Durante décadas, o público do Rock in Rio levantou isqueiros e celulares para iluminar a Cidade do Rock. Em 2026, o festival precisou atualizar o firmware: os lightsticks atravessaram os portões e transformaram o Palco Mundo num oceano colorido de fandoms.
Responsável por encerrar a programação de 11 de setembro, o Stray Kids tornou-se o primeiro artista de K-pop a ocupar a posição de headliner na história do evento. Mais do que um recorde individual, o show marcou o momento em que o pop sul-coreano deixou de bater educadamente na porta dos grandes festivais brasileiros e entrou segurando oito microfones.
O Palco Mundo aprendeu coreano

O dia começou com o NEXZ, continuou com Hwasa e reservou o encerramento para o Stray Kids. Alok foi o único brasileiro numa programação principal quase inteiramente asiática e ainda aproveitou a ocasião para apresentar “Inhibition”, parceria com o TWICE e o DJ Mesto.
Quando Bang Chan, Lee Know, Changbin, Hyunjin, Han, Felix, Seungmin e I.N assumiram o palco, o grupo percorreu sucessos como “God’s Menu”, “S-Class”, “Chk Chk Boom”, “Lalalala”, “Topline” e “This & That”. Bang Chan ainda cantou um trecho de “Ai Se Eu Te Pego”, porque nenhum passaporte cultural permanece intacto depois de algumas horas no Rio de Janeiro.
Segundo a Yonhap, a apresentação consolidou oficialmente o Stray Kids como o primeiro nome do gênero a liderar uma noite do Rock in Rio.
Não é lanterna, é equipamento de fandom
Os lightsticks são bastões luminosos personalizados para cada artista ou grupo. Além de carregar cores e símbolos próprios, funcionam como uma espécie de documento de identidade do fandom. Basta observar o modelo levantado para descobrir a qual exército musical aquela pessoa jurou fidelidade.
Apesar de serem parte essencial dos concertos de K-pop, esses acessórios nunca haviam sido autorizados na Cidade do Rock. A regra mudou justamente para o dia comandado pelo Stray Kids.
Posteriormente, a organização celebrou o que chamou de maior “oceano de lightsticks” da América Latina. A afirmação possui evidente sabor promocional, mas a mudança operacional é concreta: depois de 41 anos, o festival alterou suas regras para acomodar uma cultura de público que não nasceu no rock ocidental.
Pois é… O palco continuou no mesmo lugar. Quem precisou aprender uma coreografia nova foi o próprio Rock in Rio.
Cem mil pessoas e um asterisco luminoso
A JYP Entertainment estimou que aproximadamente 100 mil pessoas acompanharam o Stray Kids. O número foi divulgado pela agência do grupo e repercutido pela imprensa coreana, portanto deve ser apresentado como estimativa, não como uma contagem independente e auditada.
Além disso, os ingressos daquele dia não chegaram a esgotar. Isso não anula o tamanho da apresentação, mas impede que entusiasmo promocional seja confundido com bilheteria oficialmente lotada.
Ainda assim, a movimentação foi suficientemente intensa para provocar aglomerações próximas ao palco. Antes da apresentação de Hwasa, os telões chegaram a solicitar que parte do público recuasse após pessoas passarem mal por causa do calor.
O K-pop deixou de pedir licença
Artistas coreanos já haviam demonstrado força comercial no Brasil com ingressos disputados, filas extensas e estádios cheios. A diferença é que esses shows normalmente aconteciam dentro de circuitos próprios, preparados para públicos que já conheciam as músicas, os integrantes e até a ordem correta dos gritos.
Contudo, no Rock in Rio, o K-pop foi apresentado como atração central de um festival generalista. Isso muda a escala da conversa. O gênero não apareceu como curiosidade exótica escondida num palco secundário, mas como argumento para vender um dia inteiro e ocupar o maior espaço do evento.
Consequentemente, outros festivais brasileiros agora possuem um precedente comercial para avaliar grupos asiáticos como atrações principais. Isso não significa que a próxima edição terá outro dia temático, BLACKPINK fechando o Palco Mundo ou uma peregrinação anual de idols ao Rio. Nada disso foi anunciado.
O que já pode ser afirmado é que o Stray Kids não apenas realizou um grande show. O grupo fez o festival mudar quem poderia entrar pelos portões, o que poderia ocupar sua principal programação e até aquilo que os fãs poderiam levantar sobre a cabeça.
Depois de um mar de luzes tomando a Cidade do Rock, continuar chamando o K-pop de nicho exigirá mais escuridão do que um lightstick sem pilha.
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