Porto dos Mortos

RESENHA | Filme: Porto dos Mortos

A premiada obra do diretor e roteirista, Davi de Oliveira Pinheiro, o filme “Porto dos Mortos”  foi um dos títulos  liberado recentemente pela produtora porto-alegrense, Ausgang, para acesso livre no Youtube. Com uma narrativa poética e cativante, o filme traz uma perspectiva rústica e visual indie com elementos de produções dos anos 80, levam o público a uma estranha e intrigante viagem no tempo, enquanto explora as profundezas da natureza do homem fora da sociedade, em um cenário distópico e caótico de um futuro sombrio.

– Ficha Técnica
Origem: Brasil
Gênero: Suspense
Direção: Davi de Oliveira Pinheiro
Duração: 1h 30min
Exibição: 2010

Sinopse: Em um futuro distópico pós apocalíptico, onde as regras da realidade são ditadas por magia e loucura, um policial vingativo (Rafael Tombini) persegue um assassino em série possuído por um demônio numa batalha contra o mal absoluto. 

UM OLHAR ÚNICO SOBRE O GÊNERO

Com um pensamento conceitual de um filme com temática western “Porto dos Mortos” traz consigo elementos típicos de um road movie. Como, por exemplo, a afeição do personagem por seu carro, e os cenários que mudam constantemente, divididos pelos cortes de cena da estrada. Além disso, a adição de zumbis a história é algo tratado diferente de obras similares, com um twist que foca menos neles como o inimigo principal, e mais como fantasmas do que restou da humanidade.

Uma característica intrigante sobre as criaturas que cercam as cenas, é como o Policial se porta em relação a eles. A medida que o personagem ainda mantém resguardo pela vida e memoria dos zumbis, matando-as apenas quando necessário. Até mesmo ficando enfurecido com o assassinato desnecessário dos mortos pelo desprezo dos vivos. Tal índole e moral do Policial, é o que torna seu personagem tão complexo e curioso ao olhar do público.

Apesar de serem um dos motivos de maior preocupação e isolação dos personagens, não chegam a ser a maior ameaça da trama. O antagonismo do filme por conta do ser demoníaco, nomeado apenas como Passageiro, que junto de seus 3 cavaleiros, assombram o que resta dos seres vivos, espalhando caos, morte e destruição por onde passam. Sua maior habilidade parece ser a de apenas uma sombra, que viaja de corpo em corpo a medida que suas cascas são destruídas pelo Policial. Um plano que a princípio parece o manter eternamente na terra, mas tem uma fraqueza mortal, como mostrado no fim catártico da história. 

UM APOCALIPSE BRASILEIRO

Seja na linguagem, como no modo poético das argumentações, nos figurinos veraneios ou na bravura sem medo dos personagens, o filme “Porto dos Mortos” nos mostra uma face “jeitinho brasileiro” para lidar com o apocalipse. Além disso, a produção do diretor Davi de Oliveira Pinheiro tem um estilo da narrativa complexa, que pode se fazer perder um pouco na linha de raciocínio do público. Entretanto, a mesma se faz encontrar, conforme a história progressa.  Assim dando deixa a um final que consegue unir todas as peças do quebra-cabeças. 

CONCEITO DE IMAGEM ORIGINAL E ATRAENTE

Apesar disso tudo, vale a pena destacar o incrível trabalho de direção de fotografia de Melissandro Bittencourt, e arte, de Carmem Fernandes. O sequencia de cenas seguem com perspectivas diversas que colocam  audiência nas sombras, ou até mesmo, na visão dos vilões. Enquanto isso, a cenografia interiorana e rustica do filme consegue refletir lindas paisagens naturais sobre construções rúnicas decadentes. Mostrando assim uma ideia de como a Natureza, floresceu sobre o caos.  Retomando o mundo que uma vez foi dela, e dando uma certa moldura de esperança e mantendo uma certa leveza as cenas. Grande parte da direção visual e sonora também faz lembrar o estilo de filmes “b” de suspense e ação da década 80, com um certo ode ao trabalho de Quentin Tarantino, que fica nítido nas cenas de luta e cortes de cena.

 

 

O FIM COMPENSA A JORNADA?

O filme traz uma narrativa e direção interessante para o gênero, já que vai além de apenas um “filme de zumbis”, deixando o inimigo principal de forma mais oculta e misteriosa até o climax do filme. Isso torna a história uma compilação de reviravoltas, incluindo até mesmo uma morte-não-mortal do personagem. Entretanto, a produção geral mostra um certo numero de desventuras e desconexões, como os efeitos especiais e um certo lapso na atuação, que acaba por deixar a desejar mais. Porém, deve se considerar que o filme não teve um alto orçamento e para um filme independente deu um grande passo para o gênero, mostrando mais complexidade e profundidade nos personagens. Além disso, os lindos cenários e direção artística por si só já valem como um chamariz para pelo menos admirar o incrível trabalho de direção de arte.

Em conclusão, “Porto dos Mortos” é sim uma boa dica, talvez não tanto de entretenimento, mas para quem busca um filme cult nacional. Com um estudo perspicaz da psique humana em um estado de anarquia, mostrando diferentes personalidades agiriam na ocasião. Pense na obra como “The Walking Dead” ao encontrar as cenas finais “Motoqueiro Fantasma”. Certamente colocando em perspectiva uma face diferente, mais camp e reflexiva sobre o “mal” do ser humano.

Gian Leonel Sena
Estudante de Publicidade e Propaganda da PUC-RS Diretor de Arte, Designer e Criador de Conteúdo de Moda, Design  e Entretenimento Viciado em séries e filmes, e nunca recuso uma ótima partida de League of Legends.