Com efeitos especiais sensacionais, “Terra à deriva” encanta pelo visual e decepciona pelo roteiro.

Filme do diretor Frant Gwo custou U$ 50 mi e faturou R$ 700,8 mi de bilheteria.  Grande blockbuster chinês distribuído pela Netflix no Brasil, esta obra de ficção científica espacial abarca todos os clichês que um filme de destruição global precisa. Tudo isso sem ter a vergonha de não ser “pé no chão”. Trata-se de um deleite visual para quem ama o gênero sci-fi. O longa estrangeiro tem se destacado na plataforma de streaming pelos efeitos visuais primorosos.

Copiando fórmulas já existentes de filmes espaciais com tragédia, “Terra à deriva” possui ótimos efeitos de som, excelente ambientação, figurino e trama contagiante.  É tensão do começo ao fim!

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Sinopse

Enquanto os humanos procuram uma nova estrela, uma colisão iminente com Júpiter ameaça a Terra. Agora, o destino do planeta depende de um improvável grupo de heróis.

 

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Ficha Técnica

Título Original: The Wandering Earth (Terra à deriva)

Duração: 129 minutos

Ano produção: 2019

Estreia: 29 de abril de 2019

Distribuidora: Netflix

Dirigido por: Frant Gwo

Orçamento: U$ 50 milhões

Classificação: 12 anos

Gênero: Ficção Científica, Fantasia

Países de Origem: China

 

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Atenção: esta resenha NÃO possui spoilers.

 

Referências

A propósito de sua ambição em termos cinematográficos, a primeira referência que vem à cabeça de filme hollywodiano é “Interstellar”: pelo tamanho da produção, elenco, efeitos visuais e roteiro, “Terra à deriva” seria o primo asiático dessa obra de Nolan.  Para quem assiste a esse tipo de filme, todos os requisitos são preenchidos: tema catástrofe, personagens com potencial de heroísmo e background dramático, exagero na tecnologia – e como ela também é nossa salvação e destruição ao mesmo tempo – perdas humanas, catarse no último segundo, falas épicas e bregas apelando ao emocional, instinto de sobrevivência x sacrifício de alguns em nome de milhões.

Com um foco na destruição da Terra por nossas próprias escolhas, a humanidade se junta para salvar o futuro de si mesma. Misturando a realidade à ficção, alguns princípios científicos da Física são aplicados aqui na obra chinesa, só que numa escala muito mais maximizada. Ou seja, o filme não tem vergonha de ser exagerado e dar aquela “viajada na maionese”.

Só por não ser uma obra estadunidense, “Terra à deriva” merece uma atenção mais privilegiada.  Não é todo dia que um filme asiático tem tanto gasto de produção. Exceto àqueles já conhecidos que envolvem lutas, épocas medievais ou sobre a história de grandes impérios, acho que não seria nenhum absurdo afirmar que uma obra de ficção científica desse porte seria difícil até de imaginar acontecer fora dos EUA ou Europa.

Outras referências que podem ser citadas: “Armagedon”, “Solaris”, “Os Eleitos – onde o futuro começa”, “Apollo 13 – Do desastre ao triunfo”, “Lunar” e “Wall-e”.

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Pontos positivos: efeitos, ação, som, figurino e fotografia

Como você imagina o fim da Terra? Em outras palavras, como acha que a humanidade desaparecerá? Este é um tópico intrigante que alimenta a imaginação de muitos cineastas, roteiristas, e dos nerds mundo a fora. Como já citado acima, várias obras em Hollywood já tentaram imaginar, de forma mais lúcida ou surrealista, o fim de nossas vidas. O que mais me chamou a atenção em “Terra à deriva” foi justamente essa interpretação da narrativa de que um “acidente natural” de proporções estratosféricas, um dia, será o derradeiro motivo do apocalipse.

Na trama, vivemos em um futuro distópico, onde a fome, greves e desemprego assolam quase todos os países – pobres ou ricos. O Sol começou o seu inevitável processo de envelhecimento e, no processo de se tornar uma Gigante Vermelha, toda a vida na Terra desaparecerá.  Desse modo, todos os países do mundo se unem e consolidam um “governo da Terra Unida” (e você achando que era só a Nasa que mandava gente pro espaço?).

Temos dois núcleos: o familiar, na Terra, mostrando ela dentro de uma China que vive no subterrâneo, no qual as nações desenvolveram-se conjuntamente para construir foguetes (o termo correto seriam propulsores) para levar nosso planeta para o sistema de Alpha Centauri, já que dentro da atual situação, iríamos morrer congelados na superfície. Estabelece-se aqui uma família, no qual avô  e netos vivem na Terra. Praticamente o filme todo eles são os heróis que estão fugindo das destruições, tendo em vista que, a partir de 20 minutos de filme, os propulsores começam a falhar e toda a estrutura humana criada começa a ruir: explosões, terremotos, prédios caindo e por aí vai.

O segundo núcleo, no espaço, está o pai, um astronauta-físico-cientista, que passa 17 anos no espaço atuando em uma espécie de estação espacial internacional dando suporte para o deslocamento da Terra até a órbita de Júpiter.  Todo esse “pano de fundo” serve muito bem ao filme, nós – espectadores – ficamos deslumbrados com as imagens. Nota 10.  Todas as roupas que as pessoas na Terra tem que usar pra suportar as baixas temperaturas, assim como as naves e as roupas dos astronautas fazem bastante sentido.

