Resenha do livro “O Diário do Chaves” de Roberto Gómez Bolaños.

Foi em 1992 que Chespirito, nosso pequeno Shakespeare, deixou de interpretar, na televisão, o icônico personagem infantil “Chaves”. Contudo, a fim de “finalizar” de vez a história de seu personagem mais popular, ele escreveu “O Diário do Chaves”, para acalentar por definitivo os nossos corações. Enfim, finalmente a versão ganha nova edição em nosso país, com páginas extras super especiais; imortalizando o que já não se podia esquecer.

RESENHA | Livro: O Diário do Chaves - Roberto Gómez Bolaños
Ficha Técnica
Autor: Roberto Gómez Bolaños
Editora: Pipoca & Nanquim
Ano de lançamento: 2021
Sinopse: O Diário do Chaves, escrito em 1995 pelo criador do personagem, Roberto Gómez Bolaños, é o livro que encerra de forma brilhante a trajetória de uma das figuras mais amadas da televisão mundial.

Considerado canônico pelo Grupo Chespirito, a obra é um mergulho no divertido universo que Bolaños desenvolveu para o programa mexicano, cujas exibições tiveram início em 1972 e se estenderam até meados dos anos 1990, com direito à participação de Chiquinha, Quico, Seu Madruga, Dona Florinda, Professor Girafales, Senhor Barriga, Dona Clotilde e demais personagens; às voltas com os bordões e as confusões que tanto caíram nas graças do público brasileiro.

De início…

Tudo começa quando um menino pobre conhecido apenas como Chaves se oferece para engraxar os sapatos de um homem. Esse homem é ninguém mais, ninguém menos, que o próprio Bolaños. Por conta desse inusitado encontro, um surrado caderno cheio de anotações do garoto acaba nas mãos do autor, que, após se encantar com tudo o que ali estava relatado, decide publicar o material sob o título O Diário do Chaves.

Por um breve e fantástico momento, o criador se viu frente a frente com sua criação, e, graças a isso, pôde lhe prestar a devida homenagem e deixar registrada sua emocionante despedida. Além de trazer a obra completa, com uma narrativa repleta de fatos inéditos a respeito da vida do Chavinho, como sua trajetória antes de chegar à vila do Seu Barriga, a edição da Pipoca & Nanquim também é um trabalho documental, pois apresenta diversos extras exclusivos. O livro inclui um lindo registro de Florinda Meza (esposa de Bolaños e intérprete de Dona Florinda e Pópis) sobre a trajetória meteórica do elenco original em apresentações pelo continente; um texto sobre toda a cronologia do seriado televisivo e sua repercussão no Brasil; um caderno de fotos repleto de curiosidades sobre os bastidores de produção; uma biografia do autor, capa dura com arte do brasileiro Thobias Daneluz, e mais: as ilustrações originais da obra, feitas à mão também por Roberto Gómez Bolaños.

Uma publicação digna de constar na prateleira de todos os fãs de um dos melhores seriados humorísticos de todos os tempos.

 

barril chaves vizinhança


Introdução


“Chaves não é o menino levado, nem o menino inteligente, nem o bobo demais, nem o bonito – também não é o mais feio, não, Chaves é simplesmente o mais meigo.” – Florinda Meza, pg 120.

Complicado falar de Chaves para os millennials em diante (não atrás), no Brasil, e já não vir à mente inúmeros bordões como por exemplo: “foi sem querer, querendo”, “isso, isso, isso”, “e zás”… Enfim, um seriado “pastelão”, da década de 70 (até início dos 90), com cenários e figurinos rústicos; que parece fazer referência ao dia de ontem, não, de hoje, ou melhor, de amanhã também… Assistindo e reassistindo os episódios que marcaram nossa infância – e, sim, bons para crianças, incríveis para os adolescentes e melhor ainda para os adultos; é como se o seriado nunca tivesse terminado. Todavia, mesmo com um ar de esperança, “seu criador” lançou o “Diário do Chaves” prometendo finalizá-lo – mas, estando longe disso, claro.

Os fãs da série, mesmo se não leram o tal “diário”, devem saber, por cima, do drama que é contado pela visão de uma criança em sua plenitude, sobretudo, por sua inocência. Foi um adulto quem interpretou, na televisão, a criança, de 8 anos (talvez); mas, no diário, é a plena criança quem nos introduz ao mundo dela.

