Vespeiro de polêmicas, a série “O Mecanismo” (original Netflix, 2019) estreia sua segunda temporada no mesmo ritmo: intensa, crítica e reflexiva.

Baseada na Operação Lava-Jato, “O Mecanismo” é uma série que busca, no limite do aceitável, conciliar uma visão de como a ficção pode retratar uma trama política real. Desvios, favorecimentos, fraudes, acobertamentos, escândalos e discussões ideológicas: está tudo lá. Você esperava algo diferente do diretor José Padilha? Nesse ponto não dá mais pra se rogar de surpreso.
Para as pessoas que viram a primeira temporada, creio que não haverá decepção. Para os iniciantes que ainda não assistiram a temporada anterior: aconselho a vê-la, pois assim o telespectador ficará mais a par do que se passa. Apesar de ser baseada em fatos, para quem não acompanha o cenário político nacional talvez os personagens e seu enredo pareçam confusos à primeira espiada. Mas acredite: não é. Cada capítulo possui seu arco, mas de forma razoavelmente entrelaçada. Dá pra entender bem a evolução da história.

 

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Ficha técnica

Título: O Mecanismo (2ª Temporada) (Original)
Ano produção: 2019
Dirigido por: Afonso Padilha
Estreia: 10 de Maio de 2019 ( Brasil )
Duração: 383 minutos
Classificação: 16 – Não recomendado para menores de 16 anos
Gênero: Nacional Policial
Países de Origem: Brasil

 

Sinopse

Inspirada em eventos reais ocorridos no Brasil nós últimos anos, “O Mecanismo” – série original da Netflix – estreia sua segunda temporada falando dos escândalos políticos envolvendo governo, empreiteiras, Polícia Federal e a toda a cobertura da mídia em relação à investigação tornada pública nos noticiários. 

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De volta a esta temporada, está o poderoso elenco liderado por Selton Mello (Marco Ruffo), Caroline Abras (Verena Cardoso), Enrique Diaz (Roberto Ibrahim), Jonathan Haagensen (Vander), Emilio Orciollo Netto (as Ricardo Bretch), entre outros talentos.

Atenção: esta análise NÃO contém spoilers.

Realidade x Ficção

Você, meu caro, leitor: gosta de política? Ou mais precisamente: gosta de falar de política? Êta assunto chato, porém importante!
Confesso que, ao abordar essa série “O Mecanismo”, fico me perguntando as milhares de pessoas que, ao discutir política, são jogadas aos leões da crítica alheia. Seja entre grupos familiares no Whatsapp, na roda de amigos no bar ou na fila da padaria: a facilidade com que perdemos amigos (e ganhamos haters) é crescente.  Normalmente ninguém gosta de falar de política ao vivo, mas adora dar um pitaco aqui ou acolá por meio das redes sociais. É comum nos depararmos com textões no Facebook, denúncias em sites de grande visitação como Uol, R7 ou Globo.com, discussões entre políticos e celebridades por meio do Twitter, bate-bocas entre Youtubers e por aí vai. Os exemplos são infinitos. Isso sem falar das famigeradas fake news que poluem as redes sociais todos os dias acusando um, inocentando outro, denunciando aos quatro ventos esse e aquele partido político. Afinal de contas, quem está certo? Sinceramente, não sei. É complexo!

Pra quem acompanha as obras de José Padilha, não chega a ser novidade o diretor abordar temas de cunho político e atual.  Tropa de Elite (2006 – 2010), RoboCop (2012) e Narcos (2015)  provam que, dentre suas ações –  como produtor, roteirista e diretor – todas elas tem em comum a crítica ao Estado, à grandes corporações e à corrupção sistêmica de órgãos estatais e/ou privados. Por tudo isso, “O Mecanismo” ao abordar o escândalo proveniente das denúncias da Operação Lava-Jato, faz-se inegavelmente eficiente ao apresentar, contestar e retratar todos os fatos que levaram à realidade que vemos hoje. Se não agrada a todos, pelo menos a série provoca discussões que acredito serem bem relevantes.

Política x Parcialidade

Trabalho como professor, e por lidar com pessoas de diferentes idades, ideologias e níveis sociais todos os dias, já presenciei todo tipo de argumentação em relação ao cenário politico brasileiro. Tento, no trabalho, ser imparcial, ouvir a todos e dar oportunidade de voz a todos aqueles que tentam defender seus pontos de vista. Alguns mais eloquentes, outros nem tanto. Entretanto, até que ponto que conseguimos ser imparciais (ou achar que somos) durante esses eventos? Não há uma receita de bolo pra isso.
É difícil não se expor, não ser tachado (para quem tem ideais progressistas) de “esquerdinha caviar”, “esquerdopata”, “socialista de Iphone”, “comunista”, “esquerdalha” ou qualquer arremedo do gênero. Assim como é inevitável (para quem tem ideais mais conservadores) não ser tachado de “capitalista malvadão”, “careta”, “cafona”, “bolsominion”, “direita mortadela” e diversas outras expressões de baixo cunho.

Aqui no Brasil, tomados por essa narrativa binária, é claro que a rotulação ideológica não pode deixar de ser mencionada. Muito se fala de política ao abordar essa série. Não há como fugir disso, desde que nós – como público – possamos entender essa versão da história, ainda que polêmica e problemática. Corrupção aqui é apartidária.

