Resenha do livro “À Beira da Estrada – Violência e Crime Sem Castigo” da Editora Black Noir.

Dom Benites é uma pequena cidade do sul do Brasil. Lá, de tempos em tempos, costumam acontecer fatos trágicos. Contudo, nada pôde superar a morte da professora Verônica… Nem superar, nem elucidar. Acompanhe essa resenha de um dos suspenses da Editora Black Noir, escrita por Tiago Castro.

capa À Beira da Estrada - Violência e Crime Sem Castigo
Ficha Técnica
Autor: Tiago Castro
Editora: Black Noir
Ano de lançamento: 2021
Sinopse: Verônica é uma dedicada professora de um pequeno vilarejo chamado Dom Benites, lugar onde o obscuro toma conta desde histórias de lobisomem, aparições, mortes estranhas e acidentes marcantes que quase sempre deixam vítimas.

A trama é baseada em um caso real onde os envolvidos são Krug seu ex marido, Ferlin o atual e seus filhos Anne e Sieger que ficaram órfãos após o assassinato da mãe que ocorreu de maneira brutal no ano de 2002.

Após sua morte Krug tornou–se o principal suspeito do crime seguido de Ferlin que desapareceu naquela mesma noite e nunca foi encontrado.


Introdução


Parecia comum para os habitantes do pequeno vilarejo chamado “Dom Benites” a ocorrência de tragédias. Ouvir sobre “bruxas”, “lobisomens”, “vampiros”, enfim… Parecia fichinha perto das “assombrações” que os rodeavam, envolta nos espectros da morte.

De antemão, a história começa em primeira pessoa, cujo narrador é um personagem do tipo “questionador”; isto é, não muito “investigativo atuante”. Embora ele se coloque na história, ao mesmo tempo, a sensação que temos é a de que ele se afasta, como que se tratasse apenas de histórias as quais outros contaram.

Ele menciona superficialmente sobre seus costumes, suas andanças, bem como, de sua infância, algumas amizades… No entanto, seus pensamentos e crenças são mais enfatizados do que quaisquer outros. É óbvio que ele, assim como outros (provavelmente), sentia indignação pelo trágico acontecido em sua cidade natal. Mas, algo que era, de fato, muito grande, parece ter despertado algo maior. Aliás, o que seria esse algo maior? Não faço ideia…

O ano é 2002, marcado por conquistas e tragédias, e a pequena cidade é “Dom Benites”a pequena comunidade marcada pelo sinistro. Enfim, sejam todos bem-vindos em uma das primeiras tramas “dark” da Black Noir!


Personagens Destacados


Professora Verônica

A história gira em torno do assassinato da professora Verônica. Era uma pessoa reservada, nada dada a festas, amava lecionar e sua rotina consistia em ir à escola, visitar a mãe (às vezes) e voltar para casa. Pois bem, ela foi encontrada pela empregada, horas depois de uma suposta morte por asfixia. Ademais, ela tinha dois filhos: Anne, do primeiro casamento, e Sieger – do segundo.

Krug

O primeiro marido de Verônica, e o mais suspeito pelo crime, é mencionado como abusivo. Segundo “histórico de vida”, ele se mostrava um indivíduo machista, sem escrúpulos, capaz de trapacear qualquer um a qualquer preço… Um sujeito articuloso, falso, com instinto assassino, mas que sobre a luz era de uma elegância e educação. Enfim… Trata-se do pai de Anne.

Ferlin

Segundo marido da professora Verônica, é também suspeito pois ficou foragido. Aliás, não se sabe se está vivo ou morto. Ele não é descrito com as mesmas características de Krug, pelo contrário. Mas, nada muito íntimo sobre ele foi elucidado. Ademais, Ferlin é o pai do Sieger.

Elise

A diarista que trabalhava na casa da Verônica, é casada com Antony – um homem do campo; e tem duas filhas. Em suma, fazia suas tarefas com muito amor e era educada e atenciosa com todos. Pois bem, Elise foi a primeira a encontrar Verônica morta, ao som do choro do bebê Sieger.

 

Autor Tiago Castro.
Autor Tiago Castro com à Beira da Estrada pela Editora Black Noir.

Desenvolvimento


A tragédia central aconteceu em 2002, mas o narrador também se coloca nos tempos atuais relatando, inclusive, como vive alguns dos personagens; embora quase não tenha contato com eles.

Casos aleatórios

Para ilustrar o “sinistro” do vilarejo de Dom Benites, o narrador relata sobre alguns casos, como o de Jeremy, em meados de 2001. Em síntese, a fim de se aquecer em uma noite fria de inverno, ele ateou fogo na própria casa; o que acabou levando-o ao fatídico.

Outrora, na mesma casa incendiada, um pai faleceu devido a um câncer na garganta.

