de permitir ao espectador abrir os horizontes, conhecer novas histórias, descobrir outras visões de mundo e da arte. Assistir a um filme, um anime, um dorama, uma série, nos traz uma perspectiva nova do mundo, em que os criadores, diretores, animadores nos permitem um vislumbre da realidade vista por um outro filtro, o deles, que é sempre diferente do nosso.

Como geeks que somos, nossa paixão passa pela descoberta, por nos aprofundarmos nesses mundos, conhecermos todos os detalhes e cânones das coisas que gostamos. Seja em qual edição daquele quadrinho o personagem tal apareceu pela primeira vez, seja qual o diretor que fez aquele filme em que ano. Além disso, também sempre buscamos descobrir coisas novas.

Por isso, a ideia para esse novo espaço no Teoria Geek é ajudar nessas descobertas. A partir desse mundo que já dominamos, abrir portas para novas aventuras pelo audiovisual. Usar de um lançamento ou de um tema que está em voga para indicar filmes ou séries inusitados, fora do mainstream e do momento atual. Sempre traçando ligações entre o nosso mundo e o mundo de gêneros pouco conhecidos, de gerações anteriores ou da produção de outros países. O objetivo é sempre se divertir enquanto se abre outros horizontes.

Suspiria

FEITICEIRAS ESCARLATES E BRUXAS VERMELHAS

Aproveitando, então, que o hype com a estreia de “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” ainda está lá no alto, a dica de hoje pode ser considerada uma homenagem à nossa Feiticeira Escarlate. Aparecendo interpretada por Elizabeth Olsen pela primeira vez em 2015, no filme “Vingadores: Era de Ultron”, a personagem foi ganhando relevância no Universo Cinematográfico da Marvel. Provavelmente entre os mais poderosos que apareceram nas telas, a Feiticeira Escarlate já demonstrou o quão perigosa pode ser, tanto na série “Wandavision” quanto no filme do Doutor Estranho.

É verdade que Wanda Maximoff é uma mutante e seus poderes não são mais sobrenaturais do que os do Wolverine, do Homem Aranha ou do Hulk. Ainda mais porque os quadrinhos costumam ir pro lado da ficção científica na hora de explicar esse tipo de coisa. Mas, normalmente, as feiticeiras da cultura pop estão mais ligadas à tradições do folclore medieval, das mulheres adoradoras do diabo e praticantes de magia negra. Portanto, do terror.

Dá para tentar traçar um panorama da representação de feiticeiras, ou bruxas, no cinema desde as primeiras décadas. Só para ficarmos em dois exemplos, existe uma versão de O Mágico de Oz, chamada “His Majesty, the Scarecrow of Oz”, que data de 1914. Um outro filme famoso, e assustador, é o “Häxan”, de 1922, que é uma espécie de manual sobre como identificar as adoradoras do demônio e sobre formas de puni-las e torturá-las. Tudo com um humor perverso e lindas imagens fantásticas que remontam a um cinema de atrações e “truques de mágica” de Georges Méliès. Por hoje, a escolha é uma obra um pouco mais recente, de 1977: “Suspiria”, de Dario Argento.

Suspiria

O diretor, italiano, começou como crítico de cinema e depois passou a escrever roteiros para outros mestres, como Sergio Leone, com quem colaborou ao lado de Bernardo Bertolucci na escrita de “Era Uma Vez no Oeste” (1968). Sua estreia na direção foi com “O Pássaro das Plumas de Cristal” (1970), o primeiro dos muitos gialli que faria. Ou seja, de filmes inspirados em livros clássicos de detetives, como os de Agatha Christie (mas isso é história para outro texto). Depois de atingir o ápice dessa primeira fase com “Prelúdio Para Matar” (1975), Argento decide mergulhar no terror sobrenatural com “Suspiria”, também o primeiro de uma trilogia formada por “A Mansão do Inferno” (1980) e “O Retorno da Maldição – A Mãe das Lágrimas” (2007).

“Mergulhar” parece ser um bom verbo para descrever o movimento de “Suspiria”, uma mistura de “Branca de Neve”, “Häxan” e Mario Bava. Argento se inspirou em um sombrio ensaio de Thomas De Quincey, um escritor que passava para as páginas os sonhos e alucinações que tinha quando usava ópio, “Levana and Our Ladies of Sorrow”, para escrever as histórias das Três Mães bruxas. A primeira, Mater Suspiriorum, é dona de uma famosa academia de balé na Alemanha, na qual a dançarina americana Suzy Bannion começa a estudar e onde algumas alunas são assassinadas de formas misteriosas.

