Nova geração do terror psicológico no cinema

O que te assusta? O que te causa arrepios na espinha? Complicado começar uma conversa assim não é? Gosto de dizer que o medo é um sentimento tão pessoal que pode ser comparado a paixão por exemplo. O que me encanta pode não te encantar, assim como o que me aterroriza, pode não lhe causar nenhum terror. Portanto, a pergunta precisa ser feita: que consenso macabro leva o público a fazer do gênero de terror/horror um dos mais bem sucedidos nas bilheterias mundiais, se o medo é um sentimento tão singular?

A sétima arte tem sua existência apoiada categoricamente nas emoções humanas, absorvendo sensos culturais e estéticos com o intuito de criar ilusões da realidade. A sociedade define em conjunto o que lhe causa determinada emoção e o cinema cria algo especialmente feito para atingi-las, sejam elas amor, alegria ou nesse caso medo. 

O medo, que nos acompanha desde nossos ancestrais mais longínquos, é uma reação natural de nosso organismo para quando algo nos ameaça, ajudando nossa sobrevivência. Sua origem se confunde com a nossa própria, sendo construído de forma complexa pelas nossas crenças e singularidades, que juntas fazem monstros e outrem serem temidos. 

Esse reflexo emocional pode nos ser causado de forma proposital, como é o caso do cinema que, desde a estréia de O Gabinete do Dr. Caligari em 1920, possibilita ao público poder buscar sua dose de adrenalina assistindo a um filme de terror. Nos últimos cem anos, milhares de longas assustadores foram lançados, cada um com suas particularidades, o que fez o gênero ter que se dividir em categorias que visam agradar todos os públicos. 

Desde os sangrentos subgêneros slasher e gore, até os conceituais filmes góticos e thrillers, o cinema de terror busca atingir seu objetivo: causar medo ao maior público possível. Tal meta implica em constantes reinvenções, o que inclui até mesmo subgêneros clássicos como é o caso recente de reinvenção do terror psicológico. 

Tendo como precursores Roman Polanski com O Bebê de Rosemary de 1968, Dario Argento com Suspiria de 1977 e Stanley Kubrick com O Iluminado de 1980, o terror psicológico é conhecido por perturbar seu público, com cenas chocantes que causam desconforto, apreensão, e claro, medo. Uma nova geração de diretores vêm chamando a atenção nos últimos anos com produções tão perturbadoras quanto excelentes: Robert Eggers, Ari Aster e Jordan Peele são os responsáveis por inovar esse gênero já tão inchado e convencional.

Robert Eggers:

Iniciando com A Bruxa em 2015, Eggers traz conceitos tradicionais do terror como bruxaria e o sobrenatural, em uma nova roupagem visualmente atraente construída de forma vagarosa. Ao longo das mais de uma hora e meia de filme, o diretor consegue desenvolver seus personagens sem perder os momentos de tensão, criando na atmosfera do próprio cenário o medo do desconhecido. O farfalhar das folhas causa tanta apreensão quanto as cenas de violência explícita, sendo méritos do diretor que por sinal estreava no comando de um longa metragem na recém inaugurada produtora A24.

Terror psicológico em A Bruxa (2015)

O diretor voltaria a reprisar a parceria de sucesso com a produtora em 2019, com o longa O Farol. Composto de um elenco diminuto, o filme é estrelado por Willem Dafoe e Robert Pattinson, e traz o enlouquecimento como guia norteador para o desenvolvimento da trama. Filmado com lentes 35mm, a belíssima fotografia em preto e branco não é o único destaque do longa, que se encarrega de levar o público ao limite juntamente com os protagonistas. Ao mesmo tempo que o convívio entre ambos se torna insustentável, somos levados ao ápice do desconforto ao mesmo tempo que buscamos hipnotizados pelo desfecho.

Terror psicológico em O Farol (2019)

Jordan Peele:

Falando em hipnose, em 2017 foi a vez de Jordan Peele causar alvoroço com o inquietante Corra!, filme que traz como temática principal o racismo estrutural norte-americano. Abordar o tema sob o olhar do gênero de terror, possibilita ao diretor  ultrapassar as “barreiras” e trazer em foco questões pertinentes ao período atual, como sequestro, tráfico humano, tortura, escravidão entre outras barbáries. 

