Um filme em que o inventivo diretor, Quentin Tarantino, pega um fato histórico e cria em cima dele uma história paralela para a verdadeira realidade. Imprevisível, cheio de momentos de suspense com tensão, diálogos que com essa atuação fora de base, violência e criatividade fazem o filme ser realmente algo muito fora da curva.

Nome Original: Inglourious Basterds

Direção: Quentin Tarantino

Roteirista: Quentin Tarantino

Cinematografia: Robert Richardson

Edição: Sally Menke

Figurino: Anna B. Sheppard

Departamento musical: Mary Ramos e Jim Schultz.

  • Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, na França, um grupo de judeus americanos conhecidos como Bastardos espalha o terror entre o terceiro Reich. Ao mesmo tempo, Shosanna, uma judia que fugiu dos nazistas, planeja vingança quando um evento em seu cinema reunirá os líderes do partido.

Tarantino inicia sua obra com um dos melhores prólogos do cinema.
Dando início, mostrando um dia padrão e simples na vida de uma família fazendeira, padrão que é quebrado quando os nazistas vão para a fazenda, e que nos leva a ter tensão que durará até o conflito acabar e o padrão retornar, de alguma maneira. “Uma interrupção no padrão, cria uma experiencia de tensão e suspense que persiste até o conflito ser resolvido e substituído pela estabilidade.” Lenhe e Koelsch, estudiosos da área. Além da saída do padrão, uma outra característica que nos leva a tensão com a chegada dos oficiais nazistas, é a falta de controle, os personagens da fazenda não podem fazer absolutamente nada para revirar aquela situação, há somente aceitação e medo, se entende que o comportamento deve ser minucioso para que não haja consequências indesejáveis, vendo pela perspectiva da família, e tudo isso antes de, se quer, a conversa iniciar. O nível do suspense é proporcional com o nosso investimento emocional com o que há no filme, e na cena em específico, a antecipação do que está por vir é um importante aspecto, como o próprio diretor diz, “meu método é enterrar em tantos detalhes sobre nada, que você não percebe que está sendo contado algo importante para a história até que ele se torne importante”, quando Landa pede para o fazendeiro falar a ele sobre ele mesmo, às vezes que isso ocorre é uma demonstração sútil de poder, além de nos expor quem o personagem é, mais de uma função ao mesmo tempo, de uma maneira disfarçada, provocando reações e aumentando ainda mais a tensão. E o último elemento de tensão e suspense que ele nos traz, é revelando o segredo, antes mesmo que o personagem em questão saiba, então ele estica a cena o máximo que pode, com diálogos que mudam a perspectiva, até que o suspensa se torna em praticamente uma ameaça e finalmente o seu finale, com um discurso seguido de sangue, como de costume pelo Tarantino. Esse prólogo daria um filme só ele. E lembrem-se, vários desses detalhes continuam ecoando e acontecendo novamente durante o filme, de maneiras bem inventivas.

Aqui Tarantino, também como de costume, conta algumas histórias, que dariam um filme para cada uma, ao mesmo tempo e em determinados momentos as junta.  É impressionante como cada núcleo é super bem desenvolvido e um mais interessante do que o outro. Então vamos por partes: O Núcleo do Liutenant Aldo Raine, com os bastardos é onde a maior parte da ação acontece, um esquadrão cheio de sujeitos bem específicos que você torce por eles em vários momentos, com uma missão bem clara é com certeza o núcleo mais divertido e engraçado do filme. Outro núcleo seria a da Shosanna, esse é tratado de maneira bem mais séria e densa, o entendimento do que houve com a personagem é pesado e triste, e como de costume arma uma grande vingança, mas o desenrolar é bem forte. E o último, que acaba entrelaçando tudo no final das contas, é o do Coronel Hans Landa, um oficial nazista que faz o trabalho de detetive, e é o personagem mais marcante do filme, um sociopata completo disfarçado com sorrisos e educação, o personagem que faz jogos mentais o tempo todo de maneira sutil, traiçoeira e principalmente provocador, os momentos com esse personagem são tensos e cheios de suspense, suas conversas têm sempre uma segunda ou quem sabe terceira camada. A história é completamente imprevisível, recheada de momentos de suspense com tensão, e diálogos que mesclados com essa atuação fora de base, fazem o filme ser realmente algo muito fora da curva.

