Sessão Dupla | Especial Dia das Bruxas: o slasher e o giallo

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O slasher é, provavelmente, o sub-gênero mais famoso do terror, com seus serial-killers sempre portando armas afiadas – seja um facão, uma serra-elétrica, ou luvas com lâminas. Michael Myers, Jason Voorhees, Freddy Krueger e Ghostface são algumas das figuras memoráveis que o slasher criou. Entre o cinema de língua inglesa, é fácil reconhecer alguns precursores desse sub-gênero. “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock, contém a chocante, e genial, cena do chuveiro. Em que um(a) assassino(a), numa mistura de êxtase e repúdio sexual, esfaqueia sua vítima diversas vezes, enquanto o diretor parece fazer o mesmo com a película, cortando o filme em diversos planos usando um recurso que lembra o impacto das montagens soviéticas. “A Tortura do Medo” (1960), de Michael Powell, é praticamente um manifesto e uma análise teórica sobre o sub-gênero que viria nas décadas seguintes. Nele, um voyeur sente prazer ao assistir às gravações que faz dos rostos das vítimas enquanto as mata com uma lâmina embutida em sua câmera. A sequência inicial de “Halloween” (1978), filmada a partir do olhar subjetivo do pequeno Michael Myers, já estava presente quase vinte anos antes, e de maneira muito mais complexa, nos primeiros minutos de “A Tortura do Medo”.

Assistindo a estes dois filmes fica claro o quanto o slasher deve ao terror moderno. Mas, como uma entrevista com John Carpenter parece indicar, há um outro cinema, de um outro país, que foi essencial para a existência do slasher. Falando ao Le Cinéma Club, o diretor de “Halloween” e “O Enigma de Outro Mundo” revelou seus filmes de terror favoritos. Entre eles, está “Suspiria”, de Dario Argento, o mestre italiano que ajudou a popularizar e reinventar o giallo. “Suspiria” pode ser mais um terror sobrenatural do que propriamente um giallo, mas o filme mantém uma ideia narrativa comum aos longas anteriores do diretor, como “Prelúdio Para Matar”: os protagonistas precisam resolver um enigma que envolve reavaliar, recontextualizar, uma imagem ou um som presenciados por eles, para que possam descobrir quem é o assassino ou a origem dos assassinatos. Além disso, “Suspiria” também escancara a influência de Mario Bava em Argento. Ou seja, talvez não houvesse slasher se não fosse pelo terror, pelo suspense, por Hitchcock, pelos cinemas modernos mundiais, filtrados pelo olhar dos italianos.

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“Giallo”, em italiano, significa “amarelo”. O termo é usado para identificar os livros de suspense policial que, na Itália, possuíam capas amarelas. Com o cinema usando dessas histórias de mistério como referências, esse tipo de filme passou a ser identificado do mesmo jeito. Muitos consideram “Olhos Diabólicos” (1963), de Mario Bava, o primeiro filme giallo. Desde o título original, “La Ragazza Che Sapeva Tropo” (uma inversão de gênero de “O Homem Que Sabia Demais”) referencia Alfred Hitchcock. Na história, uma turista em Roma testemunha um assassinato e se vê envolvida numa série de crimes e perseguida por figuras misteriosas. “Olhos Diabólicos” já possuía tudo o que se espero dos gialli – a trama mirabolante, as mortes brutais, o apuro estético modernista – menos as cores, que seriam uma marca suprema do sub-gênero, sempre muito fortes e estilizadas. Afinal, umas das principais características dos gialli é que a estética suplanta a narrativa e o drama. Toda a plasticidade das mortes, das cores, da iluminação, dos enquadramentos, assume o estilo operístico, exagerado e belo, da arte italiana. Não à toa, vários desses filmes (se não todos) são considerados maneiristas, uma adaptação para o cinema do termo usado nas artes plásticas que caracterizava o período pós-Renascimento, uma arte autoconsciente, que sabia que existia depois dos grandes mestres como Rafael e Michelangelo. E que via como única saída para essa autoconsciência o exagero, o bizarro, a deformação, a estilização.

