REVIEW | Jogo: Final Fantasy VII Remake

Final Fantasy VII indiscutivelmente é o maior game da Square-Enix e possivelmente o JRPG de maior importância para a indústria dos games até hoje, lançado ainda antes da fusão da Squaresoft com a Enix, responsável por Dragon Quest. Com seu desenvolvimento iniciado em 1994 para o Super Nintendo, o game só foi lançado em 1997, para o PlayStation original. A SquareSoft enfrentou atrasos e dificuldades técnicas enquanto realizava experimentações feitas em várias plataformas, o que a levou a mudar a produção para o console da Sony, iniciante no mercado de games, pelas vantagens do formato da sua nova mídia, o CD-ROM, tendo inclusive extrapolado o espaço de armazenamento da mídia, lançando o game em 3 discos. O time de desenvolvimento do game original contou com a produção de Hironobu Sakaguchi, a direção de Yoshinori Kitase, composição de Nobuo Uematsu e a estreia do character designer Tetsuya Nomura. Vale lembrar que, com exceção de Sakaguchi, todos os demais citados acima estão envolvidos na produção do remake: Uematsu reprisou seu papel de compositor, Kitase assumiu a produção, e Nomura ficou a cargo da direção, mas ainda atuando também como character designer, ao lado do artista italiano Roberto Ferrari (que já havia trabalhado em FF Type-0, FF XV e Dissidia FF NT). Foi decidido pelo time de desenvolvimento lançar o game em várias partes, a fim de evitar cortes de conteúdo, além de expandir e trabalhar melhor o universo do episódio VII, bem como aprofundar mais o desenvolvimento dos personagens ao longo da história. Este review corresponde então à primeira de um total de partes ainda não divulgadas que compreenderão a totalidade do episódio VII original quando todas forem concluídas.

Ficha Técnica

  • Desenvolvido por: Square Enix
  • Publicado por: Square Enix
  • Série: Final Fantasy
  • Lançamento: 10/04/2020 (Mundial)
  • Gênero: RPG de ação
  • Classificação indicativa: 14 anos
  • ModosSingle-player
  • Disponível para: PlayStation 4

Situado em um universo cyberpunk, no game você controla o mercenário Cloud Strife, contratado como reforço pelo grupo ecoterrorista AVALANCHE para uma missão de ataque a um reator de energia Mako na cidade de Midgar, localizada no continente leste do mundo do game, Gaia. Midgar é uma metrópole industrial que serve como capital e abriga a sede da companhia de energia elétrica Shinra, que chega a operar como o verdadeiro governo do mundo. O grupo AVALANCHE e seu líder, Barret Wallace, acreditam que a energia Mako consumida pelos reatores e utilizada como fonte de energia para as atividades do cotidiano da população mundial nada mais é que a força vital do planeta, o lifestream,  e por isso desejam destruir a Shinra e findar o que pode estar causando o sofrimento do planeta.

Gameplay

Inicialmente você controla somente o protagonista, Cloud, um mercenário antissocial que afirma ser um ex-membro de 1ª Classe da unidade SOLDIER, grupo de elite militar da companhia Shinra. Com poucos minutos de game, Barret, o líder do grupo terrorista anti-Shinra AVALANCHE, também fica disponível para controle. O gameplay transiciona entre momentos em que você controla um personagem sem possibilidade de alternância entre eles (95% do game sendo o Cloud), e momentos em que surgem inimigos no cenário, na maioria das vezes visíveis vagando pelo campo, havendo a possibilidade de alternância entre os personagens durante o combate, cada qual com suas peculiaridades. Por exemplo: enquanto Cloud é mais útil em combates a curtas distâncias, utilizando a Buster Sword, Barret se destaca em combate de longo alcance, fazendo uso de sua metralhadora que substitui seu braço direito. Enquanto o botão ○ realiza esquiva, o ❏ realiza ataques simples para cada personagem e o botão △ efetua ataques especiais para aqueles personagens: Cloud muda o estilo de ataque; Barret dá um tiro mais potente, mas sua arma fica impossibilitada de repetir isso durante algum tempo; Tifa (amiga de infância de Cloud e também membro da AVALANCHE) potencializa o tempo de atordoamento de um inimigo; já Aerith (a “maga” do grupo), conforme você segura o botão, mais forte será o ataque quando solto.

