“EU SOU UM HOMEM OU UM ESPETÁCULO – OU UM MOMENTO?”

O ano de 2020 foi seguido de surpresas, tragédias e desastres (naturais ou não). Claro que Marilyn Manson entrou para a lista de coisas surpreendentes, neste 11 de Setembro foi lançado o álbum WE ARE CHAOS, talvez a sua versão mais sensível.

Ficha Técnica
Grupo:Marilyn Manson
Álbum:WE ARE CHAOS
Faixas:10
Gravadora:Loma Vista Recordings
Ano:2020

CONTEXTO E SONORIDADE

Após três anos sem lançamento, Marilyn Manson literalmente trouxe o caos para os fãs, mas não um caos negativo e sim uma bagunça que nos fez analisar a situação atual do mundo de uma forma introspectiva. Seu álbum de 2017, Heaven Upside Down, teve parceria com Tyler Bates e possui a sonoridade do metal industrial e alternativo que nós tanto conhecemos. Então, era de se esperar elementos parecidos, né?

A princípio, durante a época “Sons Of Anarchy”, o artista estava com a ideia na cabeça de trabalhar em um álbum com Shooter Jennings (na época eles até fizeram um cover do David Bowie juntos), e bom…o resultado foi mais interessante e surpreendente do que pensei. Ele conseguiu misturar elementos do Glam, Blues, Post-Punk e New Wave com o Industrial bem característico Marilyn Manson.

No início de Setembro, o artista disse que seu novo álbum tem “dois lados”, como se fossem atos diferentes de um mesmo filme e ele ainda comparou sua mudança de conceito em cada disco com uma tarantula perdendo seu exoesqueleto. Apesar de WE ARE CHAOS ter sido lançado durante a pandemia, ele foi gravado ano passado e em janeiro já estava com as 10 faixas prontas, mas consegue ser bem atual mostrando a parte mais caótica da humanidade.

Assim vale lembrar que o intuito do Manson foi e sempre será ir contra a maré dos ideais populares da sociedade, fazendo com que o choque faça o público a pensar (pode ser o odiando ou o idolatrando, tanto faz, contanto que você pense). Muitas vezes ele fez isso de forma grotesca, porém dessa vez, foi da forma mais “humana” que vi.

RED BLACK AND BLUE

Primeiramente, música que introduz ao álbum começa com uma atmosfera sombria com sons semelhantes a gritos. Logo a batida toma conta junto com os riffs quase característicos do industrial, porém nota-se os elementos do glam. Quando a voz do Brian misturou-se no refrão com os seus diferentes tons, me remeteu a Antichrist Superstar, juntamente com a crítica à religião e a analogia desta com a destruição do mundo.

WE ARE CHAOS

Faixa que dá nome ao álbum mostra um lado bem diferente do que estamos acostumados, principalmente vindo de Marilyn Manson. A melodia em si é animada, com violão e batidas parecidas com pop, contrastando bastante com a letra. Lançada em Julho, Brian escolheu essa música como principal por achar que seria um conforto para quem a escuta, principalmente atualmente, com a questão da pandemia e do “se descobrir” e “se entender”.

Em uma entrevista para o Consequence Of Sound, ele ainda diz sobre o conceito do vídeo e do álbum todo, o porque das imagens espelhadas. “Eu acho que quando eu escuto ou leio as palavras do álbum, muitas vezes eu penso em mim quando as escrevo, como se estivesse segurando um espelho” disse o artista.

DON’T CHASE THE DEAD

Embora Marilyn Manson já ter se inspirado no conceito do David Bowie antes, aqui é nítida a influência sonora do artista durante os anos 70. A música é muito boa de ouvir, com a guitarra leve misturada com um toque de piano e a bateria presente, além da letra nos fazer refletir sobre a morte.

PAINT YOU WITH MY LOVE

Certamente esta é a “balada” do álbum, com violão e piano. Mas apesar de ser totalmente diferente do que imaginamos que Manson faria, o vocal pesado não tira a identidade e a marca que a banda sempre teve.

HALF-WAY & ONE STEP FORWARD

É aqui que você percebe que o piano é bem presente no álbum e é algo muito bom. Manson mostrou sua paixão pelo new wave com essa música, arriscaria dizer que teve uma certa influência do Depeche Mode, inclusive no teor de suas palavras “Don’t wanna know, don’t need to do, you got champagne problems”

INFINITE DARKNESS

Bem como ele disse que seu álbum era como um filme, tendo dois lados, Infinite Darkness mostra mostra isso. Guitarra presente com riffs pesados e a tão esperada batida do industrial, porém com a mistura do post-punk que ele tanto falou.

PERFUME

Aliás, uma das minhas preferidas. Apesar de ter sido influenciado pelo glam, Marilyn Manson consegue fazer do seu jeito. Os efeitos sonoros conseguem dialogar bem com os instrumentos, guitarra continua pesada e a bateria continua bem presente, com a letra bem característica “Get behind me, Satan

KEEP MY HEAD TOGETHER

Don’t try changin’ someone else / You’ll just end up changin’ yourself“. Continuando com os elementos no new wave, Manson foi inteligente em colocá-la logo após PERFUME, pois ela continua com os efeitos sonoros pesados, agradando os fãs.

SOLVE COAGULA

Definitivamente a faixa mais melancólica do WE ARE CHAOS, mas mesmo tendo a melodia um pouco mais calma, ela traz um certo conforto no caminho do autoconhecimento e aceitação. Você não é obrigado a ser feliz todos a todo momento, não precisa ser igual a outra pessoa e talvez tenha algo especial nisso. “I’m not special, I’m just broken / And I don’t wanna be fixed“.

BROKEN NEEDLE

Enfim para fechar o álbum, esta é bem única, tendo elementos do blues e country já encontrados em seu outro álbum Heaven Upside Down, porém a letra é o que mais impacta. Acredito que BROKEN NEEDLE seja uma forma de escape e talvez desabafo do próprio artista.

Portanto, talvez os fãs fiquem divididos em relação a esse álbum, mas não se pode negar que foi bem produzido e existem elementos inéditos. Para mim, uma fã, considero um dos melhores trabalhos de Marilyn Manson e, analisando o nosso cenário atual, Brian Warner conseguiu misturar sua expressão artística e suas maiores inspirações musicais com problemas reais que precisamos lidar diariamente. Realmente, há uma mistura entre escuridão e luz em WE ARE CHAOS.