Filme mistura terror, fantasia e subjetividade na medida certa.
Natalie Portman estrela o melhor filme de ficção científica da Netflix dos últimos anos.
Na busca de respostas mais plausíveis, o Teoria Geek traz pra você uma análise completa deste filmaço.

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Ficha técnica

Título original: Annihilation

Nacionalidade: EUA

Gêneros: Ficção científica, Suspense

Ano de produção: 2018

Duração: 1h 55min

Classificação: 16 anos

Estréia: 12 de março de 2018 (Netflix)

Direção: Alex Garland

Roteiro: Alex Garland. Baseado na obra de Jeff VanderMeer

 

SINOPSE

Bióloga (Natalie Portman) revê inesperadamente seu marido (Oscar Isaac) após ele cumprir uma missão secreta depois de um ano. Após sua volta, ele sofre um dano físico repentino e, na tentativa de levá-lo ao hospital, a ambulância é interpelada pelo exército e os dois são levados para uma base militar.

Começa, a partir daí, a saga da bióloga para descobrir a origem do fato que deixou seu marido desaparecido por tanto tempo e em coma após sua volta. Reside aí o mistério do filme.

Ela descobre que está em uma base governamental que monitora um “brilho” que está consumindo o planeta os poucos. E que a missão de seu marido tem a ver com o envio de várias tropas para estudar o fenômeno.

 

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RESENHA (com spoilers!)

Personagens

Primeiro é preciso deixar claro que filmes de ficção normalmente não se aprofundam em expor, analisar e criar um enorme background de seus personagens. Focam na história, às vezes roteiro e normalmente efeitos especiais para cativar o público. Aqui não é diferente.

Lena (Natalie Portman); protagonista e única personagem retratada com alguma profundidade. Durante a visita dela com a equipe dentro do “brilho” o filme vai intercalando cenas de flashbacks de momentos seus íntimos com seu marido ANTES da ida dele e dela ao brilho. Entendemos o sentimento dela pelo marido, sua traição, arrependimento e motivação para estar lá dentro daquela área cercada e monitorada pelo governo.

Sinceramente não é nenhuma atuação digna de Oscar ou Globo de Ouro, entretanto, devido à falta de identificação que o espectador provavelmente terá com os outros personagens, Portman destaca-se tranquilamente. Não há muitos diálogos e cenas memoráveis, mas ela executa seu trabalho com dignidade e justiça.

Kane (Oscar Isaac): é o segundo personagem que mais aparece em tela, depois de Natalie Portman, é claro. Kane, como todos os outros personagens, sofre da falta de diálogos mais profundos e expositivos para sentirmos alguma interação com ele.

Ele é o motivo central que faz sua esposa ir dentro do brilho para buscar respostas que talvez ajudem a explicar seu mal súbito, seu coma e todo o mistério que envolve o crescimento de uma região que está sendo consumida por esta “entidade não terrestre”. Sua atuação tem alguma importância apenas no final (COMENTÁRIOS COM SPOILERS AO FINAL DA DESCRIÇÃO DOS PERSONAGENS).

Outros: Jennifer Jason Leigh (Dra. Ventress), Gina Rodriguez (Anya), Tessa Thompson (Josie Radek) e Tuva Novotny (Sheppard) aparecem tão pouco e tem menos importância que serão citados esporadicamente, porém – quase sempre –  em cenas extremamente necessárias.

AFINAL DE CONTAS, ESSE FILME FALA DO QUE?

 Após escrever o roteiro de obras bem interessantes como “Extermínio”, “Não Me Abandone Jamais” e “Dredd”, Alex Garland fez sua estreia como diretor no final de 2014, com a ótima ficção Ex_Machina: Instinto Artificial. Estrelado por Domhnall Gleeson, Alicia Vikander e Oscar Isaac, o longa é uma obra extraordinária e original, com poucos personagens, um cenário restrito e muita reflexão sobre o avanço da tecnologia e humanidade. Agora, pouco mais de quatro anos depois, o cineasta chega com seu segundo trabalho como diretor: Aniquilação. Assim como no projeto anterior, Garland usa o gênero da ficção científica para discutir temas sérios, como a criação, evolução, ciência, religião e, mais uma vez, humanidade.

O FILME VALE O SEU TEMPO?

Sim. Pode confiar. São 1h55min interessantíssimos!

QUAL A HISTÓRIA DO FILME?

