“Saudações aeronáuticas”. Foi assim, que, durante quase duas décadas, Lito Sousa fez algo que muitos manuais, reportagens e companhias aéreas não conseguiam: explicou uma máquina formada por milhares de componentes com a tranquilidade de quem conversava ao lado do portão de embarque.

Ele ensinou que turbulência não derruba avião e, de quebra, ajudou a derrubar o medo que impedia muita gente de entrar em um.

Joselito Geraldo de Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, morreu nesta quinta-feira, 1º de outubro, aos 59 anos, em São Paulo. A notícia foi comunicada por sua esposa, Mila Seidl, nas redes sociais e confirmada pela assessoria do influenciador.

Lito enfrentava a doença de Creutzfeldt-Jakob, condição neurológica rara, rapidamente progressiva e ainda sem cura.

Ele deixa a esposa, o filho Malone e uma enorme tripulação formada por profissionais da aviação, estudantes, curiosos e passageiros que aprenderam a respirar um pouco melhor quando o avião começava a sacudir.

O hangar ficou em silêncio

 

A despedida publicada por Mila recuperou a linguagem aeronáutica que acompanhou a vida do comunicador: “Um grande abraço e até o próximo voo. Foi uma honra ter viajado com você”. Amigos, profissionais do setor e personalidades também prestaram homenagens ao longo da noite.

Lito havia tornado público o diagnóstico em 21 de agosto. Posteriormente, foi internado no Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, devido às complicações da doença.

Antes da confirmação da condição neurológica, ele também estava tratando um câncer de próstata. Os dois diagnósticos não devem ser confundidos: não foi estabelecida qualquer relação causal entre o câncer e a doença de Creutzfeldt-Jakob. Os sintomas neurológicos surgidos durante aquele período motivaram uma investigação separada.

Mesmo diante do prognóstico, Lito falou abertamente sobre a morte, o desejo de acompanhar o crescimento do filho e a esperança de ganhar mais tempo.

Portanto, a vulnerabilidade não apagou o comunicador, pois até nos momentos mais difíceis, ele tentou explicar ao público o que estava acontecendo.

O mecânico que abriu o hangar para todo mundo

Nascido em 25 de janeiro de 1967, em Natal, no Rio Grande do Norte, Lito construiu sua autoridade muito antes de colocar uma câmera diante do rosto.

Formado em manutenção de aeronaves, trabalhou nos bastidores de empresas como Varig, Transbrasil e United Airlines. Na companhia norte-americana, permaneceu por aproximadamente 25 anos, acumulando experiência em manutenção, inspeção, segurança operacional e gestão de equipes.

Uma das passagens mais extraordinárias de sua carreira ocorreu quando foi enviado ao antigo Zaire, atual República Democrática do Congo, para auxiliar na operação e na manutenção de aeronaves Electra anteriormente pertencentes à Varig. A experiência inspiraria o livro Onde Morrem os Aviões, publicado em 2018.

O que poderia ter se transformado apenas em currículo técnico virou matéria-prima para contar histórias. Lito conhecia o avião por dentro, literalmente, mas nunca utilizava esse conhecimento para manter o público do lado de fora da conversa.

Turbulência não derruba avião, mas o medo quase impede a viagem

Em 2004, incomodado com a maneira sensacionalista ou imprecisa pela qual determinados assuntos aeronáuticos eram apresentados, Lito criou o blog Aviões e Músicas. Mais tarde, o projeto migrou para o YouTube e se tornou uma das maiores referências em aviação da internet brasileira.

Acidentes, manutenção, funcionamento de motores, procedimentos de emergência, turbulência e histórias pouco conhecidas ganharam explicações acessíveis. Lito não eliminava a complexidade da aviação; ele apenas retirava dela a arrogância.

 

Seus vídeos também encontraram um público que não estava interessado somente em engenharia: pessoas com medo de voar. Ao mostrar por que asas balançam, motores fazem certos ruídos e aeronaves suportam turbulências, o comunicador transformou curiosidade técnica em acolhimento.

A missão cresceu com o livro Medo de Avião Nunca Mais, escrito com Mila Seidl, e com o curso Sem Medo de Voar. Em 2023, o casal abriu a Lito Aviation Academy, centro de instrução homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil em Guarulhos. A escola levou o trabalho para outro patamar, formando profissionais para ocupar os hangares que Lito havia apresentado ao público.

Sua relevância ultrapassava a quantidade de inscritos. Em uma internet apaixonada por manchetes sobre “momentos de terror” dentro de aviões, Lito aparecia para explicar que uma máscara de oxigênio não era prenúncio automático de tragédia e que uma arremetida podia representar justamente o sistema de segurança funcionando.

