Frank Beard carregou durante décadas uma das grandes ironias do rock: o sujeito chamado “Beard” era justamente o integrante do ZZ Top que não ostentava a gigantesca barba que virou marca registrada da banda.
Não precisava.
Enquanto Billy Gibbons e Dusty Hill chamavam atenção pelos pelos faciais, óculos escuros e guitarras felpudas, Frank fazia seu trabalho alguns metros atrás: colocava a locomotiva para andar.
Afinal, era dele a bateria por trás de “La Grange”, “Tush”, “Gimme All Your Lovin’”, “Sharp Dressed Man” e “Legs”. Uma batida que atravessou blues, boogie, hard rock, sintetizadores, MTV e mais de cinco décadas de estrada.
No entanto, nesta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, essa batida parou.
Frank Beard morreu aos 77 anos, deixando Billy Gibbons como o único integrante vivo da formação clássica do ZZ Top.
A última batida no Texas
Beard morreu em seu rancho em Richmond, no Texas, enquanto recebia cuidados paliativos e estava acompanhado de familiares. A banda confirmou oficialmente a morte no dia seguinte. Contudo, a causa específica não foi divulgada.
Ademais, a saúde do músico já havia provocado mudanças recentes na agenda do ZZ Top. O grupo cancelou uma apresentação no Hollywood Bowl, em Los Angeles, e, após a morte, retirou também os shows de Salt Lake City e Colorado Springs da programação.
Além disso, Billy Gibbons prestou homenagem ao companheiro de décadas, classificando Beard como um músico naturalmente inovador e destacando aquilo que os fãs conheciam havia mais de meio século: seu backbeat era parte essencial do som do ZZ Top.
E o adeus não significará o fim da banda.
Segundo Gibbons, o ZZ Top continuará em atividade porque esse era o desejo de Frank. A agenda oficial prevê a retomada da atual The Big One! Tour no Texas.
Antes do Top, já havia Beard

Frank Lee Beard nasceu em 11 de junho de 1949, no Texas, e cresceu na pequena cidade de Frankston. Ainda jovem, começou a construir sua história como baterista tocando em grupos locais.
Antes do ZZ Top, dividiu bandas com aquele que posteriormente se tornaria seu parceiro por mais de cinco décadas, Dusty Hill. Os dois passaram por grupos texanos como The Warlocks e American Blues, desenvolvendo juntos uma parceria rítmica que acabaria sendo fundamental para aquilo que viria depois.
Em 1969, Beard entrou na nascente formação do ZZ Top ao lado de Billy Gibbons e teve papel decisivo na chegada de Dusty Hill ao grupo. A formação clássica começou a tocar junta em 1970.
Assim, era o começo de uma das formações mais duradouras da história do rock: Gibbons, Hill e Beard.
Três texanos, uma quantidade crescente de pelos faciais, distribuídos de maneira bastante desigual, e muito blues eletrificado.
Três homens e um som que cheirava a Texas
O primeiro disco, ZZ Top’s First Album, chegou em 1971.
Dois anos depois veio o trabalho que colocou o trio definitivamente em outra categoria.
Tres Hombres, de 1973, trouxe “La Grange”, baseada em um irresistível boogie-blues e transformada em um dos maiores clássicos da banda. O álbum representou a grande virada comercial do ZZ Top.
E Beard, obviamente, estava no centro daquela engrenagem.
Sua bateria nunca precisava disputar espaço com a guitarra de Gibbons. Afinal, ela fazia justamente o contrário: criava o chão para que todo o resto funcionasse.
Depois vieram “Tush”, “Cheap Sunglasses” e uma sequência de discos que transformou aquele “pequeno grupo do Texas” em atração internacional.
No final dos anos 1970, Beard também enfrentou problemas com dependência química. O período coincidiu com uma longa pausa do grupo; após buscar tratamento e ficar sóbrio, ele voltou à estrada com os companheiros e permaneceu tocando durante décadas.
Então chegaram os anos 1980… E três homens ligados ao blues descobriram a MTV.
Barbas, carros e uma tal de MTV
Eliminator, lançado em 1983, mudou novamente o tamanho do ZZ Top.
A banda acrescentou sintetizadores e elementos eletrônicos ao velho blues-rock texano e encontrou uma combinação praticamente feita sob medida para aquela década.
“Gimme All Your Lovin’”.
“Sharp Dressed Man”.
“Legs”.
Os videoclipes, recheados de carros customizados, mulheres, humor e a imagem inconfundível do trio, tornaram-se presença constante na MTV. Gibbons e Hill tinham suas barbas monumentais.
E Beard? Continuava sendo o Beard sem beard.
A piada visual era boa demais até para o ZZ Top inventar.
Eliminator tornou-se um dos pontos altos comerciais da carreira da banda e recebeu indicação ao Grammy. O sucessor, Afterburner, também foi indicado. Ao todo, Beard recebeu três indicações ao Grammy por trabalhos do ZZ Top.