A bióloga interpretada por Natalie Portman entra no “brilho”, nome usado no filme para se referir a região da Terra que está sendo alterada por algum tipo de entidade, com mais 4 mulheres: Dra Ventress, uma psicóloga e mais 2 soldados e 1 física para estudar a origem deste fenômeno.

Outras equipes militares já entraram no brilho e apenas o marido de Natalie, Kane, voltou para contar história. Porém em coma, nada pode contar detalhadamente sobre o ocorrido.

Elas são atacadas por um crocodilo com dentes de tubarão, um urso-zumbi com o rosto desfigurado e se deparam com várias espécies – animais e vegetais – que estão sofrendo mutação.

Um detalhe importante: o tempo dentro do brilho parece não ser sentido do mesmo modo que fora dele. O tempo conhecido e vivido na Terra lá fora parece ser diferente.

Durante o filme é comentado que elas estão lá acampadas há 06 dias e nenhuma se lembra de estarem lá há tanto tempo.

Ocorreu algo parecido com Kane: para Lena ele estava desaparecido há 01 ano, mas ele não se lembra do que aconteceu e de quanto tempo ficou lá.

A primeira reviravolta acontece quando Sheppard é morta durante o segundo ataque: o urso destroça a soldado. Logo em seguida Anya surta, amarra as outras integrantes do grupo e começa a questionar o objetivo da missão, principalmente por achar um colar de Lena com a foto de seu marido e questioná-la. Elas só são “salvas” porque o urso atrai Anya utilizando a voz de Sheppard como armadilha para atacá-la e matá-la. Uma das cenas mais legais e perturbadoras do filme.

A física, ao conversar com Lena, também surta ao descobrir que todas elas estão sofrendo mutação, assim como as espécies animais e vegetais observadas. Ela caminha em direção a uma relva verde e acaba se tornando mais uma planta em forma humana na paisagem já cheia destas flores-humanas.

Dra Ventress segue sozinha para o Farol, centro inicial formador do fenômeno do brilho.

Lena segue para o farol logo em seguida e vê várias ossadas humanas no caminho, árvores cristalizadas e uma paisagem desoladora sem vida no litoral em que se encontra.

Lena entra no farol e observa um cadáver queimado e uma camêra em frente: ela liga o aparelho e aí temos a segunda reviravolta do filme: ela descobre que seu marido se matou com uma bomba de fósforo branco e a pessoa a filmar era SEU CLONE! Obviamente este último foi o que saiu do brilho para encontrar Lena em sua casa.

Atônita, Lena segue para um buraco no chão dentro do farol onde a entidade parece ter se fixado.

Ela encontra Dra Ventress, ajoelhada, balbuciando sozinha frases que para Lena parecem sem sentido. Detalhe: Ela parece estar com algo sobre os olhos, mas quando percebe a presença de Lena volta “ao estado normal” e dialoga alguns segundos com Lena antes de desintegrar.

Ela diz que todos nós viraremos pequenas partículas e cita a palavra-mote título do filme: aniquilação. Fica claro que, para ela, o brilho (ou o ser responsável por tudo aquilo) está lá para destruir toda a humanidade e o ecossistema do planeta como um todo.

 

CENA MAIS INTERESSANTE E REVELADORA DO FILME

A Dra Ventress vomita uma espécie de raio, flutua em frente à Lena e desintegra-se aos poucos até virar uma matéria esverdeada cheia de luzes.

Durante este processo, forma-se um outro ser bípede, sem rosto, de anatomia humana, com dois braços e tórax que, aos poucos, toma a forma de Lena.

Ao tentar escapar do farol, Lena é confrontada com sua cópia em uma luta corporal.

Como ela consegue escapar se o ser parece ser uma força inevitavelmente forte que já matou todos lá dentro?

Há uma cena, bem lá trás, no qual a física, antes de virar árvore-planta, diz que Lena está lá para lutar. Lutar aqui, literal ou subjetivamente falando, encaixa-se um pouco na cena para entender como Lena poderia escapar dessa viva.

Após tentar escapar duas vezes ao tentar sair pela porta em vão e quase se ferir gravemente, Lena percebe que seu clone mimetiza todos os seus movimentos e atitudes.

EPIFANIA

Em um momento Deus Ex-Machina, quase que inexplicavelmente, Lena pega uma granada de fósforo branco no corpo de seu marido, coloca nas mãos de seu clone, tira o pino e sai correndo do farol.

O ser clonado começa a queimar, volta para o buraco, desfalece em cima de uma espécie de altar e tudo ao seu redor começa a se destruir junto: o farol, as árvores e todo o resto formado e criado pela “coisa que clona”.

