Alguns visitantes entraram na Horror Expo para encontrar atores, monstros e assassinos mascarados. Outros podem ter saído de lá desconfiando de ônibus desconhecidos, corredores vazios e catracas que levam a lugares não indicados no mapa.
Entre os convidados da edição de 2026 estava Luciano Milici, escritor e criador de Setealém, universo brasileiro de horror que nasceu de uma experiência narrada pelo autor e cresceu coletivamente por meio de relatos enviados por pessoas de diferentes regiões.
Milici levou à convenção O Livro de Setealém, primeiro romance oficial ambientado nessa realidade inquietante. Além de participar da programação, o escritor recebeu leitores em um espaço tematizado, conversou com o público, posou para fotografias e autografou exemplares. Foi nesse ponto da viagem que o Teoria Geek adquiriu sua passagem literária e recebeu uma informação inédita: Setealém ganhará mais dois livros em 2027.
O terror montou seu próprio pavilhão

Realizada nos dias 17 e 18 de outubro, no Expo Barra Funda, em São Paulo, a Horror Expo 2026 reuniu cinema, televisão, literatura, games, música e cultura pop sob o mesmo teto. A programação combinou convidados nacionais e internacionais, painéis, atrações imersivas, espaços temáticos e uma área dedicada a escritores, quadrinistas, escultores, fotógrafos e outros profissionais do gênero.
Nesse ambiente, Setealém parecia ter encontrado o endereço perfeito. O espaço dedicado ao projeto adotava sua identidade visual sombria, permitindo que o público encontrasse Luciano Milici, conhecesse o livro e conversasse diretamente com o responsável por transformar uma palavra ouvida dentro de um ônibus em um universo narrativo.
A proximidade também ajudou a devolver ao livro algo que o comércio eletrônico não consegue entregar: histórias contadas frente a frente, dedicatórias pessoais e aquela inevitável dúvida sobre quanto do que estamos ouvindo pertence à ficção.
Próxima parada: um lugar que não aparece no itinerário
A origem de Setealém remonta a outubro de 1994. Na época, Luciano Milici tinha 19 anos, estudava publicidade na ESPM e seguia um trajeto aparentemente comum depois da faculdade.
Segundo o relato do escritor, ele entrou num ônibus que deveria percorrer um caminho conhecido. Durante a viagem, porém, uma passageira perguntou se ele realmente pretendia ir para Setealém e recomendou que desembarcasse. Outros ocupantes reforçaram o aviso, como se aquele destino fosse conhecido por todos, menos pelo jovem que acabara de entrar.
Milici desceu. O ônibus seguiu viagem. A palavra, entretanto, nunca mais foi embora.
Anos depois, ao publicar a experiência, o autor começou a receber histórias semelhantes. Pessoas de diferentes localidades relatavam bairros que não deveriam existir, mudanças inexplicáveis na paisagem, passagens por corredores, estações e transportes públicos, além de encontros com habitantes que pareciam pertencer a outra versão da realidade.
Afinal, o que é Setealém?
Dentro da mitologia construída ao redor dos relatos, Setealém seria uma realidade paralela decadente, hostil e acessada acidentalmente por meio de lugares cotidianos. Não existem portais brilhantes nem magos distribuindo instruções. Uma catraca, um corredor, um elevador, um prédio abandonado ou um ônibus errado podem ser suficientes para atravessar a fronteira.
O próprio projeto reconhece diferentes grafias, como Setealém, Sete Além, 7Além e Cetealém, pois o nome teria sido inicialmente ouvido, não lido.
Também não existe uma explicação definitiva sobre sua natureza. Algumas interpretações tratam Setealém como dimensão paralela; outras aproximam o lugar de conceitos espirituais ou de um reflexo corrompido do nosso mundo. O site oficial afirma que não é possível assegurar que o local exista e apresenta as histórias como relatos enviados por terceiros, não como ocorrências comprovadas.
Editorialmente, portanto, é importante fazer a distinção: Setealém é um universo de horror e uma lenda urbana colaborativa criada e organizada por Luciano Milici. Os acontecimentos sobrenaturais pertencem aos testemunhos e à mitologia do projeto, não a fatos verificados de maneira independente.
Essa incerteza, longe de enfraquecer a proposta, é justamente seu combustível. Setealém funciona porque pega ambientes reconhecíveis pelo público brasileiro e instala neles uma saída de emergência que talvez leve ao lugar errado.
O homem que desceu do ônibus e virou escritor
Luciano Milici é escritor, roteirista, palestrante, ghostwriter e criador de conteúdo. Formado pela ESPM-SP e com MBA em Comércio Eletrônico, também construiu carreira nas áreas de marketing, branding e narrativa multimídia.