Relembre sua trajetória
Durante 56 anos, Frank Beard acompanhou praticamente todas as transformações do ZZ Top e tocou em todos os 15 álbuns de estúdio da banda.
- 1971 — ZZ Top’s First Album
A estreia em disco do trio já apresentava a mistura de blues e rock que se tornaria a base da identidade do grupo. - 1972 — Rio Grande Mud
Segundo álbum do ZZ Top, continuou desenvolvendo o boogie pesado e profundamente ligado às raízes texanas da banda. - 1973 — Tres Hombres
O grande salto. O disco trouxe “La Grange” e colocou o ZZ Top definitivamente no mapa do rock norte-americano. - 1975 — Fandango!
Misturando gravações ao vivo e de estúdio, apresentou outro clássico absoluto: “Tush”. - 1977 — Tejas
Fechou a primeira grande fase da banda antes de um período de pausa.
Do blues texano às telas da MTV
- 1979 — Degüello
Marcou o retorno após o hiato e trouxe músicas como “Cheap Sunglasses”. - 1981 — El Loco
Começou a indicar uma abertura maior para experiências que ganhariam força no disco seguinte. - 1983 — Eliminator
O álbum que transformou o trio também em fenômeno visual da era MTV, impulsionado por “Gimme All Your Lovin’”, “Sharp Dressed Man” e “Legs”. - 1985 — Afterburner
A banda aprofundou a mistura entre rock, blues e tecnologia dos anos 1980. O álbum também recebeu indicação ao Grammy. - 1990 — Recycler
Levou o trio para os anos 1990 sem abandonar o peso e o humor característicos de sua identidade.
A estrada continuou… e a bateria também
- 1994 — Antenna
O ZZ Top retomou uma abordagem mais diretamente ligada ao blues-rock depois da fase fortemente eletrônica. - 1996 — Rhythmeen
Um trabalho mais cru e pesado, colocando novamente a interação entre guitarra, baixo e bateria em primeiro plano. - 1999 — XXX
O título comemorava três décadas do grupo e misturava material de estúdio e gravações ao vivo. - 2003 — Mescalero
Mais um capítulo da longa experimentação do trio com diferentes vertentes das raízes musicais norte-americanas. - 2012 — La Futura
Último álbum de estúdio da formação clássica. Produzido com participação de Rick Rubin, chegou ao 6º lugar da Billboard 200, melhor posição da banda na parada desde Recycler.
Cinquenta milhões de discos depois…
Pois é… Os números ajudam a dimensionar o tamanho da história.
O ZZ Top vendeu mais de 50 milhões de discos, colocou sete álbuns no Top 10 da Billboard 200 e alcançou seis vezes o primeiro lugar da parada Mainstream Rock da Billboard.
Em 2004, Gibbons, Hill e Beard foram introduzidos no Rock & Roll Hall of Fame.
Na cerimônia, Beard resumiu décadas de sucesso com uma frase tão econômica quanto seu estilo costumava ser atrás da bateria: disse que boa parte de sua vida havia sido uma agradável surpresa e aquela homenagem também.
Não precisava de discurso gigantesco, pois Frank Beard nunca precisou fazer muito barulho fora da bateria para deixar claro quem era.
Primeiro Dusty. Agora Frank.
A formação Gibbons-Hill-Beard permaneceu junta por mais de cinco décadas, algo excepcional em qualquer banda de rock.
Essa história começou a mudar em 2021, quando Dusty Hill morreu aos 72 anos. O técnico de guitarra Elwood Francis assumiu o baixo e o ZZ Top continuou excursionando conforme o desejo do próprio Hill.
Agora, cinco anos depois, Billy Gibbons é o único sobrevivente daquele trio clássico.
Mas a história novamente não termina com a perda de um integrante: o comunicado oficial deixa claro que o ZZ Top pretende continuar.
Desta vez, porque Frank também queria que continuasse.
O homem sem barba que sustentou o ZZ Top
Talvez a fotografia clássica do ZZ Top sempre faça nossos olhos irem primeiro para Billy Gibbons e Dusty Hill.
Difícil competir com duas barbas daquele tamanho. Contudo, Frank Beard parecia perfeitamente confortável com isso.
Ele ficava atrás. Contava. Entrava. E fazia tudo andar.
Dessa forma, durante 56 anos, aquela bateria passou pelo blues das estradas texanas, pelos estádios, pela MTV, pelos sintetizadores dos anos 1980, pelas mudanças do mercado musical e por incontáveis quilômetros de turnê.
Enfim, guitarras podem fazer riffs inesquecíveis; vozes podem transformar músicas em hinos, mas toda banda precisa de alguém para dizer ao resto do mundo quando é hora de entrar.
No ZZ Top, durante mais de meio século, esse homem foi Frank Beard.
O único sem a barba gigantesca e certamenteuma das razões pelas quais o ZZ Top nunca perdeu a batida. Descanse em paz.
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