Lena reaparece sendo interrogada em uma base militar, cercada de pessoas vestidas com roupas de isolamento contando esta história vista no filme e narrada até agora.

Ela revela que não sabe por que aquele ser está aqui, é confirmado que é uma forma de vida alienígena, mas não garante mais nada a respeito dos objetivos da criatura, ou porque apenas ela e seu marido (clone) ficaram vivos.

Ao fim do filme, ela descobre que seu marido-clone está vivo e consciente após o desaparecimento do brilho. Ela o reencontra, eles se abraçam e os olhos dos dois brilham de uma forma diferente indicado que ambos não são nem de perto aqueles humanos meros mortais.

PERGUNTAS INSTIGANTES

AFINAL DE CONTAS, O QUE É O BRILHO?

O brilho (nome feio da porra) nada mais é o que a ENTIDADE/FORÇA/CRIATURA/ALIENÍGENA  responsável pela cúpula de luz que estava crescendo na Terra modificando tudo dentro dela. Essa modificação era em um nível extremamente profundo: alterações aceleradas no DNA dos seres animais e vegetais Tudo lá sofria alterações grotescas e bizarras, o que dá o charme ao filme e ao mistério em volta daquilo.

QUAL ERA O OBJETIVO DA CRIATURA?

Nada foi realmente confirmado 100% durante o filme.

Durante os diálogos da equipe feminina e entre Lena e o cientista que conversa com ela durante seu interrogatório descobrimos que, dentro da cúpula luminosa, tudo é alterado geneticamente de forma muito rápida e assustadora.

É preciso entender o que são mutações:  As mutações gênicas são mudanças ocasionais que ocorrem nos genes, ou seja, é o procedimento pelo qual um gene sofre uma mudança estrutural. As mutações envolvem a adição, eliminação ou substituição de um ou poucos nucleotídeos da fita de DNA.

A mutação proporciona o aparecimento de novas formas de um gene e, consequentemente, é responsável pela variabilidade gênica. 

Dentro do filme, aplicando a lógica científica acima, podemos entender que o objetivo da criatura era criar, transformar e/ou alterar a vida no planeta Terra. Não apenas dos humanos, mas de todo o bioma do planeta. Partindo desse ponto de vista, observamos uma forma de vida/energia extraterrestre extremamente complexa e não necessariamente vilanesca ou heróica, apenas cumprindo sua função de existir, procriar, recriar e replicar.

QUAL A “VIAGEM NA MAIONESE” LEGAL DESSE FILME?

Assim como dito acima, o legal do filme é justamente misturar um pouco da teoria do multiverso, de suspense, evolução, filosofia, fantasia e história das espécies com religiosidade.

Do ponto de vista científico e estudioso, podemos entender que todo o universo criado dentro do “brilho” poderia ser um multiverso diferente e paralelo do tempo/espaço da Terra que criamos. Isso é justificado pelo tempo terreno de um ano em que Kane fica fora e os 6 dias em que as mulheres ficaram dormindo e não se lembraram de absolutamente nada após acordarem.  Lá dentro, este tempo pode ser TOTALMENTE desigual, incontável ou ilimitado.

Este recurso da mistura de realidades está sendo bastante utilizado em filmes de ficção. Obras como Interstelar, Quarentena, A chegada, A origem, Atividade Paranormal Universo Fantasma e Cloverfield Paradoxo entre outros já fizeram o mesmo utilizando plots parecidos ou quase iguais.

Este tema, que é estudado pela Física Quântica, mistura-se com a ficção talvez para explicar por quê Lena voltou para reencontrar o clone que NÃO era seu marido: um elo emocional tão forte que é inexplicável e foi compreendido pela forma alienígena.

 

PERGUNTAS QUE FICAM NO AR/ NOSSAS TEORIAS COM RESPOSTAS

1.Por que a Dra Ventress aparece vendada e depois com os olhos abertos e normais na cena do farol? 

A verdade é que nenhuma explicação plausível ainda surgiu. Talvez alguma alegoria filosófica e representativa não explícita para falar a respeito de alguma atitude humana. A cegueira da realidade, o poder do sonho.

2. O que a criatura queria? Era mesmo alienígena?

Criar ou recriar outras vidas. Modificar, misturar, melhorar e transformar as já existentes, por meio da alteração gênica, matando ou replicando as formas de vida já dominantes no planeta, não necessariamente para o bem ou mal, apenas como sua função na natureza dentro daquela lógica do filme.