A inocência e a ternura…

Florinda Meza, intérprete de “dona Florinda” (a mamãe do Quico), afirmou que o personagem “Chaves” não era nem o mais engraçado, o que os fãs concordam (“seu Madruga” e “Quico” são alguns dos favoritos no meio). No entanto, ele era o mais visado, um ícone mundial, devido a sua ternura. Afinal, mesmo em meio às circunstâncias mais atrozes, a esperança e alegria nunca lhe saíram dos pequenos e fundos olhos.

Enfim, para você que é fã: contemplem esta novel, em formato de diário, revelando um Chavinho que muitos já viram; todavia, sendo ainda mais pleno com a riqueza de sua infância terna e eterna. Eis “O Diário do Chaves”!


Personagens


Os clássicos estão presentes: Seu Madruga, Quico, Chiquinha, Dona Neves, Dona Florinda, Dona Clotilde, Professor Girafales, Jaiminho – o carteiro, Godinez, Pópis, Paty, Nhonho, Seu Barriga… Mas, além deles, Chaves inicia suas páginas falando do pai, que nunca conheceu, e da mãe com quem pouco conviveu.

RESENHA | Livro: O Diário do Chaves - Roberto Gómez Bolaños foto 1

Núcleo dramático da trama

Logo, fala de seus colegas e amigos do orfanato – onde somos apresentados ao “famoso” Cente; assim como, da tutora carrasca deles.

Quando nas ruas, Chaves nos apresenta a alguns “colegas“, os quais não são as melhores influências para o nosso pequeno bobalhão.

A vila que amamos

Por fim, ele chega na vila. Revela a senhora que o abrigou, na casa de número 8, e que não mora em seu barril, como muitos pensam; e, ainda, todos os personagens pelos quais amamos. Dali, Chaves não mais saiu.


Desenvolvimento e Considerações


Roberto Gómez Bolaños, o próprio, fez um prólogo bem interessante a fim de “explicar” a publicação de um diário. O “diário” teria sido esquecido por um menino maltrapilho, após engraxar os sapatos do Roberto. Na esperança de reencontrá-lo, e totalmente encantado pelo que leu – ainda que com inúmeros erros gramaticais, o “cidadão Gómez” publicou “O Diário do Chaves”, com correções do “português”, e tem aguardado a reaparição do menino que tanto lhe inspirou. Bem poético, não?

Mas, nem tudo é poesia… Muito menos, comédia pura!

Antes da Vila (A.V.)

As primeiras páginas do “diário” narram as mais tristes histórias que poderíamos ler no que se refere a uma criança; com uma ressalva, que vale frisar: numa visão totalmente inocente.

Até sua chegada na famosa vila, Chaves já havia visto e vivido muito. Havia sido abandonado, maltratado, ameaçado, visto a morte de perto, se metido em uma “gangue” – com drogas no meio, inclusive; enfim… Os fãs choram ao ler, não tem como evitar! 

Depois da Vila (D.V.)

No entanto, ao chegar à vila, Chaves se depara com uma verdadeira família e amigos para a vida inteira. Não que os problemas cessam, mas, como diz a canção, ele encontra um lar para chamar de seu

E o dramalhão não cessa, como já mencionei. Em seu “diário”, o “menino da vila” ou “Chaves do 8”, narra a morte de um dos personagens icônicos. Chorei horrores nessa parte! Já havia sido preparada, anos atrás, para ela. Mas, quando amamos, nunca estamos prontos de verdade. O incrível é que a narrativa do pequeno Chaves soou até fria, em meio a comoção que qualquer outro em seu lugar teria. Muito provavelmente, isso se deve a sua própria experiência árdua de vida e ao fato de ser mais inteligente do que pensa ao escolher rememorar apenas os momentos mais felizes.

Referências Muito Adultas

Quem não se lembra das roupas que o Chaves pretendia comprar para o seu Madruga e para as “pobres mulheres das revistas que ele lê”?

Mais vívidas no papel, o Chavinho traz algumas frases de “duplo sentido” que poderiam “estragar” a infância de alguns, como por exemplo ao apresentar o casal “Professor Girafales e dona Florinda”. Após os cumprimentos tão conhecidos pelos fãs, com o convite para “entrar e tomar um café”, Chaves escreve assim:

“Então, os dois entram na casa da Dona Florinda. Mas ninguém sabe o que tanto eles fazem lá dentro.”

