Quando a Globo inaugurou sua programação, em abril de 1965, Gracindo Júnior não precisou bater à porta. Contratado meses antes, ele já estava dentro da emissora, pronto para ajudar a construir uma televisão que ainda aprendia onde colocar as câmeras.

Nas seis décadas seguintes, Gracindo atravessou novelas, filmes, peças, programas humorísticos e diferentes funções nos bastidores.

Embora herdasse do pai um sobrenome conhecido, tratou de preenchê-lo com uma carreira própria, daquelas grandes demais para caber apenas nos créditos de ator.

Infelizmente, Gracindo Júnior morreu nesta noite de terça-feira, 1º de setembro, aos 83 anos, em sua casa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada ao G1 por seu filho Pedro Gracindo.

A causa da morte, no entanto, não foi divulgada.

O rádio falou primeiro

Nascido Epaminondas Xavier Gracindo, em 21 de maio de 1943, no Rio de Janeiro, o artista era filho de Paulo Gracindo, um dos nomes mais importantes da história do rádio e da televisão brasileira.

Aos 15 anos, Gracindo Júnior fez um teste para a Rádio Nacional, onde trabalhou como ator, redator e disc jockey. O pai já era uma estrela da emissora, porém o filho não ficou esperando que o sobrenome resolvesse o roteiro inteiro.

Ele chegou a cursar Psicologia, mas foi o palco que acabou oferecendo o diagnóstico definitivo: sua vida profissional estaria ligada à interpretação.

No começo dos anos 1960, estreou no teatro em uma montagem de A Escada, de Jorge Andrade. Depois do golpe militar de 1964, foi afastado da Rádio Nacional ao lado de outros artistas perseguidos pelo regime. Naquele momento, porém, já havia trabalhado também nas TVs Rio, Excelsior e Tupi.

Em dezembro daquele mesmo ano, foi contratado pela Globo, quatro meses antes da inauguração oficial do canal. Quando a emissora ligou o sinal, ele já estava com o crachá metafórico no peito.

Um sobrenome famoso, uma carreira sem diminutivo

Ser filho de Paulo Gracindo poderia ter transformado qualquer trajetória em uma comparação permanente. Gracindo Júnior respondeu da maneira mais eficiente possível: trabalhou como ator, diretor, autor, produtor, supervisor de novelas e realizador teatral.

Pai e filho dividiram diferentes produções, mas o encontro mais simbólico aconteceu em O Casarão, de 1976. Os dois interpretaram João Maciel em momentos distintos da vida do personagem. Gracindo Júnior viveu a juventude, enquanto Paulo assumiu a fase mais velha.

Era o mesmo homem na ficção e duas gerações da televisão fora dela. Poucas árvores genealógicas ganharam uma escalação tão literal.

Além de atuar, Gracindo supervisionou o núcleo das novelas das seis da Globo no final dos anos 1970 e dirigiu produções como Memórias de Amor e Marron-Glacé. Também comandou episódios de Os Trapalhões, participou da criação de números musicais para o Fantástico e construiu uma trajetória extensa nos palcos.

Além disso, ele atuou, produziu ou dirigiu mais de 20 espetáculos teatrais. Entre os projetos mais pessoais esteve Paulo Gracindo, Meu Pai, homenagem apresentada no início dos anos 1980 para celebrar a carreira do patriarca.

Relembre sua trajetória

  • 1959: ingressou na Rádio Nacional, onde trabalhou como ator, redator e disc jockey.
  • Início dos anos 1960: estreou profissionalmente no teatro com A Escada, de Jorge Andrade.
  • 1965: integrou o elenco de Rosinha do Sobrado, segunda novela produzida pela Globo.
  • 1973: trabalhou em O Bem-Amado e Os Ossos do Barão, duas produções que também contaram com Paulo Gracindo.
  • 1976: interpretou a fase jovem de João Maciel em O Casarão, enquanto seu pai viveu a versão mais velha do personagem. No mesmo período, iniciou sua trajetória como diretor teatral com A Longa Noite de Cristal.
  • 1978 e 1979: assumiu funções de supervisão e direção em novelas como A Sucessora, Memórias de Amor e Marron-Glacé.
  • 1980: participou da criação de Paulo Gracindo, Meu Pai, espetáculo dedicado aos 50 anos de carreira do ator.
  • 1983: dirigiu episódios de Os Trapalhões, levando seu trabalho para trás das câmeras de um dos maiores fenômenos da televisão brasileira.

De Trás das Câmeras ao Estrelato Nacional: A Consolidação como Ícone

  • 1984: interpretou Dom Pedro I na minissérie A Marquesa de Santos, exibida pela Manchete.
  • 1986: viveu Antônio Sampaio em Dona Beija, novamente ao lado de Maitê Proença.
  • 1987: retornou à Globo como Creonte em Mandala.
  • 1989: participou de O Salvador da Pátria como o empresário Ricardo Ribeiro.
  • 1995: atuou em Explode Coração e também dirigiu cenas ligadas ao núcleo dos personagens ciganos.
  • 2003: interpretou Ubaldo Quintela em Celebridade.
  • 2004: esteve em Como uma Onda, uma de suas últimas novelas na Globo.
  • Entre 2006 e 2014: participou de produções da Record como Cidadão Brasileiro, Poder Paralelo, Ribeirão do Tempo, Rei Davi e Plano Alto. Em Rei Davi, interpretou o rei Saul.
  • 2017: integrou o elenco de Ouro Verde, novela produzida pela emissora portuguesa TVI.
  • 2019: apareceu na série Homens, lançada pelo Prime Video.
  • 2022: interpretou Gera no filme A Queda, apontado como seu último trabalho para as telas.

Enfim, sua trajetória também passou pelo cinema, com títulos como Os Homens que Eu Tive, Os Trapalhões na Serra Pelada, O Trapalhão na Arca de Noé, A Floresta das Esmeraldas, Kickboxer 3, Bufo & Spallanzani, Segurança Nacional e Irmã Dulce.

Um pioneiro que nunca ficou parado na fotografia

Por fim, Gracindo Júnior deixa a esposa, Daisy Poli, com quem foi casado por mais de 50 anos, quatro filhos, Pedro, Yan, Daniela e Gabriel, além de sete netos.

Pois é… Ele poderia ter se acomodado no sobrenome de Paulo Gracindo, mas preferiu ampliá-lo. Atuou com o pai, dirigiu colegas, supervisionou novelas, escreveu, produziu e atravessou emissoras numa época em que mudar de canal exigia mais do que encontrar o controle remoto.

A televisão brasileira perdeu um de seus pioneiros. O acervo, felizmente, continua teimoso: basta apertar o play para que Gracindo Júnior volte a entrar em cena. Descanse em paz.

 

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