Sem destino ou Easy Rider é uma história de liberdade, uma história de falta de compromisso. Vendo por cima talvez seja somente um filme legal com algumas belas montagens para motoqueiros, mas lendo nas entrelinhas é uma baita de uma critica social que servia tanto para os anos 60 quanto para hoje.

Nome Original: Easy Rider

Direção: Dennis Hopper

Roteirista: Peter Fonda, Dennis Hopper e Terry Southern

Cinematografia: Lázlo Kovács

Edição: Donn Cambern

Sinopse: Wyatt e Billy são motoqueiros que viajam pelo sul dos Estados Unidos. Após levarem drogas do México até Los Angeles, eles as negociam com um homem em um Rolls-Royce. Com o dinheiro da venda armazenado em mangueiras dentro dos tanques de gasolina, eles vão rumo ao Leste na tentativa de chegar em Nova Orleans, em tempo para o Mardi Gras, um dos Carnavais mais famosos do mundo.

O filme é antes de tudo um road movie de motoqueiros e hippies. Uma história sobre uma dupla de amigos que conseguiram um bom dinheiro a partir de uma venda de drogas para sobreviver e fazer o que quiserem por um tempo sem precisar trabalhar ou se manter em algo. Se trata dos motoqueiros viajando desde o México até New Orleans e vamos acompanhando junto com eles. Uma espécie de plot que lembra muito alguns filmes de velho oeste, filmes como The Way West que acompanhamos uma caravana indo de uma pequena cidade para Oregon e em seu caminho várias coisas vão dando errado em vários sentidos, aqui as coisas não dão necessariamente erradas como nesses filmes, mas em um sentido de significado, que é a maior critica social do filme, com certeza.

Durante a longa viagem para New Orleans, os nossos personagens fazem várias paradas, e se deparam com os mais diferentes tipos de pessoas, eles encontram famílias bem postadas em fazendas, hippies com rituais e falta de compromissos, advogados malucos, preconceituosos e assassinos. Tipos diferentes de vidas que nos dão perspectivas diferentes sobre ela, desde dificuldades com famílias famintas ou um senso de “que se dane” como é o advogado encontrado na prisão, que pode fazer praticamente o que quiser que conseguiria contornar a lei, ou até a família tranquila na fazenda, te faz questionar o que é liberdade, se é poder fazer o que quiser com dificuldades na vida, ou ter condições de se cuidar em algo mais simples e contido, um grande debate sobre o que é ser livre nas entrelinhas. Logo no início do filme quando a venda de drogas é bem sucedida temos um simbolismo de quando Wyatt atira fora o seu relógio, simbolizando a falta de compromisso e o seu livramento para a vida.

“Eles não têm medo de vocês, têm medo do que representam.”

Os protagonistas se chamam Wyatt e Billy, nomes escolhidos a dedo. O personagem de Peter Fonda se chama Wyatt, claramente baseado no famoso xerife Wyatt Earp, que também foi referenciado em vários filmes e interpretado por vários atores, como no filme Tombstone por exemplo, Wyatt em seu tempo era um oficial correto que fazia o que era necessário, assim como o personagem de Easy Rider, tentava conter o seu colega e sempre pensa nas pessoas ao redor com um ar de questionamento, de raciocínio, o personagem também é apelidado de Capitão Americana, é realmente um símbolo para a época representando o ideal. O outro personagem se chama Billy, baseado nem Billy the Kid, um bandido dos tempos de velho oeste, o personagem não é tanto quanto a pessoa real, mas representa o seu estilo de não se importar tanto, de querer ir logo com as coisas sem pensar muito adiante, sempre buscando se divertir do seu jeito e além de ser um leal parceiro.

O longa apresenta uma reflexão sobre liberdade, que não somente está apresentada em forma visual, com a liberdade de ir e vir o tempo todo, em um ambiente aberto indo para vários locais sem se importar com o que está atrás, porém em forma de diálogos bem profundos. Discute como a liberdade de uma pessoa pode deixar o próximo, que não tem tal liberdade, desconfortável, nervoso, questionando e ofendendo, por mais puro medo e talvez inveja. Diálogos que te fazem pensar sobre como somos o tempo todo obrigados a fazer algo que muitas vezes não gostamos para poder seguir com nossas vidas, enquanto eles estão simplesmente livres e seguindo sem rumo. A busca de aceitação também é algo presente aqui, em vários momentos do filme os personagens são zombados pela maneira como vivem suas vidas, vendo como o mundo ficou hoje, como o próprio Wyatt diz durante uma cena: “We blew it”, que quer dizer, na minha interpretação, que estragamos tudo, estragamos nossa liberdade, destruímos nosso modo sincero de viver a vida, também de que todos os nossos grandes planos e ideais estão indo esgoto a baixo por futilezas. A frase “We blew it” é muito famosa e discutida ainda hoje em dia, em entrevistas recente o próprio Fonda se recusa a dizer o que exatamente quis dizer, mas não se conteve em dizer: “Olhe pela janela e me diga se não estragamos tudo”.

O roteiro possui diálogos bem interessantes e com diferentes camadas, como quando um hippie diz que todas as cidades são iguais e por isso não importa de qual ele veio, um pensamento anti cidades, anti urbanização. Momentos com Jack Nicholson sobre liberdade, por mais alterada a atuação dele seja, ele passa a mensagem perfeitamente.

O filme não só possui músicas espetaculares porém como fez com que algumas delas se tornassem mega famosas até hoje, como a espetacular Born To Be Wild de Steppenwolf logo na apresentação do filme, com uma montagem fantástica de paisagens e viagens, você pode sentir o momento, inicio perfeito, e com a música, quem não quer dar rolê de moto ouvindo ela, não é mesmo ? Além das várias outras músicas espetaculares tocadas no filme, as montagens que vêm junto com elas são ótimas, eu poderia assistir facilmente um filme inteiro só disso, da uma sensação maravilhosa e mega real, viajar vira uma arte aqui. Mais para o final do filme temos uma outra cena com uma montagem diferenciada, que é no momento que os personagens usam LSD, ali o filme fica maluco, dura um tempo considerável e eu acredito que simbolize a loucura do mundo de hoje, a falta de compreensão.

Em alguns aspectos o filme não envelheceu tão bem, em alguns momentos a montagem fica pesada, sequencias podem ficar secas em alguns momentos ou durar mais do que deveriam, além de ser um filme de muito baixo orçamento mesmo para a época, mas dependendo do ponto de vista isso pode não ser um grande problema, as várias sequencias de viagens podem ou não incomodar pelas repetições.

Easy Rider é um filme maravilhoso, entrega uma história simples porém boa, personagens memoráveis, sequencias de viagem mais do que memoráveis, possui alguns momentos que não envelheceram bem, mas além de tudo é um comentário nas entrelinhas do que nossa sociedade perdeu e continua perdendo, com certeza um MUST WATCH.