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Pois bem, é no meio de tudo isso que o diretor José Padilha coloca a sua pitada de consideração: criar uma série, que já nasceu polêmica, apresentando escândalos da política nacional nos últimos anos. Fruto de protestos desde o ano de sua estreia, “O Mecanismo” carrega consigo vários fãs odiosos e apaixonados. O assunto da trama, por si só, já traria essa carga emocional, ideológica e nacionalista para o âmbito da internet. Não há como negar que, ao relativizar as impressões do público de acordo com sua ideologia, a série pode causar uma catarse por meio de cada episódio. Retratar políticos vivos, partidos de diferentes frentes, juízes, repórteres e policiais não é uma tarefa fácil. Uns jogarão pedra defendendo seus ídolos, outros de centro não condenarão tanto, outros amarão a crítica feita aos que já estiveram no poder. Alguns vários poderão enxergar de forma mais imparcial – talvez menos apaixonada – e tentarão interpretar a série como mais uma novela com recalques nacionais. Cheios de diálogos clichês – porém verdadeiros – quando comparados aos discursos hipócritas e redundantes dos políticos. Dá pra fazer um paralelo com House of Cards? Eu acho que sim. Só que, ao abordar temas contemporâneos, a vidraça de José Padilha e seu elenco fica muito mais exposta. A ficção nunca pareceu tão real. Soo clichê? Sim, mas não é arte que imita a vida? Nesse caso meu apontamento parece ser válido. O Brasil, cheio de desigualdades e favorecimentos, me parece bem calcado na série. Ora ridículo, ora realista, “O Mecanismo” parece exercer um papel bem bacana como mote de discussões do nosso mundo real. Algo bizarro, aterrorizante, e por diversos momentos bem complexo. Não é todo mundo que entende e sabe compreender a política.

Para o senso comum; todo político é ladrão. Só que para esse mesmo senso comum, alguns são mais merecedores de sentenças penais que outros. Desde 2013, os protestos “Não é só pelos R$ 0,20 centavos”, greves de estudantes, professores, funcionários públicos, polícia ou caminhoneiros provam isso. Hoje é quase impossível não falar de política. Talvez por isso a série “O Mecanismo” tenha tanto frescor e importância. Pode não ser a melhor série do mundo, mas acho que a Netflix acertou bastante em relação à temática. O enredo é bem bacana, na mesma média ou melhor do que qualquer novela global. Em minhas linhas anteriores eu cito as novelas porque você pode ver o Selton Mello em algumas produções da Globo e, mais recentemente, em filmes que também passam ou passavam na emissora. Mais recententemente em filmes como “O Palhaço” ou “O cheiro do ralo”, trabalhos brilhantes.

Abaixo, faço uma análise pessoal-  sem entrar em detalhes – sobre alguns episódios dessa marcante temporada.

Destaques:

Episódio 1 – “De onde vem a lama?” – Temporada 2

Marco Ruffo (Selton Mello) consegue informações importantes a respeito do décimo terceiro empreiteiro envolvido nos escândalos de ilicitude. Ricardo e Guilhome se tornam alvo de uma intensa investigação.

O segundo melhor capitulo dessa segunda temporada na minha humilde opinião. A trama está bem encadeada e os diálogos, apesar de às vezes clichês, bem impactantes. Gostei da tensão do início ao fim.

Episódio 4 – “O grande ilusionista” – Temporada 2

Ruffo (Selton Mello) continua a sua investigação com novas pistas. Ricardo cria uma plano maqueavélico para tentar ocultar novas informações e pede ajuda a sua esposa.

O melhor capítulo dessa nova temporada. Destaque para a atuação de Emílio Orciollo como Ricardo Bretch. É inegável como fiquei curioso para saber como acabava este episódio.

Gostei muito da ambientação. Apesar dos moldes novelescos meio exagerados, achei que os diálogos ficaram muito legais e coesos. A tensão é predominante em toda a trama, e cada vez mais, o telespectador tende a ficar vidrado com os novos rumos das negociações e conchavos políticos existentes nos bastidores. Não há maior exemplo do que a palavra mutreta pode significar.

Episódio 7 – “O fim e os meios” – Temporada 2

A opinião pública pega fogo com o noticiamento do andar das investigações. Pão e circo para o público, terror para os envolvidos.

 Para quem está ligado nas notícias do mundo político, este capítulo representa bem a novela real dos noticiários: todo dia uma bomba escandalosa de corrupção caindo no colo do eleitor. Nenhuma novidade advinda dessa pátria chamada Brasil. Pois bem, o episódio deixa claro ao telespectador como é o processo de favorecimento que ocorre entre estatais fraudulentas coordenadas por políticos mesquinhos e empreiteiros gananciosos. O papel da mídia como um todo é bem explorado aqui. Na minha impressão, discute-se aqui até que ponto a mídia tem realmente uma função importante ao relatar a notícia. O sensacionalismo e manipulação a qual a opinião pública é submetida, mesmo que de forma implícita, vem à tona, causando tensão, perplexidade e reflexão a quem assiste. Estamos lá nós – eleitores, cidadãos – representados pela pessoa que assiste à TV e acompanha os desdobramentos das denúncias que jornalistas tem acesso.

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