Existe uma pergunta que volta e meia reaparece entre os fãs de anime: até que ponto uma obra precisa mudar para conquistar o mundo?
Vale adaptar referências culturais? Explicar tudo para quem está assistindo pela primeira vez? Suavizar costumes tipicamente japoneses? Ou a graça está justamente em conhecer uma cultura diferente da nossa?
Essa discussão ganhou um novo capítulo depois que Hideaki Anno, criador de Neon Genesis Evangelion, afirmou que nunca produziu suas obras pensando no público internacional e que, em vez de os animes se adaptarem ao Ocidente, são os espectadores estrangeiros que deveriam se adaptar à forma japonesa de contar histórias.
A declaração rapidamente saiu da entrevista para as redes sociais. Em poucas horas, havia quem aplaudisse a defesa da identidade cultural dos animes e quem enxergasse arrogância em um discurso vindo de alguém cuja obra conquistou milhões de fãs justamente fora do Japão.
Traduzir palavras é fácil. Traduzir cultura… nem tanto

Existe um ponto na fala de Anno que faz bastante sentido.
Boa parte da força dos animes nasce justamente por não tentar parecer ocidental: os silêncios, o ritmo, as referências ao cotidiano japonês, os festivais tradicionais, as formas de tratamento, a religião, o humor…
Tudo isso faz parte da identidade dessas obras.
Não é coincidência que filmes do Studio Ghibli, Your Name., A Viagem de Chihiro ou o próprio Evangelion tenham conquistado o mundo sem abrir mão de sua essência japonesa.
Na visão de Anno, alterar esse DNA para facilitar o consumo internacional seria como pedir que um sushi tivesse gosto de hambúrguer.
Talvez venda mais, mas deixa de ser sushi.
Só que existe um detalhe do tamanho de um EVA-01…
É impossível ignorar o outro lado dessa discussão.
Afinal, hoje, o anime deixou de ser um produto consumido quase exclusivamente no Japão; ele se tornou uma indústria global.
Serviços de streaming disputam licenças milionárias, filmes estreiam simultaneamente em dezenas de países, convenções lotam arenas e boa parte dessa expansão aconteceu graças justamente aos fãs estrangeiros.
Milhões de pessoas conheceram Evangelion fora do Japão… Compraram mangás, assinaram plataformas, adquiriram colecionáveis e mantiveram a franquia viva durante décadas.
Nesse contexto, alguns fãs enxergaram a declaração de Anno como excessivamente rígida.
Não porque ele queira preservar sua cultura (algo absolutamente legítimo), mas porque parece minimizar a importância de um público que ajudou a transformar suas obras em fenômenos mundiais.
Afinal, adaptar para quem?
Essa talvez seja a pergunta mais interessante de toda a discussão.
Existe uma diferença enorme entre:
- adaptar uma obra para facilitar sua compreensão;
- alterar completamente sua identidade para agradar outro mercado.
Localizar uma tradução, explicar uma referência, incluir notas culturais: tudo isso ajuda o espectador sem modificar a obra.
Já retirar elementos culturais, simplificar personagens ou suavizar temas apenas para ampliar o alcance comercial é outra história.
E é justamente esse segundo caminho que Anno parece rejeitar.
O paradoxo chamado Evangelion
Há uma certa ironia nessa história.
Neon Genesis Evangelion talvez seja um dos animes mais profundamente japoneses já produzidos.
Mesmo assim, tornou-se um fenômeno global.
Não porque tentou agradar o Ocidente, mas justamente porque ofereceu algo diferente.
Em um mercado cada vez mais preocupado em criar produtos universais, Evangelion conquistou milhões de pessoas sendo… Evangelion.
Sem pedir licença, sem pedir desculpas.
E talvez isso fortaleça o argumento de Anno mais do que qualquer entrevista.
No fim das contas, quem precisa se adaptar?
É provável que essa discussão nunca tenha uma resposta definitiva.
Criadores têm todo o direito de produzir obras profundamente ligadas à sua cultura.
Ao mesmo tempo, fãs do outro lado do planeta também têm o direito de sentir que fazem parte da história quando acompanham uma franquia durante décadas.
Talvez o verdadeiro equilíbrio esteja justamente aí: não em transformar o anime para agradar o mundo, nem em ignorar completamente quem o abraçou fora do Japão.
Porque, se Evangelion nos ensinou alguma coisa, é que compreender o outro quase sempre é mais difícil do que pilotar um EVA.
E, convenhamos… às vezes também provoca um belo impacto.
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