Resenha do Livro “Eu Tenho Um Nome”  de Chanel Miller pela editora Intrínseca, fevereiro de 2021.

Em Janeiro de 2015, Chanel Miller foi a uma festa na Universidade de Stanford. No entanto, o ocorrido trágico naquela ocasião mudaria a sua e a vida dos de sua volta para sempre. Confira nossa resenha dessa autobiografia inspiradora, emocionante e muito tensa.
Livro Eu Tenho um Nome Chanel Miller
Ficha Técnica
Autor: Chanel Miller
Editora: Intrínseca
Ano de lançamento: 2021

SinopseEla ainda não era conhecida pelo próprio nome quando surpreendeu milhões de pessoas com uma carta relatando o estupro que havia sofrido no campus da Universidade de Stanford. Publicada no BuzzFeed, a declaração da vítima foi vista por onze milhões de pessoas em apenas quatro dias, traduzida para diversos idiomas e lida no plenário do Congresso americano, inspirando mudanças na lei da Califórnia e a demissão do juiz do caso. Brock Turner, o acusado, foi condenado em 2016 a apenas seis meses de prisão depois de ser flagrado agredindo-a sexualmente. Milhares de pessoas escreveram para dizer que ela lhes dera a coragem de compartilhar experiências de agressão pela primeira vez.

Agora Chanel Miller reivindica a própria identidade para contar sua história. Embora tudo apontasse para a condenação de Turner — havia testemunhas, ele fugiu, provas físicas foram imediatamente coletadas —, restou para Chanel apenas a luta contra o isolamento e a vergonha. Sua história lança luz a uma cultura que protege os agressores e expõe um sistema de justiça criminal falho com os mais vulneráveis, mas mostra também a coragem necessária para lutar contra a opressão e atravessar o sofrimento.

Ao entrelaçar dor e resiliência em seu relato, Chanel Miller revela seu tumultuado processo de cura e desafia uma sociedade que tantas vezes permite o inaceitável e ajuda a perpetuar uma cultura que desencoraja as vítimas de buscarem justiça. Além de apresentar uma escritora extraordinária, Eu tenho um nome é uma obra capaz de transformar para sempre a maneira como enxergamos os casos de agressão sexual.

 

Citação Intrínseca


Introdução


“Eu sou uma vítima. Não tenho problemas com essa palavra, meu problema é me reduzir a isso.”

Chanel Miller jamais esperaria tanta repercussão. Ela realmente levantou a “própria voz”, levada pelas consequências terríveis de um ato criminoso a qual foi submetida.

Em suma, numa festa de alunos de Stanford, a já formada em uma universidade acompanhou a irmã e uma amiga. Entretanto, a jovem de 21 anos na época se separou por alguns instantes delas e, tendo bebido muito, logo perdeu a consciência. Ao despertar, Chanel já estava no hospital sendo examinada e medicada para um, até então, suposto estupro. Atordoada, a jovem ainda levaria um tempo para perceber a situação e decidir lutar pela justiça, o que se tornaria mais um trauma para ela.

Conheça seu nome…

A princípio, sendo divulgada como “Emily Doe” ou apenas como a “vítima de Stanford”, Chanel ainda lutou consigo mesma até decidir dar o seu próprio nome em prol de campanhas sócio-políticas na defesa das vítimas de estupro; voltando a atenção para os métodos falíveis da justiça americana, machismo, bem como, preconceito social e racismo.

Sua voz foi tão grande que várias de suas citações no processo foram amplamente divulgadas em grandes veículos de imprensa, citadas por Hilary Clinton e em congresso; utilizada por Amy Lee para compor a música “Use my Voice” do álbum lançado neste ano “The Bitter Truth”; levantadas como bandeira para melhorar a vigilância e o apoio às vítimas nas universidades; utilizadas para dar esperança às vítimas por suas palavras empáticas e muito bem colocadas; enfim… O trabalho que Chanel tem desenvolvido desde o acontecido, mesmo sem ter intenção explícita de início ou mesmo se revelar, tem sido de extrema importância a fim de creditar pela verdadeira justiça, seja onde for. Caso contrário, podemos levantar nossas vozes!