A partir de então, estabelece-se a trama: família fugindo na Terra e pai dando tudo de si no espaço para conseguir evitar o fim de todos. E, para quem tem gosto de imaginar um futuro distópico cheio de naves, trajes espaciais, destruições e choradeira, o filme é um prato cheio! Tudo isso está lá, de uma forma linear (com sucesso na maioria das vezes), pois, para o roteiro caminhar, é preciso que vidas sejam ceifadas por meio de muitos acidentes e erros estruturais. Todos os computadores, sistemas, veículos etc começam a falhar em um dado momento.  Confesso que achei tudo isso muito divertido.

O design dos veículos e das naves também é de impressionar. Como já destacado antes, este filme deveria servir de espelho pra muitas obras norte-americanas recentes sofríveis. Apesar  de ser no futuro, dá pra imaginar que evoluiremos em tecnologia, mas caminhões, computadores e naves não serão muito diferentes do que vemos hoje.

Os efeitos especiais são extremamente bem feitos. Em poucos momentos consegui imaginar os atores em um fundo verde de chroma key. Tudo é muito real, elucidativo.
O visual é surpreendente, instigante, bem criativo, ora iluminado, ora dark para dar um peso em cenas fúnebres, dantescas e de tirar o fôlego (lembre-se: todo filme de destruição tem que ter uma morte acidental clichê, uma choradeira pra criar empatia entre os personagens e o telespectador, o herói se sacrificando pela sobrevivência da humanidade etc).
A fotografia é muito boa. A iluminação, as faíscas e explosões caem bem pra este tipo de trama.

Tudo muito épico, original e detalhado: como o filme se propõe a ser. Maravilha visual.

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Pontos negativos: roteiro bagunçado, excesso de diálogos e choradeira

O que pode cansar nesse filme é o tempo do longa: 2 horas para a linguagem atual do cinema é bastante tempo. Cansa mesmo! Eu entendo quem reclamasse por isso.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o excesso de diálogos: tudo, para o diretor e roteiristas, precisa ser explicado o tempo todo. Apesar do show de imagens na Terra e no espaço, “Terra à deriva” peca bastante ao explicar tudo: os pontos de vista científicos, o porquê da Terra estar em perigo, a razão que levou as nações a se juntarem, o “sacrifício” do pai que abandonou a família para trabalhar no espaço durante tanto tempo, a relação chorosa entre os irmãos e avô, os personagens secundários narrando toda hora o que pretendem fazer.

Lembra que eu comentei da história linear? Pois bem, o filme une a missão espacial complexa com a luta da família na terra pela sobrevivência. Todavia, essa tal linearidade é corrompida por excessos de falas, frases épicas que o herói precisa dizer em nome da humanidade ou de sua própria família. Outro exemplo é o drama familiar vivido entre os irmãos, avôs e personagens secundários que tentam escapar juntos. É um melodrama quase sem fim.

Se a maioria do filmes peca pela falta de explicação e personagens burros  que não veem as soluções mais óbvias para um problema, “Terra à deriva” vai na direção contrária. A preocupação dos roteiristas em explicar em cada detalhe é notável. Um esforço respeitável se compararmos com ruindades da própria Netflix como “Cloverfield Paradox”. Aqui a trama é bem desenvolvida, mas extremamente cansativa. Acho que a maioria irá se cansar fácil com tantos diálogos expositivos. Ponto para quem tem a boa intenção de querer tornar tudo mais plausível, falha para esses mesmos autores que desejam tornar a história muito densa e floreada.

O diretor Frant Gwo tenta intercalar as cenas de missão espacial e a fuga desesperada dos personagens da Terra para sobreviver. Entretanto, essa correria desvariada às vezes cansa os olhos. É muita falação entre os personagens, principalmente dado o drama familiar estabelecido. Creio que, pelo menos em meia hora, o filme poderia ter sido minimizado em diálogos sem tirar as cenas espetaculares que vemos de raios solares, da órbita da Terra, da nave ou de Júpiter.

Confesso que não sou muito fã de filmes asiáticos, mas se eu comparasse com os que vi japoneses ou chineses, acho que é normal os roteiros serem mais longos e propositalmente mais precisos do que de outros filmes. Não que os americanos do norte sejam diferentes: muitas obras explicam tudo também, como em “Interstellar” ou “Armagedon” há sempre o personagem mais experiente que deve contar o que precisa ser feito, que vai mostrar onde vai dar merda e provavelmente quem será o salvador da pátria no final.
Ao não entender nada do idioma original do filme, a impressão que fica é que, ao ver legendado, uma fala imensa de qualquer personagem vira uma frase em português. Talvez seja parte da gramática, da semântica e do idioma. O mandarim, idioma muito mais complexo e antigo do que o português, tem desses relances linguísticos. Para muitos mero detalhe, já para mim, ficou a impressão de que os personagens falam muito, detalham muito, parecem gritar o tempo todo. Parecem estar, quase sempre, nervosos ao atuar para conseguir passar a mensagem de desespero, do fim das coisas.

Em suma, o filme poderia mostrar mais do que falar que teria o mesmo fim. Deliciar o telespectador com imagens sensacionais sem se deitar sobre diálogos o tempo todo.

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Conclusão

Obra prima de ficção científica. Clássico moderno (sem modéstia, gostei muito).
Apesar de cansativo em seu tempo e roteiro, “Terra à deriva” é um banquete para cinéfilos de ficção, fantasia, tecnologia e melodramas épicos espaciais. Vale a espiada.

 

 

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