Um diferencial aqui, apesar do filme ser uma história paralela da real, possui muito da cultura real, ali, a diversidade cultural no filme passa por alguns locais, primeiramente pelo casting de diversos países diferentes, além das diferentes línguas faladas durante o filme, alemão, francês, italiano, inglês.. e dentro disso possuem esteriótipos de cada local, mas também possui informações culturais diversas, o que é sempre muito interessante. Não é novidade para ninguém o nível cultural de Tarantino, seja na área que for, mas aqui ele estravasa também, colocando várias referências de filmes, músicas, e na maioria dos momentos as referências se encaixam no que está acontecendo, não são feitas de uma maneira vazia.

Um fator que é característica do diretor é conseguir puxar o máximo possível da atuação de seus participantes. Christoph Waltz está simplesmente brilhante de maneiras muito impressionantes, disparado o melhor trabalho nas atuações que realmente foi digna de todos os prêmios que recebeu, muito manipulador, sarcástico, você não consegue ter certeza do que ele sabe ou não, ele engana assim como seu personagem o faria, tem uma flexibilidade na atuação como poucos, a sutileza em demonstrar o seu poder sobre outros foi algo que vi ele fazer como poucos, muito poucos. Mélanie Laurent faz uma personagem triste, tensa, tentando seguir em frente, em algumas cenas ela mostra um controle muito bom de emoção, ansiedade e em outras a vingança está postada em seu rosto, de uma maneira bem caricata, porém o filme todo acaba tendo personagens caricatos. Brad Pitt faz um líder de esquadrão bem doido e confiante, a maneira de falar, o sotaque do personagem é muito diferente e legal, debochado e bem pragmático.

A trilha sonora desse filme, é outra coisa que realmente, é impecável aqui, independente de se usar músicas que saíram depois da época do filme ou não. Primeiramente a trilha para o filme, a melodia é impecável, ela não só aumenta a tensão, acompanhando a cena, mas como ela também te deixa perdido, intencionalmente, ela colabora em você ficar, “e agora?” ela consegue passar várias emoções tão sutilmente e eficientemente, como na música Für Elise passando: esperança, dúvida, confusão, elucidação, cautela e entre outras, e tudo se encaixa perfeitamente, com a cena se desenrolando em mesmo ritmo. Além das músicas que não são originais para o filme, porém a letra se encaixando perfeitamente com o que está acontecendo, além de ser bem empolgante.

A loucura está presente aqui, da melhor maneira, de um jeito que me agrada muito, claro que isso vai de pessoa para pessoa, mas para mim foi maravilhoso. O extravaso se expõe de diferentes maneiras aqui, seja nos diálogos minuciosos, provocativos e muitas vezes específicos para determinado lado ou na tortura, na destruição e principalmente na violência sem dó, a violência nesse filme está realmente em um nível acima, é completamente brutal e até passível de virar o rosto em alguns momentos, e sem falar de uma sequência em especial que é realmente a cereja no bolo, sensacional.

A fotografia do filme, por mais local comum que seja dizer isso, é maravilhosa. A movimentação da câmera dinâmica, o posicionamento indicando poder, indicando descobrimento, o posicionamento se referindo ao que está querendo ser dito, tudo isso é o famoso história além do roteiro e aqui é perfeito. Além dele se importar com os mínimos detalhes e dar aquele ar de sutileza, desde ao personagem Landa escrevendo em seu caderno, até a Shosanna mexendo com os rolos de filmes, coisas simples que acabam sendo muito legais de se assistir.

“I THINK THIS JUST MIGHT BE MY MASTERPIECE”

É notório o quanto Tarantino se divertiu e se empenhou nesse projeto, é completamente refletido na obra o nível de dedicação colocado aqui em cada minimo detalhe. Dando aula de como criar ambientes com suspense e tensão, trilha sonora diferenciada que em poucos minutos consegue passar diversas emoções e te deixar ansioso, atuações ótimas, uma violência específica, criativa, e em alguns momentos bem satisfatórias, sem falar nos diálogos que são realmente de outro mundo. Um dos melhores filmes da história recente.