“Quero que o juiz saiba que ele acendeu uma pequena chama. Essa é uma razão para todas nós elevarmos ainda mais a nossa voz.”


Enredo


O livro é extenso e é muito maduro para uma pessoa tão jovem. Chanel sabe se expressar e, por vezes, não esconde seus sentimentos ao ditar as palavras… Além disso, em alguns momentos, também percebemos um modo taciturno na protagonista, com possível afastamento da realidade. Miller traz muitos assuntos satélites para ilustrar seu estado de espírito, seja ele se referindo a sua tentativa de seguir com a vida, mesmo ainda em julgamento; seja falando sobre sua infância ou qualquer outro momento da própria vida; ou ainda, utilizando de casos grandes os quais possam se assemelhar ao dela. Aliás, vale frisar que o julgamento de seu caso: “O Estado contra Brock Turner”, durou cerca de 1 ano e meio.

Sendo ilustrado pela mídia e altamente frisado pela defesa, Turner era dito como um ex-campeão de natação na época do colégio e integrante da equipe de Stanford no esporte, com um futuro muito promissor. Essa tentativa de propagandear um “bom garoto” para um acusado de estupro foi um dos pilares erguidos por Chanel, dentro de si, para combater esse posicionamento contra o ato vilipendioso, afinal, – não importa o status de alguém… Se o crime foi cometido, ele deve receber sua paga. –

Citação Intrínseca 2

Supremacia branca…

Com ascendência chinesa, residente de Palo Alto na Califórnia, com Stanford pertencendo a sua infância e vida, Chanel, por diversas vezes, insinua a sua posição de desfavorecimento num país de supremacia “branca”. Na época, as palavras de Emily Doe, seu codinome no processo, ecoavam, perguntando a plenos pulmões: “e se ele não fosse branco?” “E se ele não fosse de uma universidade com tanto prestígio como Stanford?” “E se ele não fosse quase atleta?”

Até o final do julgamento, com a irrisória sentença de seis meses de prisão, com atenuantes devido a ele ser réu primário, aparentemente ter se arrependido, ter consumido bebida alcoólica e ter “bons antecedentes”; Chanel Miller relata toda a dor de ser exposta, previamente julgada e também da sobrecarga da família, namorado e amigos próximos.

E Chanel ergue sua voz…

Ao longo do texto, Miller utiliza de metáforas, comparações, até mesmo fábulas (como a da centopeia e da aranha), para ilustrar tudo o que queria e o que lhe era impedido de dizer seja para manter o anonimato, garantido por lei à vítima, ou pelo próprio estado atordoado devido a todo o processo desgastante. Talvez, por tanta informação, a narrativa tenha se tornado um pouco cansativa, com pouca precisão e até mesmo contraditória em alguns momentos… Todavia, não diminuiu o impacto do texto, com foco na força da Chanel e não no acontecimento em si. Até porque, dele ela não se lembra…

“Diziam: Você foi a uma festa de fraternidade e foi violentada? O que esperava? … Sei que não devemos entrar em uma cova de leões porque podemos ser atacados. Mas leões são animais selvagens. E garotos são pessoas, têm mente, vivem em uma sociedade com leis.”

Conquistas

Eu realmente acredito que Chanel Miller tenha liberado a voz para escrever esse livro, o que lhe era impedido. Por isso, é notável e plenamente justificável o excesso de indignações de seu relato, não apenas contra o seu agressor primário, mas também contra vários comentários aleatórios de pessoas comuns, de pessoas importantes (ex-presidente Trump), do advogado da outra parte e, até mesmo do juiz do caso.