É preciso entender as teorias abaixo não-criacionistas para justificar a existência e função da criatura.

Teoria do Big Bang

No decorrer do século XX, novos estudos deram origem a Teoria do Big Bang ou a Grande Explosão. De acordo com o padre Georges Lemaítre e o físico russo George Gamow, no início, o universo era um grão que explodiu, sem motivo aparente, e produziu o tempo, a matéria e a energia que existe. E, como a temperatura era alta, não haviam elementos químicos no universo, sendo assim, surgiram apenas após milhares de anos, tais como o hidrogênio.

Teorias da Evolução

Os principais autores das teorias da evolução são Charles Darwin e Lamarck. Eles foram os responsáveis por estudar sobre as diversas alterações dos seres vivos ao longo do tempo e de acordo com o ambiente em que viviam. Darwin, escreveu o livro A Origem das Espécies, em 1859, onde adicionou seus principais estudos sobre a evolução das espécies.

Teorias Modernas

Além das teorias propostas, novas surgiram, dentre elas a da Panspermia, do século XIX, na qual os seres vivos teriam surgido a partir de substâncias de outros planetas. Dentre os principais defensores estão William Thonson e Svante August Arrhenius; a Teoria da Evolução Química, onde a vida teria surgido a partir da evolução química e a da Antimatéria.

Outra possibilidade era a de conquista da Terra mesmo, de forma vil e clássica da maioria dos aliens.

No fim da obra, Lena ouve do interrogador japonês que era uma forma alienígena.

No começo do filme também temos uma evidência: o objeto luminoso vem do céu/espaço e cai como cometa atingindo o farol.

 

3. Por que O COPO DE ÁGUA na primeira conversa entre Lena e Kane e no interrogatório de Lena parece ser um denominador comum entre os dois? 

A água (fórmula: H2O) é uma substância química cujas moléculas são formadas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. É abundante no Universo, inclusive na Terra, onde cobre grande parte de sua superfície e é o maior constituinte dos fluidos dos seres vivos. As temperaturas do planeta permitem a ocorrência da água em seus três estados físicos principais. A água líquida, que em pequenas quantidades parece incolor, mas manifesta sua coloração azulada em grandes volumes, constitui os oceanos, rios e lagos que cobrem quase três quartos da superfície do planeta. Nas regiões polares, concentram-se as massas de gelo e vapor constitui parte da atmosfera terrestre. Mais especificamente, a água líquida tem duas fases líquida com grandes diferenças de estrutura e densidade.

A criatura do brilho ASSEMELHA-SE FISICAMENTE E METAFORICAMENTE à água, pois tem o poder de dar/continuar a vida.

4. Lena era realmente Lena ou seu clone também? 

Vi e revi o filme. Chego a conclusão de que Lena, a humana, realmente saiu do brilho, mas NÃO a do começo do filme como mera mortal. Era uma humana com mutações genéticas acontecendo a todo momento desde que ela pisou dentro da cúpula/dimensão do brilho.

5. Por que Lena abraça o clone se já sabia que ele NÃO era o seu marido?

Muito se teoriza a respeito disso.

Aqui vão três possibilidades que podem coexistir:

  1. Lena, apesar de estar na forma humana, sobreviveu já DOMINADA pela mutação alienígena e estava enganando o exército para poder escapar daquela base junto com seu marido. Como Adão e Eva na história bíblica, os dois poderiam ser os novos precursores daquela espécia alienígena que já estava fundida com o DNA humano com objetivos de dominação do planeta.
  2. O elo emocional – saudade, amor, arrependimento, busca pelo perdão pós-traição – fez com que Lena fosse a única “perdoada” pela entidade alienígena para retornar para a sociedade com o objetivo de consertar sua relação com seu marido, pois o ser viu nela, a priori, uma razão realmente genuína para continuar existindo.
  3. Lena, mesmo sabendo que seu marido estava morto, preferiu conformar-se com a realidade do contexto e mesmo sabendo das mutações e mudanças mentais que sofreu, escolheu viver perto do clone do seu marido para ter uma “segunda chance” para o matrimônio. Aliado a isso o fato de que ela era uma das formas alienígenas que continuou a existir para procriar com seu marido, e a partir daí, continuar sua dominação na Terra.

Ufa! Então é isso. Se você chegou até aqui, parabéns. Tu és guerreiro(a). 🙂

 

Trailer:

//www.youtube.com/watch?v=gSMCCHYGpf8