Não sei descrever minha expressão ao ler isso, melhor usar um meme:

Susto esquilo clássico

Confesso que nunca havia parado para pensar nisso… E, acho que prefiro continuar não parando para pensar…

O Barril – um lugar para chamar de seu

Acima fiz referência “ao lar”, agora, falo do “lugar”. Os poetas e cancioneiros já nos alertavam da importância de se ter um lugar tranquilo para pensar, descansar, sonhar e até, chorar. Ficar sozinho de vez em quando faz muito bem. Chaves foi um mestre nisso e nos ensinou com louvor.

Ele afirmou e reafirma: ninguém pode morar em um barril. “O que acontece é que me escondo no barril quando não quero que percebam que estou chorando. E também quando não quero ver ninguém, ou quando tenho muita coisa pra pensar.”

RESENHA | Livro: O Diário do Chaves - Roberto Gómez Bolaños foto 2

A Escolinha do Professor Girafales

“O Professor Girafales disse que a escola é a fonte do saber, e que nós, crianças, vamos lá pra beber dessa fonte. Mas a Chiquinha comentou que a Pópis nunca bebeu uma gota dessa fonte do saber.”

Boa parte dos meus episódios favoritos giram em torno da escolinha. Há citações, no livro, clássicas para os já fãs, tais como: “a história de Cristóvão Colombo”; a primeira paixão do Chaves – Paty; a gulodice do Nhonho, enfim… Além disso, a versão brasileira, apenas, manteve alguns trechos das “aulas de história” que se referiam ao Brasil (e não ao México, como no original).

Falando em “aulas de história”, friso que essas parecem ser as mais destacadas pelo personagem – retrato do seu criador, claro. Chespirito era muito ligado a história e política – tendo, inclusive, apoiado abertamente alguns candidatos em seu país.

Aulas e comportamentos não tão esperados

Além das aulas de história, algo inédito – para mim, pelo menos, que acompanhei mais os episódios clássicos do SBT (que exibiu cerca de 1/3 dos episódios de Chaves, desde sua aparição por aqui na década de 80), foram as “aulas de histórias Bíblicas”. Com o garoto trapalhão pouco entendendo alguns dos nomes, ele frisou histórias como “Torre de Papel” (Torre de Babel), Adão e Eva e a Arca de Noé. E ele continuou sem entender como Noé fez para distinguir se os animais eram machos ou fêmeas.

Ademais, as páginas revelam uma Chiquinha mais enciumada, com um Chaves mais desbocado e “entregue para o amor” ao falar da Paty, por exemplo. Também uma licença de “linguajar” já muito vista por nós, mas que expõem um lado sem qualquer maldade; muito pelo contrário, como quando ele fala vários “defeitos” do seu Madruga, mas finaliza dizendo que ele é muito simpático.

Minhas Conclusões

Contudo, Chaves, por certo, destaca mais uns personagens do que os outros. O próprio seu Madruga, por exemplo, e o Quico parecem desaparecer em vários momentos (o que acontece no seriado, aliás). A Chiquinha, no entanto, acredito que seja a mais destacada por ele. Chaves até diz, após ser enganado, mais uma vez, pela companheira de travessuras:

“Por isso adoro ela.”

Figuras Paterna/Materna

É fato que o seu Madruga é representado como uma figura paterna para o Chaves. Logo, substituído pelo “Jaiminho – Carteiro” e mesmo o “Seu Barriga”. Dona Florinda também fez referência a essa “maternidade”, principalmente quando “abriu seu botequim, digo, restaurante”; assim como “Dona Clotilde” e suas gorjetas ao ajudá-la. No entanto, estas não ficam claras no “Diário do Chaves”. Na verdade, pareceu-me mais que ele os via como amigos (Seu Madruga e Jaiminho, principalmente) e invejava o Quico pela mãe que tinha.

Quanto a senhora do “número 8”, com quem se hospedou, pareceu-lhe uma relação de avó-neto; mas, como já mencionei, Chaves faz relatos frios quando tem que se “separar” de alguns desses “amigos”. É quase como se sentisse que a “separação” se trata de algo bem esperado e já acostumado. Sim, eu chorei e continuo chorando!

