O drama francês “Doze Mil” aborda temas como a escassez e descaso no mercado de trabalho e um relacionamento baseado em acordos, incluindo a fidelidade sexual e financeira.

Doze Mil
Ficha Técnica
Título: Doze Mil (Douze mille)
Ano de Produção: 2019
Dirigido Por: Nadège Trebal
Estreia: 9 de julho de 2021 (Brasil)
Duração: 1h 51min
Classificação: Não indicado para menores de 16 anos.
Gênero: Drama
País de Origem: França
Sinopse: Frank decide tentar encontrar um emprego para ganhar o que sua namorada recebe num ano: 12 mil euros. Nem mais, nem menos. Em meio a essa odisseia proletária, ele terá de lidar com o peso do passado.

 

O longa apresenta Frank (Arieh Worthalter), um homem que trabalha de forma clandestina em um ferro velho de desmanche, porém é descoberto e perde a renda. Para conseguir um novo emprego, ele decide ir à outra cidade, onde ninguém o conhece e trabalhar por dois meses para manter o padrão de vida com a namorada Maroussia (interpretada pela diretora Trebal) e seus filhos. Porém, eles têm medo de que a distância e a diferença salarial atrapalhem a relação deles. Para isso, eles combinam que Frank voltará para casa quando atingir o mesmo valor do salário de Maroussia: 12 mil euros. Essa quantia é equivalente a dois terços de um salário mínimo na França. Além de um combinado muito importante, ele não pode trair ela com ninguém, pois isso acabaria com o relacionamento deles.

A diretora e roteirista Nadège Trebal conseguiu mostrar a dificuldade de alguém que busca emprego em um país precarizado pela crise econômica ao mesmo tempo que usa a conexão sexual do casal como uma ferramenta da narrativa. Mostrando como essa ligação entre eles é forte e fica muito difícil prever as consequências disso.

Trebal aproveita essa imprevisibilidade para deixar o espectador em dúvida sobre qual caminho o protagonista vai tomar, o que traz um leve suspense junto da sensualidade para a história. Ela também permite que os personagens e tramas secundários tragam mais tensão e erotização para o filme.

Doze Mil

Outro ponto forte da história é a forma que as empresas e agências veem os funcionários, fica explícito sua desvalorização como algo descartável. Frank viaja para longe de casa para trabalhar em um emprego já firmado, a limpeza de grandes embarcações. Mas não importa quanto ele está disposto a trabalhar, a agência o descarta sem nem avisá-lo. Por isso, revestido pelo “slogan de Robin Hood”, ele busca meios ilegais para conseguir juntar o dinheiro e sustentar sua família.

É possível vermos as dificuldades de se manter com mil euros por mês, o que parece muito mas não é, realidade muito presente aqui no Brasil. Para conseguir enviar o dinheiro prometido, ele faz parceiros e monta planos, assim alcança até mais do que precisa, criando novos problemas.

Será mesmo que o combinado não sai caro? Esse empreendimento faz ele conseguir bem mais de 12 mil euros, resultando um total de 23 mil. No início, podemos pensar que Maroussia vai aceitar a quantia a mais e tudo ficará bem, mas para ela ter o marido em casa valia mais do que os 11 mil excedentes. Além do acordo em si, ele preferiu ficar lá mais tempo pelo dinheiro e pelo esquema que ele formou do que voltar para casa. O filme nos surpreende dessa forma, pois por conta de toda a tensão sexual existente entre o casal, pensamos que ele vai querer voltar o mais rápido possível para casa quando ele consegue os doze mil euros. Mas é necessário sua parceira de negócios o alertar das escolhas que ele estava fazendo para ele se lembrar do real motivo para ele estar ali.

Uma ferramenta muito interessante que a diretora utiliza para dar dinâmica ao longa é a dança. O casal dança de forma inusitada em algumas cenas, no começo parece apenas uma maneira de Frank se divertir com os amigos, mas depois se torna um escape da realidade para o casal. Assim, o protagonista consegue mostrar esperteza e malandragem sem perder o carinho e a sensualidade.

A fotografia de Jean-Christophe Beauvallet também chamou atenção, conseguindo mostrar sensualidade em pequenos detalhes, sem ter a cena de sexo em si. Fator que também é um mérito da ótima atuação de Arieh Worthalter, Nadège Trebal e Liv Henneguier.

“Doze Mil” é o primeiro filme de ficção da diretora Nadège Trebal e foi vencedor de Melhor Filme no Festival de Cinema Europeu, além de ter sido selecionado para o Festival de Locarno. O longa, inédito no Brasil, pode ser visto na Supo Mungam Plus, que é a plataforma de streaming da distribuidora do filme.