Agora, para entender melhor a relação, as semelhanças e diferenças, entre o giallo e o slasher, pode ser produtivo analisar dois filmes que se parecem superficialmente. De um lado, “Sexta-Feira 13” (1980), um slasher típico e talvez esgotado, e do outro “Baia de Sangue” (1971), um giallo tardio de Mario Bava. Em “Sexta-Feira 13”, de Sean S. Cunningham, um grupo de jovens se reúne em Salt Lake para montar um camping de verão perto de um lago. Durante a noite, os jovens começam a ser assassinados por uma figura misteriosa que se esconde pelo acampamento. Já em “Banho de Sangue”, a rica dona de uma baía é assassinada. Sem herdeiros, a região com lagos, florestas e casas passa a ser concorrida por pessoas com diferentes intenções para o lugar, o que desencadeia uma série de mortes brutais.

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“Sexta-Feira 13” começa com um plano-sequência subjetivo. Nós acompanhamos a partir do olhar de uma pessoa que entra num dormitório feminino do acampamento e assiste às meninas dormirem. A próxima cena, objetiva, mostra um grupo de monitores se divertindo e tocando violão, quando um casal se afasta para ter privacidade. Novamente com um plano subjetivo, vemos o assassino matando o casal. Estamos mais uma vez no território de “A Tortura do Medo” e “Halloween”, dois filmes que se utilizam muito bem de um recurso que, entre os anos 1960 e 1970, foi apropriado pelo giallo. O olhar subjetivo do assassino, além de esconder sua identidade, ajuda a criar o suspense, porque vemos nossos protagonistas sendo observados de longe e sabemos o que pode estar prestes a acontecer. Esse tipo de plano também pode servir para implicar a culpa do espectador, já que passamos a ver as coisas como se fossemos o vilão. Essa é uma ideia sempre muito bem utilizada por Mario Bava e depois por Dario Argento.

Como os acordes da trilha sonora de “Sexta-Feira 13” revelam claramente, assim como nos gialli, tudo remete a Hitchcock. A música tema do filme é praticamente uma cópia da trilha de “Psicose”. Mas não só isso, Jason Voorhees é, neste primeiro filme, uma versão invertida de Norman Bates. E uma das coisas mais interessantes do longa é ver como ele trabalha a relação psíquica de Jason com sua mãe. De forma menos efetiva, “Sexta-Feira 13” tenta refazer o impacto de “Psicose” ao descartar a protagonista antes da metade do filme. Mas, enquanto Hitchcock nos colocava ao lado de Marion Crane e, abruptamente, mudava o foco para Norman, aqui a narrativa se divide entre outros personagens, e o impacto da morte da “protagonista” é bem menor.

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A trama quase inexistente de “Sexta-Feira 13” contrasta com as histórias mirabolantes e cheias de reviravoltas da maioria dos gialli, mas ambos os estilos narrativos acabam tendo o mesmo princípio. Enquanto os italianos criam histórias muitas vezes incompreensíveis e mirabolantes, para que o foco seja mesmo o apuro estético e as mortes filmadas de maneira plástica e estilizada, Cunningham nem se preocupa com a trama. O foco é assistir ao massacre, de forma até bem distanciada e despreocupada, dos jovens que ousam ter relações sexuais. Sai a beleza colorida dos italianos e entra o realismo pragmático dos americanos. Cunningham também não é nenhum Bava ou Carpenter e a encenação das mortes chega a ser bem precária. Mas parte da graça é essa economia narrativa ou visual, talvez até por incompetência do diretor, que faz com que o filme seja ainda mais cruel.

A primeira sequência de “Banho de Sangue” também é memorável. E ela exemplifica as estratégias visuais de Mario Bava por todo o filme. Primeiro, vários planos do lago e de um píer passam pela tela, até que “vemos” um inseto morrendo e caindo na água. A próxima cena mostra a dona da baía indo até a janela, um plano subjetivo (novamente) passa das gotas de chuva no vidro a uma árvore, até uma cabana ao longe, que depois descobriremos que é do filho bastardo da senhora. Este é o nosso primeiro ponto de vista. A senhora é assassinada por um homem de luvas pretas (signo comum dos gialli). Mas, ao contrário da expectativa, Bava já nos mostra a identidade do assassino. Ele ouve um barulho e vai checar a porta, quando então assumimos o ponto de vista dele, o segundo na mesma cena. Inesperadamente, o próprio assassino também é assassinado, agora por uma pessoa desconhecida. E, de novo, passamos a ver o ponto de vista desta outra pessoa, o terceiro. Depois de dirigir o que muitos consideram o primeiro giallo e diversos exemplares perfeitos do sub-gênero italiano – como “Seis Mulheres para o Assassino” e “Cinco Bonecas pela Lua de Agosto” – Bava leva o giallo à experimentação e ao extremos de suas características e técnicas comuns.