O combate ainda conta com habilidades especiais que consomem ATB, podendo serem acumuladas até 2 barras deste tipo (que podem ser divididas em 3 barras por meio de uma habilidade especial). As barras de ATB enchem conforme você corre pelo campo de batalha (que não muda quando encontra os inimigos, ocorrendo ali no lugar mesmo onde os encontrou), ataca ou defende (R1), e são consumidas com o uso das habilidades especiais de cada respectiva arma, sendo que ao utilizá-las um determinado número de vezes, tornam fixas do personagem e podem ser utilizadas mesmo quando estiver munindo outra arma. Fazer uso de magia também consume ATB (durante as batalhas) e MP (fora e dentro das batalhas). No geral, o combate é bem similar à série Kingdom Hearts (contando até mesmo com opções de atalhos com o botão L1 para as habilidades de armas) e bebe também da fonte de Dissidia, contudo, é bem mais aprofundado que estes citados.

Tetsuya Nomura achou que dar aos jogadores controle completo em tempo real dos personagens tornaria a experiência mais envolvente do que o sistema de combate por turnos tradicional do original. Entretanto, ele também sabia que o remake não seria um verdadeiro Final Fantasy sem os níveis de estatísticas, medidores e outras mecânicas de RPG do original. O primeiro grande desafio da equipe foi fazer um sistema de batalha que combinava jogabilidade de ação moderna com mecânica tradicional de RPG. Nomura foi especialmente inspirado por seu trabalho na série Dissidia enquanto desenvolvia o sistema de combate do remake, pois ele sentia que Dissidia era o que melhor representava como batalhas épicas deveriam parecer nos games modernos de Final Fantasy. Nomura considerou que a maioria dos jogadores estaria mais familiarizado com o combate de Dissidia em vez de combates por turnos.

Matérias

As matérias obviamente não poderiam ficar de fora e várias delas estão presentes nessa primeira parte do remake. São pequenas esferas de energia mako condensada que conferem ao usuário propriedades mágicas, de suporte, habilidades ou até mesmo invocam outros seres míticos. Algumas mantêm sua função original, outras tiveram sua função adaptada e algumas outras poucas, que só apareceriam mais para frente na trama (inclusive as summons/invocações) foram adiantadas, para deixar esta parte do remake mais completa.

Áudio

A trilha sonora também é majestosa, com músicas clássicas retrabalhadas e composições novas, com várias delas tendo transições perfeitas entre a exploração e os combates, o departamento de música do remake teve que criar um sistema de áudio dinâmico para o remake. Este sistema muda a trilha de background para combinar com o que esteja ocorrendo na tela. Isso exigiu que a trilha sonora fosse imensamente expandida, devido a cada segmento precisar de diferentes versões de cada música, cada uma com composições de tempos e melodias semelhantes, mas arranjos diferentes, que o jogo sincroniza todas as versões da música em background, e constantemente transiciona entre as melhores interpretações para refletir o que está acontecendo na tela naquele momento. A parte em que é mais fácil de notar este sistema de áudio dinâmico, é no capítulo 9, ao se transicionar entre cada área daquela região.

O remake também marca o retorno de Nobuo Uematsu à série, que acabou ajudando a Square Enix apontando também outro compositor para ajudar no game, Masashi Hamauzu, que já havia trabalhado no Final Fantasy VII original, produzindo as partes corais da trilha sonora, dirigindo gravações e até mesmo cantando no coral em si.

Gráficos

Visualmente, o game é esplendoroso, com um dos melhores visuais e direção de arte já vistos nessa geração. Midgar nunca esteve tão viva quanto neste remake. Nomura, após assistir várias paythroughs do game online, notou que geralmente levava cerca de dez horas para que os jogadores completassem a seção de Midgar, mas muitos jogadores queriam explorar a cidade mais do que o jogo permitia. Ele mesmo estava insatisfeito com o quão pouco os jogadores experimentavam a cidade alta em comparação com as favelas. Por conta disso, Nomura queria expandir vastamente toda Midgard, da cidade alta até as vidas dos cidadãos da cidade. Para alcançar isso, Takako Miyaki do departamento de arte decidiu reexaminar Midgar a partir do jogo original do PlayStation, prestando atenção em áreas presentes apenas fora de tela ou que apareciam apenas em transições de cena.

