Em O Buscador, o diretor Bernardo Barreto conseguiu mostrar a realidade do Brasil com muita ironia, além de mostrar dois estilos de vida totalmente diferentes “batendo de frente”.

o buscador
Ficha Técnica
Título: O Buscador 
Ano de Produção: 2019
Dirigido Por: Bernardo Barreto
Estreia: 29 de julho de 2021
Duração: 1h e 47 min
Classificação: Recomendado para maiores de 14 anos
Gênero: Drama
País de Origem: Brasil
Sinopse: Filha de um poderoso e influente político, Isabela cresceu cercada de luxo e proteção. Todavia, uma vez apaixonada pelo líder de uma comunidade alternativa que prega o amor livre, ela abdica de sua vida de conforto. Adiante, em meio às tentativas de se reconectar com a família, Isabela descobre o envolvimento do pai num escândalo de corrupção.

 

O filme apresenta Isabella (Mariana Molina), a filha de um político poderoso e corrupto, ela cresceu rodeada de luxo e privilégios, porém se apaixona por Giovanni (Pierre Santos), um líder de uma comunidade sustentável que prega o amor livre, e decide abandonar todo o conforto da sua mansão para construir uma vida diferente com o amado. Após quatro anos longe de casa, ela tenta uma reaproximação com a família no dia dos pais, mas ao chegar ela descobre que seu pai está envolvido em um dos maiores escândalos de corrupção do Brasil. Além de ficar muito abalada com a situação, ela ainda precisa enfrentar um grande fantasma de seu passado: seu ex-noivo, Max (Erom Cordeiro).

Ao longo do filme foi utilizado a filmagem no formato plano sequência, técnica que deu o que falar nesses últimos dois anos com o filme 1917, indicado em 10 categorias do Oscar de 2019. Essa ferramenta aliada com a técnica de gravação “handcam” deixou o espectador incomodado e apreensivo em todas as cenas, conseguindo nos manter ainda mais presos na tela. A fotografia de Ulrich Burtin e Luca Pougy aproxima tanto o público que nos deixa muito irritados com todos em cena ao mesmo tanto que pode chocar com algumas ações dos personagens.

Outro ponto muito interessante é a montagem de Pedro Durán e Cláudia Silvestre, que consegue manter o ritmo do plano sequência com eficácia e fazendo mágica com o conteúdo que foi todo gravado em apenas 2 dias. Entretanto, podemos perceber que mesmo utilizando essas ótimas ferramentas de linguagem essa não é a melhor parte do filme. O ponto alto do longa é a ironia!

O Buscador 02

O longa mostra a corrupção descarada dos políticos e ao mesmo tempo a famosa  família de “ótima moral”, e são nessas aspas que entra a ironia. Um homem que tirou muito dinheiro dos cofres públicos para colocar em sua conta no Uruguai tem como música favorita o Hino Nacional. O pai de Isabella, Afonso (Mário Hermeto), deixa claro que ama seus filhos, mas na hora que precisa de um laranja para seus crimes não demora a colocar a culpa no próprio filho. A mãe de Isabella, Débora Duboc (Rita), enche a boca para falar que os empregados são da família, após humilhá-los de várias formas. O que é utilizado de sarcasmo pela própria protagonista que brinca dizendo que “se vocês são da família, seus nomes deveriam estar no testamento.” Essa situação nos lembra muito algumas cenas do filme Que Horas Ela Volta da diretora e roteirista Anna Muylaert, que levanta esse pensamento entre Val e sua filha.

Além do abismo social apresentado, a história também mostra a diferença de ideais entre Giovanni e a família de Isabella, que liga o amor livre a prostituição sem nem ao menos tentar entender de verdade. Com isso, entendemos porque Isabella insiste tanto para Giovanni não revelar alguns detalhes das suas vidas para seus familiares, mas é possível questionarmos em vários momentos à ingenuidade da Isabela e do Giovanni que poderiam ter previsto várias situações e conversas que eles não queriam ter.

Outros grandes nomes que passaram pelas cenas foram Dja Marthins (Iracema), Monique Alfradique (Sabrina), Bruno Ferrari (Thiago), Aline Fanju (Adriana) e Luiz Felipe Mello (Otávio). Cada um deu vida a um personagem, conseguindo nos trazer o sentimento que era necessário em cada momento da trama. Com destaque a Dja Marthins que interpretou a empregada Iracema que conseguiu representar o verdadeiro porto seguro da Isabella quando ela precisava fugir da família que já tinha sido corroída pela ambição exagerada. E, também, para Monique Alfradique que interpreta Sabrina, a Digital Influencer que só pensa em números, como sempre a atriz está incrível, mas seria interessante variar um pouco e ver a atriz fazendo um papel que não seja de uma jovem mimada ou dramaticamente exagerada como já foi em vários papéis, como Beatriz em Fina Estampa e Priscila Bittencourt em Malhação.

https://youtu.be/IPuGP7sk300

O final incomoda ainda mais, pois todos os erros cometidos por um político corrupto pode ser perdoado com um simples abraço, sendo que ele pode ter destruído a vida de inúmeras famílias. Poderíamos entender como uma ironia, mas isso perdura nas cenas seguintes, depois de tudo o que fez, Afonso pode ligar tranquilamente para o neto e pagar de bom avô como se nada tivesse acontecido.

A trilha sonora não poderia trair o nome do longa e tem como canção principal “Coração de um Buscador” de Pramit Almeida, costurando todas as cenas com uma letra simples, inteligente e alto astral que fecha com chave de ouro a última cena.

O Buscador conquistou alguns prêmios, o primeiro para Bernardo Barreto no prêmio Especial do Júri do Tallinn Black Nights Film Festival 2019 (Festival de Cinema PÖFF 2019) que dirigiu, roteirizou e coproduziu o longa. Recebeu o prêmio de melhor diretor artístico no Festival de Cinema Independente de Montreal. E por último ganhou o prêmio de melhor ator e atriz coadjuvante com Erom Cordeiro e Débora Duboc no Festival CinePE.

O final é excelente e é uma obra que precisa ser vista nesse momento em que o Brasil está. Por isso, não deixe de assistir dia 29 de julho nos cinemas ou a partir do dia 5 de agosto nas plataformas digitais.