O que fica imediatamente claro ao assistir a “Suspiria” é que a narrativa em si é mais uma sucessão de acontecimentos quase aleatórios do que uma história propriamente, sendo apenas uma desculpa para o diretor teorizar, executar e de alguma forma subverter os lugares-comuns do terror a partir de uma realidade mediada pelo pesadelo, por símbolos psicanalíticos e imagens deformadas. A começar pelos movimentos de câmera acrobáticos, que seguem uma lógica específica: às vezes assumem o ponto de vista do assassino, às vezes de suas vítimas, outras tantas parecem circular pela escola por vontade própria, como um trenzinho em uma casa assombrada de parque de diversões. É uma investigação de um olhar sádico, de um medo que transpira através dessas imagens, de uma atmosfera que tudo apodrece e por onde a morte espreita.

Suspiria

Outro elemento marcante é a trilha sonora da banda Goblin, de rock progressivo, que acaba assumindo um papel de organizadora do pesadelo. Não é uma trilha que comenta os acontecimentos, mas, na verdade, praticamente dita o ritmo e a montagem do filme. Além, claro, da atmosfera. O diretor, inclusive, usava a trilha durante as gravações de seus filmes para criar o ambiente desejado além de submeter os movimentos da encenação aos ritmos alucinados propostos pelo som. Elemento tão importante que toda a introdução de “Suspiria” gira em torno do tema musical. Que, inicialmente, atrapalha o narrador durante os créditos e, depois, surge toda vez que as portas do aeroporto, por onde chega Suzy, abrem. Como se fosse parte constituinte do mal que espreita a bailarina e penetra os lugares seguros como o aeroporto.

Argento é um cineasta que une uma inspiração nos cinemas modernos europeus, na nouvelle vague, em Antonioni e Bergman, e no cinema clássico, de gênero, de Hitchcock. É comum as imagens do diretor se deterem, também, pelas paisagens reais das metrópoles italianas, suíças ou alemãs.  E suas histórias buscarem radiografar a sociedade dos anos 70 e 80, com seus medos, características, costumes e perversões. De colocar em contato com o mundo real a lógica dos sonhos e alucinações. Portanto, seu cinema traz tanto um exercício formal moderno, de um cinema de autor, quanto uma autoconsciência de uma certa teatralidade que vem da Hollywood clássica.

Suspiria

Daí, as cores extremas de “Suspiria”, por exemplo, que são resultado da técnica exata do Technicolor utilizada em filmes como “…E o Vento Levou” (1939). Obviamente subvertido em uma ópera rock de assassinatos sanguinolentos e efeitos especiais que reafirmam a habilidade do cinema em ser real a partir da artificialidade. E está aí talvez a grande questão dos filmes do diretor, de trazer o mundo através de um reflexo distorcido, artificial, mas não menos real. De incongruências, acontecimentos sem sentido, ou “bobagens” se vistas a partir de uma ótica realista da coisa, mas que revelam todo o potencial do cinema. Da falta de lógica nas causas e consequência, mas fiel à lógica das sensações.

Deve ter ficado claro por aqui que a relação entre a Feiticeira Escarlate e as bruxas de “Suspiria” foi pensada inicialmente por causa das cores (o escarlate, ou o vermelho que Argento usa com tanta expressividade). Mas, no fundo, essa escolha carrega outra discussão. Se, no começo do texto, falamos sobre como a Marvel e os filmes atuais, no geral, se pautam por uma tentativa de realismo (tanto visualmente quanto em como trabalha seus temas “sobrenaturais”), o cinema de Argento parece estar no lado oposto do espectro. Já que o realismo não deixa de ser apenas uma escolha estética entre tantas, o pesadelo artificial de Dario Argento, tão impactante e hipnótico, pode abrir os horizontes para um outro caminho possível no cinema. Justamente, de uma arte que pode assumir seus artifícios, seus esquemas, suas regras, mas sempre refletindo a realidade, por mais distorcida que ela apareça nesse reflexo. Essa é a ideia, distorcer para revelar. São essas aparências que escancaram o que há de mais humano em cada um.

“Suspiria” está disponível no Amazon Prime Video.


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