Aaron Persky ficou muito conhecido em 2016 por ter dado a sentença considerada extremamente branda de seis meses para o acusado, com ele cumprindo apenas três. Assim sendo, apesar do júri ter sido unânime em condenar Brock por três acusações de agressão e, além disso, de ter recebido uma carta de Chanel com 12 páginas que, logo, comoveu o mundo e viralizou o caso. – Por essa, ele também não esperava… –

Em favor da vítima, que não tinha nome ainda, movimentos foram levantados a fim de exonerar Persky. Apesar dele se pautar na própria lei americana para a tomada da lamentável decisão, foi acusado de favorecer a agressão contra mulher e crimes sexuais pelo movimento. Dessa forma, ele deixou de ser juiz da comarca, conforme decisão do Estado. Além disso, tais movimentos conseguiram leis mais severas na Califórnia.

Citação Intrínseca 3

Histórias aleatórias…

Contudo, alguns trechos de favorecimento ao partido democrata, falando de Hilary Clinton e Joe Biden; citação parcial do caso da polícia e Philando Castile, um jovem negro baleado no próprio carro com a família, mesmo com a escritora não tendo o pleno conhecimento do caso; o massacre de Isla Vista; constante menção contra Donald Trump (que, inclusive, zombou dela) e outras menções de casos como do Bill Cosby, Larry Nassar e Christine Blasey, assim como o movimento “Me Too” de Tarana Burke, sem falar o mínimo sobre a história de cada (com exceção do massacre de Isla Vista) a fim de fazermos a ligação da comparação com sua história; podem incomodar um pouco o leitor. – Mas, pegue leve! – Chanel apenas colocou para fora tudo o que estava sentindo, fazendo lógica ou não… Afinal, nem sempre somos racionais, ainda mais no inimaginável de passar por tudo o que ela passou.

Universidade de Stanford…

Todavia, talvez Chanel tenha sentido mais ao falar de Stanford, lugar que associava à infância.

A princípio, ela relata não ter recebido apoio da universidade pela qual era anfitriã da festa. No entanto, Chanel mesma dizia estar fechada para responder a qualquer ajuda nos primeiros meses. Batendo de frente e tendo muitas pessoas para ajudá-la, a jovem conseguiu indenização, reuniões de apoio, bem como, reforma e iluminação do local onde tudo aconteceu e até uma placa. Bem, essa foi mais difícil, mas a jovem asiática-americana e a universidade não chegavam a um acordo para uma frase sucinta (- algo que Chanel realmente não passa, veja que tamanho de livro! –) e, se possível, não tão emblemática. Mas, os próprios alunos ergueram os dizeres de Chanel no mais recente.

Por fim, apesar dela ter quase perdido a fé na justiça e na humanidade, foram dois garotos suecos que a ajudaram quando tudo aconteceu e a lembraram de que existem pessoas boas. Chanel de nada se lembrava, porém eles a viram, correram até Brock e o imobilizaram, chamaram a polícia e o socorro veio. Até hoje a jovem se pergunta o que teria acontecido com ela atrás de uma lixeira, num pátio nada iluminado, seminua, com galhos e folhas sem fim, se eles não tivessem aparecido e a ajudado.

Chanel entrelaçando dor e resiliência


Considerações Finais


Know My Name – A Memoir” – “Conheçam meu nome” ou até “Conheço o meu nome” parecem ter mais efeito do que “Eu Tenho Um Nome”, em português; ainda que eu entenda o significado com semântica coerente. A princípio, pensei que o título se tratava de um chamariz para si e o seu caso, revelando enfim, o nome verdadeiro após vários meses do caso sendo veiculado em todo o mundo. No entanto, após a leitura árdua do texto, percebi que, acima de tudo, Chanel queria poder se lembrar e ter certeza a respeito de si mesma: – “Eu me conheço, sei quem sou, independente do que dizem ou fazem” –. Frisando que este parágrafo é todo feito por uma conclusão minha.

