Kento Nanami sempre soube que trabalhar além do horário era uma maldição. Agora, seu dublador precisou enfrentar outra: uma inteligência artificial fazendo hora extra com sua voz sem autorização.
O Tribunal Distrital de Tóquio reconheceu que o uso comercial de uma voz artificialmente semelhante à de Kenjiro Tsuda pode violar os direitos de publicidade do artista. É a primeira decisão judicial japonesa a admitir que a identidade vocal merece esse tipo de proteção.
Tsuda é conhecido pelo barítono que empresta a personagens como Kento Nanami, de Jujutsu Kaisen, e Seto Kaiba, de Yu-Gi-Oh!. A sentença foi proferida pela juíza Aya Takahashi em 30 de setembro.
A voz era artificial, o lucro não

O processo envolvia uma conta anônima do TikTok chamada “Nanami”, cuja imagem também lembrava o personagem de Jujutsu Kaisen. Entre julho de 2024 e setembro de 2025, o perfil publicou 188 vídeos sobre lendas urbanas, fenômenos paranormais e teorias da conspiração.
As gravações utilizavam uma voz gerada por inteligência artificial muito semelhante à de Tsuda. Nos comentários, usuários apontavam repetidamente a semelhança com o ator.
Em novembro de 2025, a conta já havia superado 200 mil seguidores. A equipe de Tsuda argumentou que o perfil atraía público e receita justamente por explorar o reconhecimento de seu barítono.
Ademais, o TikTok sustentou que os vídeos utilizavam uma voz masculina genérica, que apenas parecia com a do ator, e que o conteúdo não prejudicava sua reputação profissional.
O tribunal reconheceu a personalidade por trás do som
Ao analisar o caso, Aya Takahashi afirmou que a voz humana pode simbolizar a personalidade de alguém da mesma maneira que um retrato.
Consequentemente, uma imitação não precisa utilizar uma gravação original para produzir uma violação. Se a voz sintética for reconhecível e empregada com a intenção evidente de explorar comercialmente a identidade do artista, o direito de publicidade pode ser aplicado.
Dessa forma, esse direito permite que uma pessoa controle e obtenha benefícios econômicos sobre elementos reconhecíveis de sua identidade, como nome, imagem e, agora, em determinadas circunstâncias, a própria voz.
Portanto, o argumento “não é a voz dele, apenas parece” não recebeu o selo de aprovação do tribunal. A IA copiou o timbre, mas acabou reproduzindo também um processo judicial.
Vitória sem botão de apagar
Apesar do precedente, Tsuda obteve apenas uma vitória parcial.
O ator havia solicitado que o TikTok removesse a conta e os vídeos. Entretanto, o material foi apagado logo depois do início do processo, tornando desnecessária uma ordem judicial de exclusão.
A decisão também não criou uma lei específica contra clonagem de voz nem proibiu automaticamente qualquer imitação realizada por inteligência artificial. A proteção foi reconhecida porque o tribunal identificou intenção comercial de aproveitar o apelo da voz de Tsuda.
Sendo assim, paródias, imitações sem finalidade econômica e outros usos ainda dependerão das circunstâncias de cada caso. O domínio judicial abriu, mas não engoliu a internet inteira.
Um precedente que atravessa o mundo geek

A sentença possui peso especial na indústria japonesa de entretenimento. Diferentemente de mercados nos quais dubladores permanecem quase invisíveis, os seiyū frequentemente desenvolvem carreiras como celebridades, cantores, apresentadores e atrações de eventos.
Suas vozes tornam-se marcas construídas durante anos de treinamento. Cloná-las pode afetar trabalhos em animes, jogos, audiolivros, publicidade e música, justamente os setores nos quais esses profissionais dependem do reconhecimento vocal.
Em 2024, atores japoneses já haviam lançado a campanha “No More”, exigindo proteção contra o uso não autorizado de rostos e vozes por ferramentas generativas. O caso de Tsuda oferece agora uma primeira resposta concreta do Judiciário.
Por fim, a decisão ainda poderá ser discutida em instâncias superiores e não resolve toda a relação entre IA e trabalho artístico. Mesmo assim, estabelece um recado difícil de ignorar: uma voz sintética não deixa de explorar uma pessoa real apenas porque saiu de um algoritmo.
Kenjiro Tsuda não precisou invocar nenhum Dragão Branco de Olhos Azuis. Bastou abrir o domínio judicial e mostrar que, quando a IA copia uma voz famosa para lucrar, o microfone também pode virar prova.
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