Para os personagens, a equipe considerou reutilizar modelos de personagens do filme Final Fantasy 7 Advent Children, mas os modelos já tinham quase uma década de criados na época em que o desenvolvimento do remake começou, o que os motivou a redesenhá-los do zero. Mesmo com personagens tão bonitos e bem animados, infelizmente o mesmo não pode ser atribuído aos NPCs, que têm uma qualidade bem inferior, e a alguns elementos do cenário, em que suas respectivas texturas demoram para carregar ou nem sequer carregam, deixando um visual liso, à la PlayStation 2.

História e Exploração

Em termos de narrativa e exploração, o remake é um dos melhores já feitos na indústria dos games, cobrindo 90% dos eventos do game original, seguindo à risca grande parte deles e adaptando alguns outros, dando uma maior fluidez e coerência ao universo aqui apresentado. Até mesmo inimigos que não se encaixariam de forma alguma no contexto do mundo aqui representado eles deram um jeito de inseri-los neste universo. Alguns poucos momentos do game original deixaram de ser explorados, outros foram inclusive amenizados, por conta das mudanças nas normas sociais das últimas 2 décadas.

Personagens secundários da trama que tinham pouco tempo de tela no original, como Jessie, Biggs e Wedge, ganharam um maior desenvolvimento, você passa a conhecê-los melhor e consequentemente se importar mais com eles. Outros personagens foram criados exclusivamente para o remake, como Leslie, Madame M, Sam e o SOLDIER de 3ra classe Roche, enquanto alguns foram aproveitados de outra forma, como Johhny, mantendo-se fieis às suas contrapartes do game original.

Uma mudança curiosa diz respeito ao herói de guerra do mundo do game que veio a se tornar vilão, Sephiroth. O produtor Yoshinori Kitase disse que, no original, a maneira como lidaram com Sephiroth era escondê-lo, segurá-lo, pois para a criação do personagem ele se inspirou no filme Tubarão (Jaws, 1975), e adotou uma abordagem semelhante para provocar uma presença poderosa, sem mostrar o tubarão até o final da história. A equipe quis construí-lo como um personagem realmente grande e poderoso na mente das pessoas. Ao se referir apenas a ele indiretamente, criou-se esse sentimento de medo e opressão; e quando ele faz sua primeira aparição, é um grande momento. Porém, já no Remake, a mesma estratégia não foi possível porque a maioria das pessoas já sabem quem é Sephiroth e seu papel na narrativa abrangente. Sephiroth é uma presença massivamente abrangente que paira sobre toda a saga de Final Fantasy VII. Então, ao invés de esperar para mostrá-lo até o final de tudo eles o apresentam muito antes.

Assim como os personagens, os cenários também foram vastamente expandidos. Segmentos em que você levaria de 15 a 20 minutos para explorar na totalidade, aqui pode levar de 1 a 2 horas ou até mais. Contudo, ainda assim o game é bastante linear, contando com 18 capítulos, somente cerca de 4 deles você tem uma certa liberdade para explorar o ambiente numa espécie de open world. A duração do game fica entre 30 e 40 horas para uma primeira run, fazendo todas as side quests disponíveis (24 de 26, sendo que 2 delas só podem ser acessadas em outra run), e se o jogador for explorar 100% do jogo em busca de todos os troféus e desafios, a duração pode se estender para além de 60 horas de jogo.

Conclusão

Mantendo-se fiel e lotado de referências ao original, o game é uma carta de amor principalmente aos fãs de longa data. Entretanto, como esse trata-se apenas da primeira parte, e dada a incerteza se a Square Enix se manterá fiel ao restante da obra nas próximas partes, não sabemos se a carta de amor resultará em um romance para a vida toda ou se resultará em uma medida protetiva de distanciamento entre os fãs e a desenvolvedora. Final Fantasy VII Remake Parte 1 é um game recomendado para os fãs da franquia, fãs de RPG ou até mesmo para o usuário que não conhece nada sobre esse tipo de game. Com certeza se sentirá bem recebido e tomará gosto por games neste estilo.