Além de Setealém, Milici escreveu obras como A Página Perdida de Camões e Diário de um Exorcista, que ganhou uma adaptação cinematográfica posteriormente disponibilizada pela Netflix. O autor ainda apresenta relatos e histórias em seus canais digitais, participa de podcasts e trabalha com projetos ligados ao terror, ao mistério e ao sobrenatural.
Sua experiência profissional ajuda a explicar por que Setealém conseguiu ultrapassar os limites de um único conto. O projeto cresceu por meio da combinação entre narrativa autoral, participação do público e circulação em diferentes formatos, incluindo vídeos, entrevistas, publicações digitais e, finalmente, um romance próprio.
O livro abriu a porta, mas não promete devolução
Publicado pela EV Publicações, O Livro de Setealém: Volume 1 possui 272 páginas e transforma a mitologia desenvolvida durante anos em uma narrativa ficcional estruturada.
A trama acompanha Dante Virelli, que vê Clara, o amor de sua vida, desaparecer em circunstâncias cercadas por sangue e sombras. Para a polícia, Dante é o principal suspeito. A investigadora Rita Castelar pretende reunir provas contra ele, mas uma terceira personagem enxerga outra possibilidade.
Luma Velaris, adolescente hacker fascinada por crimes sem solução e fenômenos inexplicáveis, acredita que Clara não foi assassinada. Ela teria atravessado para Setealém.
A investigação abre caminho para uma realidade na qual espelhos, corredores e catracas podem funcionar como passagens, o tempo não segue necessariamente as mesmas regras e criaturas antigas observam quem comete o erro de entrar.
O romance mistura horror urbano brasileiro, suspense policial, mistério, cultura pop e elementos dos relatos que ajudaram a expandir o projeto. Ao mesmo tempo, apresenta personagens próprios e uma pergunta capaz de conduzir leitores até a última página: Dante matou Clara ou está dizendo a verdade sobre um lugar impossível?
A classificação como “Volume 1” já indicava que a catraca permaneceria funcionando. Agora sabemos que o próximo embarque está mais próximo do que parecia.
Exclusivo: Setealém abrirá duas novas passagens em 2027
Durante uma conversa presencial com a equipe do Teoria Geek na Horror Expo 2026, Luciano Milici revelou que lançará mais dois livros de Setealém em 2027.
A informação é inédita e foi concedida pelo próprio escritor durante o evento. Por enquanto, ainda não foram informados os títulos, as datas de lançamento, as sinopses ou se as duas obras continuarão diretamente a história de Dante, Clara, Rita e Luma.
Também não está confirmado se ambos serão numerados como continuações do romance atual ou se explorarão outras histórias dentro do mesmo universo. Portanto, qualquer detalhe além da existência dos dois lançamentos permanece no território das especulações, um lugar que, convenhamos, já possui portais suficientes.
O horror brasileiro encontrou outro caminho
Setealém começou com uma palavra ouvida num ônibus e cresceu por meio de pessoas dispostas a compartilhar histórias sobre lugares que talvez nunca devessem ter visitado. Na Horror Expo, esse caminho ganhou uma forma bastante concreta: livros sobre a mesa, leitores diante do autor e exemplares atravessando o evento debaixo do braço.
A participação de Luciano Milici também demonstrou a importância de abrir espaço para mitologias brasileiras em uma convenção repleta de monstros importados. Nosso terror não precisa morar somente em mansões vitorianas, acampamentos norte-americanos ou cidades cobertas por neblina. Ele também pode esperar no ponto de ônibus, esconder-se atrás de uma catraca ou ocupar um corredor que parecia perfeitamente normal cinco minutos antes.
Com dois novos livros previstos para 2027, a viagem está longe de terminar. Resta acompanhar os próximos anúncios, conferir o destino antes de embarcar e desconfiar caso todos os passageiros olhem para você ao mesmo tempo.
Afinal, o ônibus pode até parar na Horror Expo. O problema é descobrir para onde ele vai depois.
| Autor: Luciano Milici |
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| Editora: EV Publicações |
| Ano de lançamento: 2026 |
| Sinopse: o livro acompanha o desaparecimento misterioso de uma mulher chamada Clara, cujo marido é o principal suspeito do crime. Enquanto a investigadora Rita Castelar tenta encontrar provas para incriminá-lo, a história ganha um rumo sobrenatural por meio de Luma Velaris, uma adolescente hacker obcecada por mistérios sem solução e fenômenos inexplicáveis. |
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