Jaiminho evitando a fadiga

“Acho que o que aconteceu foi que o Jaiminho começou a trabalhar como carteiro antes de a bicicleta ter sido inventada […] ele nunca quer dizer quantos anos tem, mas imagino que não seja menos que 400.”

Por certo, na infância ríamos muito (e na adultice também, claro). No entanto, hoje também compreendemos o outro lado do trabalhador que veio de Tangamandapio, nem sempre tão nítido aos olhos inocentes de uma criança.

Jaiminho trabalhava bastante como carteiro, percorrendo ruas e ruas, de sol a sol. E, além disso, carregava uma bicicleta que deveria ajudá-lo, mas não. Tratava-se de um senhor de idade, que sonhava e se sustentava com a magia de sua cidade (imaginária ou não), pois sua realidade era muito dura. Ele não sabia andar de bicicleta e não podia contar, pois temia perder o emprego… Quantos de nós passamos por isso na vida real? Fatos muito dramáticos da vida, contados de uma forma inocente e até poética… Isso é Chaves!

E eu choro mais…

inflação de felicidade

Piadas que funcionam bem para quem as viveu

“…nesta vida o mais importante é comer. Se você não come, você morre. E se morre, a que horas vai comer? Por isso, é melhor comer do que morrer.”

Algumas críticas quanto ao livro se deram no fato de que certas piadas (manjadas, mas não “cansadas”) foram frisadas e que, embora no seriado funcionassem bem, nas páginas “frias” de um compilado, não. Pois, para mim, funcionam muito bem! Elas fizeram parte da gama de emoções positivas muito bem proporcionadas e coerentes ao personagem, aliás. Não seria “Chaves” sem as piadas…

As interpretações foram essenciais, mas…

Claro que, falando de nós, os brasileiros, o tom de voz usado pelos dubladores, eram fundamentais. Eu sempre rio muito quando, em sua inocência, o Chaves sobe umas 3 oitavas de voz para exclamar: “Outro gato!” (episódio “A Casa da Bruxa”, 1975); e “O rato?!” (episódio “Caça ao Rato” – no restaurante da dona Florinda, 1979), ou ainda “Então, mais um catarro eu vou ficar idiota!” (episódio “Um Banho para o Chaves”, 1979).

Também friso as caretas do seu Madruga, essenciais para rir com suas trapalhadas e emoções diversas; enfim…

Tendo todos esses traços vivos na minha mente, afinal assisti a um episódio do Chaves ontem mesmo, li o “diário” já com todos e tudo na minha imaginação. É assim que a leitura funciona, não é mesmo? Por isso, talvez para os que não são tão chegados a série podem até não curtir tanto, ainda que o terno protagonista seja arrebatador; mas, afinal, por que alguém leria o livro senão fosse fã? A trabalho, talvez? Por obrigação? Ah, por obrigação não vale… A leitura tem que ser prazerosa, seja ela como for, onde for e quando for.

Por fim, não sendo o fim…

Enfim, trata-se de um pequeno encadernado nostálgico, próprio para o fã de longa data, que, dentre outros e muitos sentimentos e sensações, faz lembrar da nossa própria inocência de uma fase tão terna.

Ah, e pontos positivos master para as ilustrações feitas pelo próprio Chespirito; as palavras comocionadas e dados de recordes ditados pela Florinda Meza; curiosidades, fotos e auxílios mais do “Fórum Chaves”, pois bem… Só faço uma ressalva negativa: O fato de não terem destacado a última mensagem do Chespirito no Twitter, que foi direcionada para o Brasil, o qual nunca teve o prazer de tê-lo em pessoa:

“Todo o meu amor para o Brasil.” (para a fã Maria do Carmo)

Mas, isso é a parte, não é mesmo? Para mim, o livro fluiu mais do que bem. Na verdade, envolveu tanto que fez fluir foi de mim, provocando uma “inflação” das melhores sensações; como o próprio Chaves disse, após as aulas sobre “inflação” do Professor Girafales:

“… se você viveu uma coisa muito boa, então é melhor que se lembre disso a todo momento, porque aí toda hora vai se sentir contente. E felicidade é quando você está contente. Portanto, é melhor guardar na memória só recordações boas. Porque aí pode vir uma ‘inflação’ de felicidade.”


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