Pois é… Ele era praticamente o antivírus do pânico aéreo.

Quando uma proteína perde a forma

A doença de Creutzfeldt-Jakob, conhecida pela sigla DCJ, é uma enfermidade neurodegenerativa provocada por príons.

Apesar do nome incomum, um príon não é vírus, bactéria ou parasita. Trata-se de uma proteína que assume uma forma anormal e passa a induzir outras proteínas a se deformarem. Esse processo cria uma reação em cadeia que danifica progressivamente as células do cérebro.

A condição pode provocar perda de memória, comprometimento cognitivo, alterações comportamentais, problemas de visão, dificuldade para caminhar, falta de coordenação, tremores e espasmos musculares involuntários. A combinação e a ordem dos sintomas variam entre os pacientes.

No caso de Lito, a família informou que o quadro não começou da maneira considerada mais comum. Ele permaneceu lúcido durante parte importante da evolução, enquanto enfrentava perda de visão e um comprometimento motor cada vez maior.

A DCJ é extremamente rara. A estimativa internacional é de aproximadamente um a dois casos para cada milhão de pessoas por ano. Depois do aparecimento dos sintomas, a progressão costuma ser muito rápida, frequentemente medida em meses.

Também é importante afastar um temor comum: a forma clássica da doença não é transmitida pelo ar, por abraços, beijos, talheres ou pelo convívio cotidiano. O Ministério da Saúde afirma que não existem evidências de transmissão por contato social casual. Além disso, a DCJ clássica não deve ser automaticamente confundida com sua variante associada historicamente à chamada “doença da vaca louca”.

Atualmente, não existe tratamento aprovado capaz de interromper ou reverter a destruição provocada pela doença. A assistência convencional busca controlar sintomas, preservar o conforto e oferecer suporte ao paciente e à família.

A ciência correu contra um relógio cruel

Lito Sousa durante apelo publicado no Instagram.

Após o diagnóstico, familiares, seguidores, médicos e autoridades iniciaram uma mobilização para que Lito tivesse acesso a pesquisas e terapias experimentais.

A Anvisa autorizou excepcionalmente a importação do composto ALN-6457, solicitado para uso individual pelo Einstein. A substância pretendia reduzir a produção da proteína priônica, mas ainda se encontrava em estágio anterior aos ensaios clínicos formais para a doença. Sua segurança e sua eficácia em seres humanos não estavam comprovadas.

Lito recebeu o composto durante a internação. A tentativa representava uma possibilidade experimental diante de uma doença sem alternativas terapêuticas estabelecidas, não uma promessa de cura.

A velocidade da DCJ, porém, foi maior que o tempo necessário para avaliar qualquer possível resposta. Pouco mais de um mês separou a divulgação pública do diagnóstico de sua morte.

Relembre sua trajetória

  • Década de 1980: inicia sua formação e carreira na manutenção aeronáutica.
  • Anos seguintes: trabalha na Varig e na Transbrasil, avançando de mecânico para funções de inspeção e supervisão.
  • Década de 1990: participa de uma missão no antigo Zaire, treinando profissionais e acompanhando aeronaves Electra vendidas pela Varig.
  • Carreira internacional: ingressa na United Airlines, companhia na qual permaneceria por aproximadamente 25 anos.

  • 2004: cria o blog Aviões e Músicas para combater informações equivocadas e traduzir a aviação para o público.
  • Anos seguintes: leva o projeto ao YouTube e transforma o canal numa das maiores referências sobre aviação da América Latina.

  • 2018: publica Onde Morrem os Aviões, inspirado em suas experiências profissionais na África.

  • 2021: conquista a licença de piloto privado e lança, com Mila Seidl, o livro Medo de Avião Nunca Mais.
  • 2023: inaugura a Lito Aviation Academy e amplia os projetos voltados à formação profissional e ao combate à aerofobia.
  • 2026: torna público o diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob e mobiliza o país em torno da pesquisa sobre enfermidades priônicas.

Um legado que continuará embarcando

Enfim, Lito Sousa não tornou o avião menos complexo; tornou o conhecimento menos assustador.

Essa talvez seja a melhor medida de sua importância. Cada passageiro que respirar fundo durante uma turbulência, cada jovem que olhar para um hangar e enxergar uma profissão e cada curioso que tentar entender como toneladas de metal permanecem no céu encontrará um pedaço do trabalho deixado por ele.

A doença encerrou sua vida com uma velocidade cruel. O legado, felizmente, não obedece ao mesmo cronômetro.

O céu perdeu seu melhor tradutor, mas as explicações continuam por aqui.

Um grande abraço, Lito. Até o próximo voo.

 

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