Narrativa mórbida…

Eu confesso que a chamei de “chata” algumas vezes… – Não me levem a mal! Foram 360 páginas que pareceram o dobro! –

Quando o resultado do julgamento estava para sair, Chanel divagava em sua narrativa. Contava sobre a infância, sobre a irmã, sobre a mãe na China, sobre o pai com suas terapias, o namorado, seu novo cachorro, enfim… Mas, até que valeu, pois a narrativa deixou de soar tão mórbida. Isto é, Miller se mostrou humana, com alternância de sentimentos e, ainda, muito importante: não deixou de frisar todo o apoio que teve. Houve condenações, sim. Mas, a família foi retratada como lhe sendo incondicional, respeitando-a mesmo quando queria ficar só. São relatos que, por exemplo, não conseguimos perceber tão afincamente nos livros “Não conte para a mamãe” de Toni Maguire e “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída…”, nos quais a posição de culpada parece ser bem mais forte do que a de vítima – para as próprias vítimas.

Contudo, essa luta pelo erguer da voz é constante e, ao falar, pode até haver acusações. Mas, haverá sempre quem entenda, se disponha a ajudar e, até mesmo, caminhar junto. Chanel relata que recebeu diversos depoimentos de gratidão, pois ela conseguiu fazer justiça, mobilizando grandes frentes para a atenção a um caso que é devastador para a vítima e os seus. Desse modo, dá até para enxergar uma luzinha ínfima lá no fundo de um túnel escuro, nos fazendo crer que ainda pode haver esperança para um mundo melhor.

“Escrevi, sobretudo, para dizer que vi como o mundo pode ser bom.”

Miller e o Livro…

Chanel Miller diz que pretendia ocultar o sobrenome, então não sei se “Miller” realmente lhe pertence. Ela é uma escritora, com formação em literatura, e artista americana que vive em San Francisco, Califórnia e na cidade de Nova York. Concedeu diversas entrevistas e conversou com muitas celebridades, tudo isso após se revelar.

Apesar de tamanha narrativa, num teor quase didático, parece que não houve espaço para mencionar sobre o processo de escrita deste livro, nem quando a contactaram para fazê-lo. Há algumas menções jogadas ao longo do texto principal e epílogo apenas, com, inclusive, autoelogios a sua própria escrita madura. Parece até engraçado a gente perceber alguém se elogiando tanto em meio a relatos tão conturbados… Talvez isso nos mostra um pouco da instabilidade de humor de alguém que sofreu e sofre o que Chanel tem sofrido. Ela relata que sempre precisava se lembrar de quem era de verdade.

Citação Intrínseca 1

A carta do julgamento ao BuzzFeed…

Ah, mais uma coisa! Eu confesso que gostei mais de ler a carta que está anexada ao livro do que ao livro em si (não que eu não tenha gostado do livro, hein? Muito pelo contrário!). Acredito que a carta poderia ter sido colocada entre a narrativa do texto, todavia, agradeço por não terem esquecido as primeiras e derradeiras grandes palavras de Chanel para o mundo, numa carta dela para o agressor, apresentada ao juiz do caso. Na época, o BuzzFeed americano publicou a carta na íntegra, após o julgamento. Em menos de um dia, já havia mais de um milhão de acessos. Podemos conferi-la no original em inglês aqui, mas sem esquecer da leitura do livro!

“Nunca é tarde demais para um novo começo.”


Curiosidades


A capa do livro é muito eloquente.

kintsugi - capa do livro eu tenho um nome

“Os veios dourados representam o kintsugi, arte japonesa que significa “reparo em ouro”. Em vez de considerar às rachaduras e imperfeições que devem ser ocultadas, através do kintsugi às peças de cerâmica quebradas são remendadas como uma mistura de ouro em pó e laca. Essa técnica nos mostra que, embora o objeto não possa retornar a seu estado original, os fragmentos podem se reconstituir novamente como algo único.”

Premiações e Reconhecimentos

“Eu tenho um nome” é best-seller do The New York Times, vencedor do National Book Critics Circle Award e, aliás, foi eleito um dos melhores livros de 2019 por veículos como The Washington Post, Fortune e People. Ademais, no mesmo ano, Chanel Miller foi escolhida como uma das cem personalidades em ascensão na lista da revista Time.

Chanel Miller


* ONDE COMPRAR *

Amazon



Leia mais resenhas de livros AQUI, no TG.