Gostaria de começar falando sobre a má tradução no nome do filme, claro que possui um grande truque, o filme todo pode ser considerado um grande truque, o que é genial, mas a história gira por causa do prestígio, da reputação que é perfeitamente passado pelo nome original do filme. Ao se compreender todo o envolto do filme, chamá-lo de “Grande truque” pode ser compreensível, mas considerando o quão complexo seria entender esse envolto todo, o nome no Brasil é um extremamente genérico.

  • Sinopse: No século 19, em Londres, dois amigos ilusionistas e mágicos, Alfred Borden e Rupert Angier, acabam construindo uma rivalidade, uma batalha por supremacia, que se estende ao longo dos anos e que se transforma em obsessão, cujos resultados serão inevitavelmente trágicos.

Nome Original: The Prestige;

Direção: Christopher Nolan;

Roteiristas: Jonathan Nolan e Christopher Nolan;

Música: David Julyvan;

Cinematografia: Wally Pfister;

Edição: Lee Smith.

 

A narrativa do filme é no melhor estilo Nolan, muito explicativo e cuidadoso, Nolan conta a história em um modo de flashing back e foward em vários momentos, e é feito de maneiro muito bem editada, não digo que foi a melhor edição possível, possui muitos momentos de narração que são bem longos, mas de maneira geral foi ideal, a narração presente no filme todo está encaixada em várias cenas que se conectam de maneira apurada, não é simplesmente o básico de alguém estar narrando o que o outro está fazendo como nós vemos em vários outros longas por aí, aqui a narração parece que faz parte, que é um conjunto perfeito para o contamento da história. Nolan joga várias cenas e diálogos durante o filme que de primeira não parecem fazer sentido, mas de acordo com que a carruagem anda as peças vão se encaixando aos poucos, algumas ficam bem na cara e outras exigem algum pensamento mais elaborado, mas quando todas as peças se conectam em sua cabeça, eu prometo, é algo mais do que memorável. Possui sim alguns momentos que é necessário ter alguma suspensão de descrença, situações um tanto quanto exageradas, mas fazem parte do espetáculo.

A história é contada a partir do ponto de vista de dois personagens, dois mágicos, Angier e Alfred que estão sempre competindo entre si, da forma menos saudável possível, a forma coma a disputa entre os dois é retratada e coordenada por outros participantes é muito boa, principalmente pelo evento trágico que ocorre envolvendo os dois, sempre passando por uma dúvida, por um questionamento, uma obsessão que não tem fim. A inteligência do filme está em não nos contar que personagem x ou y é de tal jeito, ele nos mostra, não há a necessidade de dizer isso ou aquilo em um diálogo, mas sim mostrar de maneira clara já é suficiente e bem mais satisfatório. Cada personagem tem uma função forte no filme, ninguém está aí por acaso, mesmo que seja para ajudar a reforçar alguma metáfora, ou para fazer uma manobra na narrativa, tudo é essencial e muito bem pensado. Com plot twists muito inteligentes, de maneira que você acha que pegou, mas na verdade não, e o filme faz isso tudo colocando bem na cara, e nos engana como um truque de mágica, genial.

A maneira como é retratada o back stage de mágicos também é muito boa, a sujeira, a habilidade e ingenuidade com o público e com a maior necessidade de prestígio acima de tudo, dando uma grande ideia da gana necessária para alcançar o seu objetivo e se sobressair, não importando o quê.

Um dos fatores que faz com que esse filme seja genial é a metalinguagem utilizada, o roteiro utiliza de metáforas o tempo todo e quando você entende o quão brilhante de fato é, é de ficar pasmo. Quando um filme utiliza figuras de linguagem durante seu curso e quando você a entende o filme todo é repassado em sua cabeça e pegando vários detalhes já é algo diferenciado e de, normalmente, alto nível. Quando o filme esta metaforizando a si mesmo e sua mídia, a arte, como também é feito no filme animais noturnos por exemplo, é algo realmente de se aplaudir. Veja o diálogo a seguir, dito por Angier em determinado momento do filme:

“You never understood why we did this. The audience knows the truth. The world is simple, it’s miserable, solid all the way through. BUT if you could fool them, even for a second then you could make them wonder, and then you got to see something special.”

