Bem como em “Bastardos Inglórios”, Tarantino usou uma história de fundo muito trágica, que realmente aconteceu, e entregou uma versão que, na cabeça dele, teria um desfecho melhor. Aqui, ele não deixa a desejar em nada: diálogos, violência, sequências tensas… O jeito único e diferenciado deste longa-metragem, faz com que tenhamos mais um baita filme de Quentin Tarantino.

Nome Original: Once Upon a Time in… Hollywood
Direção: Quentin Tarantino
Roteirista: Quentin Tarantino
Cinematografia: Robert Richardson
Edição: Fred Raskin

  • Sinopse: No final da década de 1960, Hollywood começa a se transformar e o astro de TV Rick Dalton e seu dublê Cliff Booth tentam acompanhar as mudanças.

A história é contada de maneira linear. Não é como em Pulp Fiction, por exemplo, onde se trabalha com várias ordens cronológicas diferentes e em algum momento tudo faz sentido. – Até tem isso porém em uma escala bem menor.  – Você tem a linha A, com Rick Dalton e Cliff Booth. Como, eventualmente, se separam, criam suas próprias linhas, que são as principais do filme. E a linha B, com Sharon Tate, que tem uma história separada que não se entrelaça com as outras de uma maneira exclusivamente sólida – o que não é um problema em si, só um detalhe, mesmo!

O personagem de Leonardo DiCaprio é um ator que já não está nos holofotes como costumava estar. Ele se questiona sobre isso e sua idade o tempo todo, e estes episódios podem ser vistos como uma metalinguagem para a vida de qualquer pessoa em determinada área, inclusive dos próprios atores, do diretor, etc. O filme busca isso a fundo e dá uma bela lição com uma garotinha, de forma cômica. – Por falar em cômico, o filme é também uma baita de uma comédia!São vários momentos muito engraçados, piadas físicas, psicológicas, de conversa.

Já sobre a personagem Sharon Tate, seria interessante pesquisar a história real da pessoa e da chamada família Manson para dar ‘um grau a mais’, até porque isso não é tão explícito no filme. Tarantino leva o filme bem devagar! O 2º ato é bem lento – alguns momentos poderiam ter sido um pouco mais rápidos – mas, de maneira geral, é ótimo. Estes pequenos pontos, que podem ter se esticado, são presentes em um ou outro momento, o que não atrapalha a experiencia, necessariamente.

Um fato que merece destaque, aqui, é sobre sua produção.Fantástica por vários motivos! – Vamos começar com a ambientação dos anos 60 em Hollywood. Uma grande parte do filme é para você se ambientar e se sentir naquele local. Para isso, era essencial que o filme entregasse o clima e a aparência para que isso acontecesse – e ele o faz muito bem! Você não só se sente lá dentro pelos detalhes colocados em cena, como reconhece Los Angelese, aliás, por conta de jogos como “Grand Theft Auto”, GTA, por exemplo, o filme se passa na mesma região que San Andreas e o V. – Outro aspecto da produção que merece muito reconhecimento é a fabricação de conteúdo para dentro do filme: tem trailers, pôsteres e até filmagens de filmes (que não existem) para dar mais credibilidade ao Rick Dalton. Várias cenas de diferentes filmes foram feitas para essa finalidade: filmes de velho-oeste, da 2ª Guerra Mundial, espionagem e por aí vai, e em vários dele, o DiCaprio estava interpretando da maneira mais caricata possívelo que deixa a coisa bem divertida!

As atuações são impecáveisperfeitas em todos os sentidos -, o cast do filme é, como de costume para Tarantino, recheado de super estrelas de Hollywood, vários rostos famosos com pequenos papéis, porém bem representados no filme. Algumas curtas participações contam com Dakota Fanning, Luke Perry, Al Pacino, Damian Lewis e Kurt Russel.  – Os 3 principais dão mais do que um show de atuação! Vamos lá…

Como já foi dito, o Leonardo DiCaprio interpreta Rick Dalton, um ator que passou do seu auge e tem certos problemas na carreira: a atuação dele não é nada sútil, a voz leve, em certos momentos gago, aparentemente uma pessoa insegura e sensível, – e isso é passado em cada fala, cada maneirismo – porém, em momentos de raiva ele entrega… – e como entregaA dicção e atuação do DiCaprio é fenomenal. Para quem quiser ter uma ideia, clica em ‘show’ aqui embaixo para ler um spoiler leve sobre uma das cenas mais impecáveis do DiCaprio.

[spoiler]O filme possui uma sequência em que o personagem de Dicaprio está gravando algumas cenas de uma série de velho-oeste. A sequência toda é muito legal, mas o que chama atenção é a atuação dupla de DiCaprio. Por que dupla? É que ele interpreta o personagem Rick Dalton (ator) e também interpreta o personagem da série (Caleb) e, em alguns momentos, de 1 segundo para outro, ele alterna e muda completamente com a voz, a postura, a expressão entre os dois personagens. É impecável, uma arte que dá gosto de assistir de novo e de novo![/spoiler]

Margot Robbie interpreta a real, e falecida, atriz Sharon Tate. A participação dela é como uma coadjuvante e tem alguns momentos bem memoráveis. De maneira geral, ela faz uma Sharon muito alegre com a vida, sem muitas preocupações e visando sempre em se divertir.