Logo, um rapaz chamado James faleceu ao cair de um cavalo, bêbado aparentemente. Além disso, foi curiosa a forma como realizaram a cerimônia fúnebre do jovem:

“Como ele bebia, resolvemos celebrá-lo a altura. Então não nos acanhamos. Bebemos e rimos, começamos com samba, depois para cachaça com mel e vinho.”

Também houve um acidente, perto do local da morte de James, com um caminhão de óleo que perdeu o controle numa ladeira e desceu de ré. Com o líquido sendo vazado, e sendo inflamável, boa parte da grama foi queimada. Contudo, por sorte, o motorista escapou ileso do acidente.

Da mesma forma, um ônibus que levava vários estudantes de ensino regular (incluindo o nosso narrador), também não venceu a bendita subida e voltou de ré em um piscar de olhos. Além disso, quase topou com um poste de alta-tensão. Por fim, não houve feridos. Mas, trata-se de uma maldição

Enfim, “essa pequena comunidade estava sendo marcada pelo sinistro. A cada dia, a cada ano, algo pesado sempre ocorria por ali…”

O assassinato da professora Verônica

Contudo, porém, todavia, nada parece tê-los marcado mais do que a tragédia, com relatos reais, envolvendo a singela professora Verônica e seu aparente assassinato passional; diante de um bebê.

A trama segue em estilo de relato. Ou seja, o leitor não é inserido totalmente na história por meio da narrativa em prosa; mas sim, num contexto meio que documental. Sendo assim, alguns aspectos importantes da comunidade e personalidades (principalmente, dos personagens em destaque) ganham notoriedade.

Livro À Beira da Estrada - Violência e Crime Sem Castigo
Acervo pessoal

Considerações Finais


Dom Benites é uma pacata vila localizada no interior do estado do Rio Grande do Sul, na região fronteiriça.

Antes de acontecimentos trágicos tão marcantes, o máximo de histórias que ladeavam o vilarejo, envolviam: lobisomens; lugares assombrados; aparições; visões do sobrenatural, como por exemplo – cães com olhos de fogo, enfim… Menções até que clichê para referenciar as cidades pequenas.

Pensamentos e crenças pessoais, aleatórios e não…

Achei curioso, muito curioso, o fato do narrador expor tanto seus pensamentos e crenças (como se fosse num diário particular) e, ao mesmo tempo, não contar quase nada sobre si. Talvez, por se basear em relatos reais, o próprio escritor tenha se colocado na trama. Indo além, quem sabe a intenção também não fosse a de colocar o próprio leitor como narrador ativo? Claro que isso seria complicado, visto que cada qual tem seus próprios pensamentos e posições, conforme experiências de vida. E está aí… Senti alguns incômodos nessa enxurrada de informações e devaneios.

“… O instinto humano frisa o emocional apenas naquilo que os olhos podem ver e que seja tangível, a sociedade comete a tolice de esconder-se da verdade, preferindo conviver com o inconveniente. Seguindo padrões que causam frustração, angústia e incerteza, e que mesmo estando à beira do precipício não são capazes de abrir o leque necessário para atingir o alvo certo e sair da mesmice de uma vida movida por razões platônicas.”

A classificação, e tudo o mais, indicava que se tratava de um livro de suspense (“dark noir”, mas suspense). No entanto, muitas vezes, me deparei com uma espécie de livro de autoajuda (“Temos o dever de criar teses sobre nós mesmos…”); com críticas pesadas à sociedade atual. Por certo, não se trata de algo que eu esperava encontrar, em excesso, no meu gênero literário favorito… Contudo, vale frisar que o estilo noir, proposto pela editora Black Noir, faz relevância em seus textos.

“A falta de respeito por parte da ala masculina na maioria das vezes é nojenta. Gerando a necessidade dos mais inseguros de agredir até matar para dar sentido a própria vida. É lamentável esse atraso da evolução da sociedade e dos direitos.”

Posicionamentos incômodos…

Entretanto, o narrador conta toda uma história tendo a certeza do culpado pelo grande crime de assassinato. Faz firmes críticas a população do vilarejo, bem como, da corporação policial como um todo. Coloca sua posição sobre o papel das mulheres desta cidade pacata de uma forma bem delicada, com nuances machistas estruturais, inclusive com sugestões de que a professora Verônica era “corajosa” por se meter em outro casamento (“No pequeno mundo de Dom Benites é lógico que a parte mais frágil são as mulheres…”). Faz sugestões de como seria a vida dos filhos da professora assassinada, mesmo acompanhando-os apenas por redes sociais. Por fim, por ser uma história fechada, parece que o narrador tem sua vida presa a este acontecimento; com a possibilidade de descansar somente após a resolução. Resta esperança?

Indagações importantes…
E onde está Ferlin?
O que aconteceu com Krug?
E quanto aos filhos da professora Verônica?
E a professora Verônica pôde descansar em paz?

Enfim, acompanhe a leitura e confirme se estas perguntas são respondidas ou se nos fazem intrigar e passar a buscá-las; assim como acontece com o narrador mesmo nos dias de hoje…


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