REVIEW | Jogo: What Remains Of Edith Finch

What Remains Of Edith Finch é uma reflexão sobre temas como morte e família num entretenimento eficaz.

Ficha Técnica
Desenvolvido por: Giant Sparrow
Publicado por: Annapurna Interactive
Gênero: Aventura, Narrativa
Série: What Remains Of Edith Finch
Lançamento: 25/04/2017
Classificação indicativa: 14 anos
Modos: Single player
Disponível para: PS4, Xbox One, Nintendo Switch, Steam (PC)

 

JOGOS E FILOSOFIA

Alguns jogos, por si só, acabam exercendo a função de não apenas entreter, como também de elaborar uma análise de como é a vida de uma forma geral (nossa família, amigos, sentimentos, trabalho, rotina, comunidade, o próprio ato de se entreter). Dentro de todo um conjunto, os criadores conseguem trabalhar com o jogador de diversas formas: fazê-lo refletir, a se emocionar, ficar chocado, ser impressionado, dialogar até com seu interior. O propósito é tocar o lado humano mais real possível mesmo dentro de um panorama surreal embutido em fábulas modernas contadas de formas inusitadas. Assim acontece com What Remains Of Edith Finch da Giant Sparrow. Um outro jogo da mesma empresa, Unfinished Swan (2013), já cumpria com esse objetivo. Mais do que arte e entretenimento, o efeito de fazer o jogador questionar sua existência, suas ações e tudo que o cerca.

What Remains Of Edith Finch

UM ÁLBUM DE FAMÍLIA

Edith Finch tem 22 anos e está grávida. Após longo tempo, a moça volta para sua casa, agora abandonada. Ao se deparar com os cômodos da residência, vai encontrando diários dos seus parentes. A leitura vai se transformando em narrativas fantásticas, todas revelando os acontecimentos estranhos que causaram a morte dos entes queridos. Neste ponto, entra em cena a parte poética do jogo. Mesmo em tons amargamente pesarosos como dos personagens Gregory e Calvin (trabalhar com morte de crianças é sempre complicado), a narrativa alivia usando pinturas mais coloridas nunca tratando a morte de forma banal, muito pelo contrário. Na história de Calvin, por exemplo, a narradora Edith diz que ‘Calvin sempre desejou voar alto’, isso para apaziguar a ‘partida’ do garoto de forma mais branda e tocante ao coração do jogador.

Logo no início, tudo parece indicar que estaremos diante de um jogo de terror. Uma densa floresta, cenário lúgubre, a imensa e bizarra casa abandonada. Claro que cada parte da moradia esconde uma história e, conforme avançamos, notamos como os ambientes são interligados entre si. Alguns cômodos são liberados a cada história contada, outros simplesmente são descobertos através de passagens ocultas. Interessante é jogar tudo sem ter visto nenhum vídeo do Youtube (faça esse favor).

What Remains Of Edith Finch

AS TÉCNICAS, CORES E TRILHA SONORA DO JOGO

Esse é um jogo que os detalhes técnicos nos saltam aos olhos. Desde a ambientação dos compartimentos da casa passando pela área externa (floresta, praia, cemitério da família), o cuidado foi bem observado, tudo para deixar o jogador como um cúmplice da família Finch e seu destino. A paleta de cores também chama a atenção. O iluminado cenário da praia, a escuridão da floresta ao redor da casa ou mesmo o tom acinzentado que surge no cemitério da família passam para o jogador sentimentos necessários e precisos em cada trecho do jogo.

Trilha sonora bem executada, as canções orquestradas garantem o clima necessário para as histórias dos personagens da família dentro do jogo. Outro recurso visual agradável é a legenda dinâmica passando pela tela e o jogador fazendo sua parte interativa com ela, seja derrubando as letras no chão ou mesmo virando as frases com uma pipa soprada ao vento (na história trágica de um dos familiares de Edith e um dos melhores momentos que se pode presenciar nos jogos da era PS3/PS4).

What Remains Of Edith Finch

A FICÇÃO SEMPRE LIGADA COM A VIDA

Repleto de metáforas e de cenas capazes de inúmeras discussões, dialogando tanto com a Filosofia como com a Literatura Fantástica, What Remains Of Edith Finch não exige tanto do jogador, que ficará satisfeito em andar, abrir o livro, realizar alguma ação, contemplar cada canto da casa. Nada de monstros, inimigos, combates, pontuações e itens para coletar e avançar. Não existe apelo para a violência gratuita, você está livre para vasculhar o ambiente e encontrar mais histórias, não se preocupe em ficar perdido pois tudo se encaixa mesmo com o jogo não orientando a próxima ação a ser cumprida.

Tudo é um convite para se entrar na história, a sentir remorso pela jornada de Edith. Estamos diante de um livro que, gradativamente, vai montando seus variados capítulos, páginas contando narrativas de pessoas queridas que se foram ao longo da vida e que não estiveram, talvez, muito tempo ao lado da personagem. Ou que nem mesmo a própria Edith conheceu e que agora ficam apenas registros em textos e fotografias.

Mesmo abordando sentimentos como melancolia, solidão, depressão, suicídio, morte, briga familiar, desentendimento e a difícil natureza humana, o jogo nunca desanima por trazer o elemento surpresa ocasionando a sensação de ler cada página, de promover no jogador a curiosidade, instigando nele a vontade de não deixar passar nada. Como ponto negativo poderíamos até opinar sobre a curta duração da narrativa e o fator replay ser praticamente inexistente. Só um momento! Assim também não é a vida? Curta demais e sem replay?