Margot Robbie, como Sharon, vai ao cinema assistir ao filme The Wrecking Crew, filme de 1968, da própria Sharon Tate – e, aqui, eles passam o filme original.Realmente temos a real Sharon Tate na tela do cinema dentro do filme. E a atuação de Margot nessa sequencia é também fantástica! Você consegue perceber que, ao mesmo tempo que ela está descontraída e se divertindo com o seu filme, ela também está preocupada com a reação das outras pessoas perante o filme. As expressões de Margot, sem sequer precisar dizer uma palavra, são ótimas! Ela consegue se expressar muito bem demonstrando o nervosismo, a tensão e a satisfação.

Brad Pitt é badass como sempre! Com um ar de deboche em quase todos os momentos, um clima que beira a soberba em sua personalidade, ele entrega um dos personagens mais divertidos do filme que entra nas situações mais excêntricas. Ele é o dublê de Rick Dalton, e acaba sendo o seu “Faz tudo” e amigo, também. Brad possui algumas cenas de ação – sendo uma delas uma das partes mais insanas do filme – e, em todas elas, ele se impõe e entrega as cenas com uma perfeição fantástica! – O cara é bom demais, sempre mantendo o seu jeito debochado e confiante, além de ser engraçadíssimo em alguns momentos, e em outros sendo o badass que a gente está acostumado.

Sequências de tensão também estão presentes. Situações em que não é necessário que um personagem diga em voz alta o que está acontecendo para você perceber, também, pois o clima já fala por si. – É algo que o diretor também faz com maestria. Não é necessário que ninguém diga nada. Ele te conta nos detalhes! Para ter uma noção do que estou falando, cliquem em ‘show’ para ver um spoiler leve!

[spoiler]Além do roteiro, para que a sua mente possa assimilar e você chegar em uma conclusão sobre o que está acontecendo, tem uma cena em que o personagem de Brad Pitt está em um local que possivelmente é hostil, a princípio está tudo bem e aos poucos as coisas vão estranhando. Nada é dito, tudo fica em segundo plano, e você vai ficando tenso aos poucos, seja pela música, pela composição da cena. Um plano holandês utilizado muito bem![/spoiler]

Enfim, os diálogos vão ficando cada vez mais afiados. Tudo isso contribui para a construção lenta da tensão!

A direção de Tarantino está apurada como sempre. Para exemplificar algumas coisas, vou citar a sequência com Bruce Lee (Mike Moh). – Já sabe, né? Clique em ‘show’ se quiser ler o spoiler:

[spoiler]Ali, temos um discurso de Bruce enquanto Cliff (Brad Pitt) dá uma leve debochada. Então, se inicia uma discussão e uma possível luta. A maior parte dessa sequência é feita sem cortes. A cena muda de ângulo, os movimentos rápidos acontecem e a câmera se movimenta, às vezes lentamente e às vezes mais rapidamente. A calma com que essa cena é feita e as coisas vão acontecendo é de mestre, e além da sequência final do filme, que não entrarei em detalhes, esta é simplesmente uma céna maravilhosa de se assistir, violência e surpresas uma atrás da outra. O tipo de final que se espera de Tarantino…[/spoiler]

Opinião pessoal: Sobre o final, eu fiquei em dúvida sobre se tinha realmente acabado, pois ele se finaliza em um ponto que você espera que algo mais aconteça. Por eu conhecer a história real daquela noite de 1969, imaginei que teria um passo a mais após a última cena, algo que fosse até o cerne da questão, como ele fez em Bastardos Inglórios… – mas não ficou ruim, de maneira alguma, somente esperava mais uns 15 minutos após o final para as situações se concluírem mais a fundo.

A trilha sonora do filme é, como de costume, recheada de clássicas músicas que te impossibilitam de ficar parado ao assistir o filme. Você precisa mexer, você entra totalmente no clima do filme!

Várias referências são feitas, também, sejam como filmes da época ou indiretas de outras obras, como o filme Valley of the Dolls com Sharon Tate que é citado, ou Pulp Fiction que é referenciado em uma cena de dança de Margot Robbie que lembra bastante a cena da Uma Thurman ao som de “Girl you’ll be a woman soon“… Citações de Easy Rider, assim como montagens de viagem que lembram muito a desse filme..

Era uma vez em… Hollywood é com certeza o filme mais maduro do diretor. O 2º ato é bem mais lento, bem desacelerado, mas o cerne de Quentin Tarantino esta lá. Trata-se de uma história muito boa, atuações perfeitas, violência brusca, com uma ótima pitada de comédia – fazia tempo que eu não chorava de rir com um filme – e Tarantino dá o seu final justo para essa real história com uma perspectiva fictícia.

~Vinícius Abreu.


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