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Um plano específico expressa bem essa ideia de confusão de linhas narrativas, possíveis assassinos e pontos de vista diversos. O homem que havia matado a dona da baía, ao checar o barulho no portão, passa por diversos cômodos, com as portas formando um corredor. É como se os batentes das portas formassem enquadramentos dentro do enquadramento da câmera, o que lembra as experimentações de pintores holandeses como Samuel van Hoogstraten. Que possivelmente também inspirou Hitchcock em cenas de “Um Corpo que Cai”, como a da primeira aparição de Madeleine. A vertigem aqui é de olhares e pontos de vista distintos.

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O tempo todo os personagens de “Banho de Sangue” são observados por alguém. Temos a técnica do olhar subjetivo, muito utilizada no giallo e depois no slasher, utilizada até parar de fazer sentido. Porque nunca descobrimos exatamente quem está olhando quem, só podemos intuir, e o filme faz de tudo para confundir ainda mais. E nem sempre o que parece ser um ponto de vista subjetivo realmente o é. Em uma sequência que certamente serviu de inspiração para “Sexta-Feira 13” (cuja conclusão inclusive é refeita em “Sexta-Feira 13 Parte 2”), um grupo de jovens invade uma das casas da baía para fazer uma pequena festa. Uma das garotas decide mergulhar no lago sozinha. Como esperado, um plano subjetivo assiste à menina tirando a roupa e nadando. Mas, ao mesmo tempo, o mesmo tipo de plano é empregado para mostrar os jovens que dançam na casa. Seriam dois assassinos diferentes ou o filme está enganando o espectador para que não se saiba mais se há realmente alguém observando?

Ainda mais experimental é o uso que Bava faz do zoom. O exploitation e o terror sempre utilizaram muito o zoom rápido para destacar uma informação importante, pontuar momentos específicos, ou causar um impacto em cenas grotescas. Mais uma vez, Bava vai transformar esse recurso em um experimento paroxístico. Em “Banho de Sangue”, o zoom o tempo todo vai se aproximar e se afastar dos personagens, prescrutar a imagem à procura dos assassinos. E também confundir, ao ponto de que qualquer zoom em qualquer coisa passa a causar medo. Como disse Luc Moullet em texto sobre o filme, a própria técnica é a causadora do medo, e não mais o que ela filma. Também não deixa de ser uma extrapolação de uma técnica tipicamente hitchcockiana.

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Na tese “Vertigo, a teoria artística de Alfred Hitchcock e seus desdobramentos no cinema moderno”, Luiz Carlos de Oliveira Júnior afirma que o plano hitchcockiano é aquele que exibe uma imagem que tem algum detalhe perverso, e que então se aproxima deste detalhe para sublinhar essa “mancha” na imagem. Ele cita como exemplo o famoso plano de “Interlúdio” (1946), em que uma grua “desce da parte mais alta do interior de uma mansão (onde ocorre uma festança) e chega até a mão de Ingrid Bergman, focalizando a chave que ela está trazendo em segredo e que será o objeto-pivô do ponto de virada da trama”. Em “Banho de Sangue”, Bava vai projetar “a mancha” em todas as imagens, usando a própria técnica pra criar perversidade, inclusive onde ela não necessariamente existe.

Depois de mais de uma década de gialli, com “Banho de Sangue” Mario Bava abre a mão da cenografia e iluminação artificias que caracterizavam o sub-gênero e constrói um filme com uma mise-en-scène mais realista, mas levando suas técnicas ao extremo, atingindo o experimental. Em muitos sentidos, parece ser uma ponte para o que seria o slasher. “Sexta-Feira 13” pode não ser um slasher exemplar, mas deixa muito claro o quanto o terror americano deve aos italianos.

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