Ficha Técnica
Autor: Joël Dicker
Editora: Intrínseca
Ano de lançamento: 2014
Sinopse: Marcus Goldman é um jovem autor que alcançou grande sucesso com seu primeiro livro. Sofrendo com um bloqueio criativo, ele procura seu ex-professor de faculdade, Harry Quebert, um dos mais renomados escritores americanos, que vive em uma mansão à beira-mar na pequena cidade de Aurora, em New Hampshire.

A trama toma um novo rumo quando Marcus é surpreendido pela descoberta do corpo de uma jovem de quinze anos, Nola Kellergan ── desaparecida sem deixar rastros em 1975 ──, enterrado no jardim de Harry com o original do romance que o consagrou. Harry admite ter tido um caso com a garota e ter escrito o livro para ela, mas alega inocência quanto ao assassinato.

Decidido a ajudar seu mentor, Marcus se lança em uma investigação. Na tentativa de reunir peças que possam provar a inocência de Harry, o jovem escritor esbarra em antigos segredos dos habitantes de Aurora; ao mesmo tempo em que reconstrói os acontecimentos do verão de 1975, quando Harry e Nola viveram um amor proibido.

 

“Apesar de escrever histórias de detetives, eu prefiro pensar que, nos meus livros, se o crime fosse removido, ainda assim restaria uma história.” – Dicker, Joël.

Introdução

Joêl Dicker é um autor que não se define pelo gênero “suspense”, apesar de seu maior sucesso: “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert”. Mas, bem que poderia.

De antemão, aí vai uma nota pessoal: na esperança de vencer um bloqueio forte de leitura e perder o medo de “calhamaços”, eu decidi me aventurar em um romance policial que me foi recomendado há cinco anos, em um curso sobre linguagem e literatura.

A princípio, me parecia difícil pensar que um livro com tantas páginas poderia se sustentar em torno de um único grande caso: a morte de uma garota. Pois, foi o que aconteceu…


Sobre o Livro

Joël Dicker foi lido por mais de 9 milhões de pessoas. Ao passo em que o livro vendeu para mais de 4 milhões, rendeu também prêmios como o “Grande Prémio de Romance da Academia Francesa de Letras” e o “Prix Goncourt des Lycéens”.

É interessante pensar que, apesar do sucesso no mundo dos “casos policiais”, Dicker não se considera um autor do gênero. Em entrevistas, esse jovem escritor afirmou que gosta de pensar que se retirarem o suspense policial de um de seus textos, o contexto ainda se sustentará.

Definitivamente podemos ver em “A verdade sobre o caso Harry Quebert”: um “romance proibido”, “linhas alternativas de tempo” e até críticas sociais, políticas e religiosas.


Embarcando na História

Marcus Goldman, 30, é o nosso grande contador.

A princípio, a narrativa predominante em primeira pessoa poderia nos levar a um “falso veredicto”, visto que o aparente culpado é o seu grande mestre e amigo: Harry Quebert, de 67 anos. Por outro lado a história muda para a terceira pessoa conforme os relatos aparecem. A de se tomar cuidado com as datas, pois o crime horrendo ocorreu há mais de 30 anos.

Harry Quebert é um grande escritor e professor universitário. Solitário, encontrou em Marcus Goldman um pupilo dedicado.

Foram anos pelos quais Quebert ensinou Marcus sobre a escrita e o boxe. O jovem era conhecido como “O formidável” (ou “o Magnífico”, dependendo da tradução) até o início dos estudos na faculdade. Marcus Goldman descobriu o seu próprio jeito de se destacar, mesmo não fazendo nada de muito extraordinário.

O professor, muito atento, logo desvendou a farsa do “formidável”, além de apresentar ao leitor um ponto interessante. Acredito que Quebert tenha visto em Goldman um semelhante, pois sua vida também era repleta de segredos. Ao passo que, no fundo, ansiava pela própria verdade para enfim ter a paz, ou o “paraíso dos escritores”. Dessa forma achava, e achou certo, que Goldman lhe daria essa redenção, mesmo lhe custando a carreira.


Conselhos de Escrita e Inspiração

O livro é dividido em três partes: “a doença dos escritores”, “a cura dos escritores” e “o paraíso dos escritores”; tendo como “prólogo” uma das que foi a ligação telefônica mais marcante sobre o caso de assassinato.

