RESENHA | Filme: Spotlight – Segredos Revelados

Spotlight

 

Todos os dias chegam várias situações nas redações de jornais para serem transformadas em matérias, porém nem sempre são acontecimentos simples de serem publicados, como é apresentado no filme Spotlight – Segredos Revelados, onde casos reais de abusos sexuais de padres contra crianças, na cidade de Boston são “descobertos”.

FICHA TÉCNICA:

Título Original: Spotlight
Ano de Produção: 2015
Data de lançamento (Brasil): 7 de janeiro de 2016
Direção: Tom McCarthy
Roteiro: Josh Singer e Tom McCarthy
Gêneros: Drama, Policial
Duração: 2h08min
Classificação: 12 anos

SINOPSE

Baseado em uma história real, o drama mostra um grupo de jornalistas em Boston, que reúne milhares de documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças, causados por padres católicos. Durante anos, líderes religiosos ocultaram o caso transferindo os padres de região, ao invés de puni-los pelo caso. Os quatro jornalistas que reuniram as provas eram da coluna Spotlight, que dá nome ao filme, presente no jornal The Boston Globe.

 

A primeira coisa que chama a atenção é um filme como esse ser baseado em fatos reais. O tema é muito delicado e sério, pois além de tratar de abusos sexuais (o que é algo muito grave por si só) envolve padres da igreja católica.

Os atores fizeram um excelente trabalho, estudaram juntos com os jornalistas verdadeiros, que viveram todas as situações na pele. Dos personagens chamou mais atenção quatro jornalistas. Michael, interpretado por Mark Rufalo (logo a frente falarei um pouco mais sobre a atuação dele), o personagem vive a notícia, ele diz ter uma esposa, porém ele sempre viaja pelo jornal e está imerso no serviço, não tendo uma vida social ativa.

Sasha, interpretada por Rachel McAdams, a famosa menina malvada, nos sensibiliza a cada cena. Ela realizou as entrevistas com as vítimas e demonstrou uma extrema delicadeza em tratar o assunto. Como Michael teve convergências com a vida pessoal e profissional, todos os jornalistas que estavam na investigação tiveram ou tinham ligação com o catolicismo e no caso de Sasha mesmo ela não acreditando mais na religião ela ainda frequentava as missas em consideração a sua avó e parou de acompanha-la com o andar das investigações.

O terceiro personagem que chama a atenção é Walter Robinson, interpretado por Michael Keaton. Ele foi uma peça importante para demonstrar para o espectador como é a escolha de uma notícia, pois anos antes de a Spotlight publicar a matéria dos vários casos de abuso, ele havia recebido todas as informações, e nem ele entende como deixou passar tudo aquilo.

A peça mais importante de tudo isso foi o novo chefe Marty Bero, interpretado por Liev Schreiber, pois ele que deu um novo olhar para um caso de abuso, que os jornalistas achavam ser um caso isolado, e solicitando a Spotlight uma investigação mais profunda.

Infelizmente, a atuação de Mark Rufalo não é ruim, o ator é bom (o eterno Hulk), mas as expressões faciais que ele faz em algumas cenas, não me convence. Diferente de Rachel McAdams, que consegue nos convencer a cada momento de como está sendo doloroso para ela as descobertas, por conta das suas raízes no catolicismo.

Vários pontos muito importantes podem ser desmembrados nesse filme, como a falta de punição da igreja perante abusos dos padres com as crianças, pois além de não levar isso para a justiça, fazendo julgamentos entre “quatro paredes” (o que é inadmissível), a igreja apenas transferia os padres e o escondia ao invés de puni-los.

 

A omissão da sociedade. Quando a vítima “processava” o padre (ele não era processado na justiça) a família e os advogados tinham que assinar um termo de sigilo que os impediam de falar sobre o abuso, porém alguns casos a sociedade ao redor estava ciente do ocorrido, como os paroquianos, os familiares, amigos da família sabiam dos casos e ficavam quietos, como se fosse uma obediência a igreja, um dos personagens que representam uma das vítimas diz que o padre representava para ele Deus na terra e como ele não iria obedecer a Deus.

O assunto é muito delicado, agora imagine você entrevistando uma vítima sobre o abuso que ela sofreu, chega a ser doloroso para ambas as partes, por isso a relação do jornalista com a fonte tem que haver muita confiança, pois a fonte terá que em muitas vezes detalhar o ocorrido e reviver em sua mente a situação que passou.

Lado esquerdo da imagem personagens do filme “Spotlight – Segredos Revelados” e do lado direito um dos padres acusado de assédio sexual. (na vida real).

Outro relacionamento mostrado foi entre os próprios jornalistas. Não dos jornalistas de outros jornais, mas dos próprio The Boston Globe. Lembrando que a Spotlight era uma coluna do jornal The Boston Globe, porém como as investigações do Spotlight eram sigilosas nem os outros jornalistas podiam ficar sabendo e isso começou a influenciar na relação entre os colegas do jornal. Tanto que até a sala onde eles ficam era separado do resto da redação.

As brigas judicias contra a igreja foram um ponta critico, pois do mesmo jeito que o jornal poderia ganhar (como aconteceu), a igreja poderia ganhar e colocar a população contra o jornal. O que garantia que eles não fariam isso, eles foram capazes de omitir abusos sexuais, colocar a população contra o The Boston Globe não seria nada.

O filme mostrou também como o jornalismo investigativo é muito importante para a sociedade, mas também é muito difícil e por muitas vezes demorado, pois precisa de uma aprofunda investigação do ocorrido. Não que outras áreas não seja, todas são, porém foi a apresentada no filme.

 

“Spotlight – Segredos Revelados” ganhou o Oscar de melhor filme, em 2016.

Após publicarem a matéria surgiram milhares de casos, chegando a mais de 249 cidades que foram registrados casos de abusos de padres contra crianças. O faz lembrar o caso de João de Deus, mesmo com poucas denúncias ele continuou seguindo a vida normalmente, apenas no ano passado (2018) que as mulheres se sentiram protegidas para poder denunciar. Da mesma forma, as milhares de vítimas só se sentiram “protegidas” para relatar os abusos quando viram que o jornal poderia ajuda-las.

Hoje em dia para entrevistar alguém, você pode pensar em usar um gravador de vídeo ou um gravador de áudio, isso tudo cabe dentro de um celular, entretanto no filme eles estão escrevendo com pressa nos blocos de nota e chega a ser algo engraçado essa diferença tecnológica.

O filme soube tratar o assunto de uma forma séria, porém sem ficar emotivo. Você consegue se sensibilizar, mas não te faz chorar, pois é para mostrar o acontecido sem fantasiar, tanto que os jornalistas da vida real disseram algumas vezes que era como se estivesse se olhando no espelho, revivendo a situação.

Trailer Legendado:

//www.youtube.com/watch?v=zgicIR5Skwc

~Camila Couto