Terror psicológico em Corra! (2017)

A atmosfera apreensiva preenche cada cena, realçada pela interpretação brilhante do protagonista vivido por Daniel Kaluuya. Peele sabe aproveitar os momentos de câmera estática em close-ups aterrorizantes, como consegue alimentar a tensão com câmera-lenta e transições rápidas. O filme foi indicado a quatro Oscars (melhor filme, direção, ator e roteiro original), levando a estatueta de melhor roteiro para Jordan Peele, que se tornou o primeiro negro a vencer a categoria. 

Embalado pelo sucesso estrondoso de seu antecessor, o diretor traz aos cinemas em 2019 seu mais novo pesadelo: Nós, estrelado por Lupita Nyong’o, Winston Duke e Elisabeth Moss. O filme traz em sua trama o conceito alemão do Doppelgänger, a cópia do mau que cada um de nós possui. Ao conceituar de forma tão explícita a dualidade de seus personagens, o diretor possibilita um verdadeiro show de atuações excepcionais do elenco, com destaque para as atrizes. Em especial temos as protagonistas, ambas vividas magistralmente por Lupita Nyong’o, que transita da vítima à ameaça em segundos de cena. 

Terror psicológico em Nós (2019)

O ponto central da trama é novamente a questão social norte-americana – e por que não mundial – de classes, onde são notórias as discrepâncias de oportunidades, direitos e privilégios entre as camadas da sociedade. O diretor consegue realizar essa crítica sem perder a essência do terror psicológico: perturbar seu público. O jogo de câmeras e a transição fluida entre cenas, realça o talento de Peele em manipular as emoções do espectador, possibilitando uma avalanche de sentimentos no desenrolar da trama.

Ari Aster:

Voltando a falar sobre a produtora favorita dos cinéfilos de plantão atualmente, a A24, que é responsável pelo surgimento deste outro incrível diretor. Em 2018 chegava aos cinemas Hereditário, filme que marcou a estréia de Ari Aster na direção e de um dos melhores filmes do gênero na década. O longa traz conceitos frequentemente citados quando tratamos de terror, como seitas e o sobrenatural, mas o diretor vai além. 

Terror psicológico em Hereditário (2018)

Assim como seus colegas diretores contemporâneos, Aster traz camadas mais profundas além do terror explícito, como as tragédias familiares ocasionam traumas que persistem de forma geracional. Envolto em uma atmosfera apreensiva e por vezes aterrorizante, o diretor desenvolve seus personagens de forma coesa abrindo a possibilidade para as interpretações do forte elenco brilharem, em especial de Toni Collette que fornece uma montanha-russa de emoções em diversas cenas de tirar o fôlego. 

Já em Midsommar, quem dá um show de atuação é Florence Pugh, que ao longo das quase duas horas e meia deste filme, entrega com maestria tudo que é necessário para imergir o público na trama. Aster conduz o filme de forma vagarosa aqui, tudo em seu devido tempo, para que nenhum detalhe passe despercebido. Todos os olhares, estranhezas e apreensões são mostrados ao público que ainda assim não se vê diante de um longa completamente expositivo. 

Terror psicológico em Midsommar (2019)

O diretor consegue manipular o público de forma que, mesmo desconfiando do destino, permanece sem ter a certeza após o final. A fotografia encantadora realçada por um cenário paradisíaco, ajuda a aumentar essa excelente contradição, pois muda-se a formatação padrão do gênero, onde escuridão remete a perigo, ao medo. Tudo aqui aterroriza, mesmo em plena luz do dia.

A inovação aqui proposta por esses diretores, vai muito além de se diferir dos filmes atuais. Estamos presenciando o nascimento de uma nova geração do terror psicológico, com muito talento e disposição para mudar o curso tradicional de todo um gênero centenário. Portanto, fica aqui nossa recomendação dessas seis produções aterrorizantes, no melhor sentido da palavra. Até a próxima!