Em síntese, cada capítulo desse calhamaço de enigmas e mistérios possuem conselhos e frases de efeito sobre a vida de um escritor, com fortes comparações ao boxe, atividade essa muito presente na vida de ambos, aos relacionamentos afetivos e a qualquer associação com a realidade dos fatos.

“… este é um conselho que se aplica a todos os personagens que vivem em você: o homem, o pugilista e o escritor. Se um dia tiver dúvidas sobre o que está empreendendo, saia e vá correr. Corra até perder o juízo: sentirá nascer em você a fúria do triunfo.” (Capítulo 27, pg 92 – “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, Intrínseca, 2014)

Nola era o nome da jovem, a mesma que foi a grande inspiração de Harry Quebert. Ao passo pelo qual ela tinha 15 anos de idade, e Harry Quebert 34, o relacionamento de ambos se tornava impossível, que não na literatura. Logo a conclusão inicial foi a de crime passional envolvendo homicídio.


Críticas & Apelos

As fortes críticas sobre o mundo editorial, com destaque aos Estados Unidos, são recorrentes.

Marcus, jovem escritor, está nas mãos de seu editor, pois tem um contrato milionário que exige a publicação de outro texto.

Após o sucesso do primeiro livro, aos 28 anos, o rapaz é atormentado pelo mais terrível dos tormentos: o bloqueio criativo. Sendo assim, Goldman busca refúgio e inspiração em seu amigo Quebert, que vive na pequena cidade de Aurora em New Hampshire.

No mais improvável, a inspiração de Marcus viria pouco tempo depois quando a ossada da jovem Nola em 1975 foi encontrada a poucos metros da residência de seu amigo e mestre, juntamente com o original datilografado da grande obra-prima dele.

A fim de ajudar o amigo, sabendo dos riscos, o jovem escritor investigará e escreverá sobre, tendo certeza de que Harry Quebert não assassinou a garota. Porém descobrirá muito mais sobre esse antigo amigo e sobre a pequena e aparente pacata cidade litorânea.

Nola e Quebert em Goose Cove, 1975. Série GloboPlay.

Excesso de Enigmas

Quanto mais você acompanha a leitura, mais enigmas surgem. Quebert conta seu lado da história, todavia nunca por inteira. Ao mesmo tempo, Goldman retorna trinta e três anos e busca por locatários da região, amigos da jovem assassinada, família e vizinhos.

Jogar pistas falsas é muito esperado no suspense literário, a fim de estimular o senso investigativo do leitor. Todavia, por vezes, Dicker – o verdadeiro autor, abusa. Há diversos diálogos e narrativas totalmente dispensáveis na obra, como por exemplo: conversas de personagens alheios com um psiquiatra que nem é apresentado – algo, inclusive, que foi descartado na adaptação para uma minissérie homônima.

Outro fator importante decorre da vida particular da adolescente Nola. Com um histórico repleto de apelos psicodélicos, violência doméstica e ações fora do comum, diversos caminhos surgem. Mas, o que é realmente importante para a resolução do caso Harry Quebert?

Alguns dos leitores se sentiram enganados ao concluir muitos desses diversos caminhos. Quer correr o risco?


Considerações Finais

O autor, por meio de um personagem que mais se parece com um alter ego, fecha o livro ressaltando lições aprendidas com o caso Harry Quebert, como por exemplo: a falta de atenção dos pais quanto a seus filhos, além das atitudes irresponsáveis de jovens que os comprometeram para o resto da vida, do falatório de uma cidadezinha que pode condenar mortalmente pessoas e da ambição de um escritor que conseguiu ser maior do que qualquer outro sentimento, até mesmo maior do que o amor proibido que sentia por uma jovem de 15 anos, apaixonada por gaivotas.

Fatos iam, fatos vinham… Da mesma forma, o que parecia ser, não era – algo comum no gênero literário do suspense. No entanto, as reviravoltas são tantas que passam a ideia de que o próprio autor não sabia qual seria o desfecho até o capítulo final. – Lembrou-me dos meus tempos de “fanfics” em que eu jogava para a opinião dos poucos leitores e fazia tudo ao contrário do que eles diziam, ou seja, mudanças eternas. Está aí a justificativa para o livro ter quase 600 páginas.

Em conclusão, apesar dos excessos e até das soluções fáceis, é uma leitura altamente recomendável, envolvente, fazendo com que o leitor não consiga se desviar.

A série homônima está na Globoplay. O que acharam? Deixem também vossa opinião.

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