Em um filme sobre mágica, sobre truques de mágica, Nolan consegue simplesmente falar sobre a mágica que são filmes de maneira paralela e genial. A audiência de um show de mágica sabe que são truques e falsos, assim como nós, ao assistirmos um filme, nós sabemos que nada daquilo está de fato acontecendo, mas quando o filme nos engana, ele nos faz imaginar, sonhar, criar, e aí está o especial escrito com tanto cuidado na narrativa. Analisando o longa, é possível perceber que antes de acontecer seus grandes twists, ele mesmo já nos disse antes de acontecer, e sempre o filme está nos perguntando “Are you watching closely?”, pois assim como em um truque de mágica, se prestarmos atenção mataremos a charada antes de acontecer. O filme consegue ser um truque de mágica, seguindo todas as regras e fazendo um belíssimo paralelo entre a mágica e o cinema.

Um grande fator nesse filme é o diálogo e a química entre os personagens, considerando de que gira entorno de disputa, manipulações e afins, atuações de qualidade é essencial para que isso se manifeste corretamente, e o elenco é do nível necessário. Hugh Jackman tem várias nuances, ele expressa diferentes sentimentos durante o filme com perfeição, mas o mais importante é que você nota nele a angustia, a necessidade de ser melhor, a competitividade, você sente nele o querer, além do ódio, assim como Christian Bale que também se sente com perfeição todo esse lance da competitividade, mas ele possui uma voz diferente para cada pessoa, várias variações, uma performance mais do que brilhante. David Bowie presente no filme, interpreta o inventor Nikola Tesla, e ele o faz muito bem, com alguns maneirismos bem sutis e maneira de falar bem confiante, mas com um ar de dúvida. Scarlett Johansson faz uma personagem muito dúbia, assim como outras coisas no filme, você não tem certeza se ela está do lado de um ou do outro, as relações afetivas dela são muito bem entendíveis, porém acredito que poderia ter tido mais profundidade aqui. Andy Serkis possui uma participação muito legal aqui, no seu melhor estilo empolgado e divertido. Michael Caine, como de costume, manda muito bem, calmamente com a voz, sempre com um ar de que sabe algo a mais, mas escondendo perfeitamente, na voz e em detalhes, um ótimo trabalho.

A história é ambientada no século 19 e a caracterização do ambiente foi no ponto para nos transportar para lá, há poucos planos abertos, nenhuma grande vista dos locais, mas o detalhamento em partes interiores foi perfeita, você sente aquela Londres depressiva e nublada, a misè-en-scene é ótima, você realmente se sente ambientado naquele momento da história em grande parte da jornada, as ruas, as pessoas, tudo escolhido com muito cuidado.

A fotografia do filme possui momentos lindos, aquela fotografia que não está lá somente para ser bonita e fazer composições inteligentes, mas que realmente diz algo, desde posições de câmera até posicionamento de cenários. A edição também é muito boa, porém em um ou outro momento o filme fica um tanto quanto travado, mas nada que dure.

A trilha sonora é algo que vai do fino ao grosso, sempre nos colocando dentro de shows de mágica, acompanhando perfeitamente os três passos, se erguendo e nos colocando na ponta da poltrona. Não só a trilha sonora em vários momentos é muito bem colocada, mas como a falta dela em outros é usado de maneira bem sábia.

O filme é genial, possui um enredo muito bem elaborado e pensado com cuidado, cheio de simbolismos e características que contribuem muito com o fator de assistir novamente, várias surpresas durante seu curso e atuações de altíssimo nível com uma direção primorosa. Possui alguns momentos que parece meio travado, mas de maneira geral o saldo é muito positivo, além de possuir metáforas que vão muito além da obra.

Trailer:

//www.youtube.com/watch?v=B_qYaaya6Cc