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Manual Prático de Vinganças Lucrativas | Confira nossa review

Se no pós-guerra britânico a aristocracia era o alvo preferido da ironia elegante, em 2026 o bilionário é o novo duque — e o sangue continua sendo o método mais direto de ascensão social. Manual Prático da Vingança Lucrativa (título internacional: How to Make a Killing) pega a espinha dorsal do clássico humor negro sucessório e a injeta com ansiedade millennial, capitalismo tardio e um protagonista que sorri como quem vende startup — enquanto cava sete covas.

Ficha Técnica
Título: Manual Prático Da Vingança Lucrativa
Ano de Produção: 2026
Dirigido Por: John Patton Ford
Estreia: 26 de Fevereiro de 2026
Duração: 1h40m
Classificação: 16
Gênero: Humor Negro/Thriller
País de Origem: Estados Unidos
Sinopse: Renegado ao nascer por sua família rica, Becket Redfellow não mede esforços para recuperar sua herança, não importa quantos parentes fiquem em seu caminho.

 

Um Conto Curioso

Dirigido com ritmo afiado e estética de thriller financeiro polido, o filme acompanha Becket Redfellow (Glen Powell), filho da herdeira deserdada que decide transformar ressentimento em plano de negócios. O objetivo? Eliminar, um a um, os parentes que o separam de uma fortuna obscena. O diferencial aqui não está apenas na contagem de corpos, mas na embalagem: cada morte funciona como uma sátira personalizada do arquétipo que a vítima representa.

O primo influencer morre como viveu — superficial e performático. O artista pretensioso é vítima da própria aura de superioridade. O pastor moralista encontra um fim que desmonta sua fachada pública. A tia autoritária cai como quem tropeça no próprio pedigree. O magnata corporativo sucumbe num arranjo que parece auditoria divina. O tio “bondoso” é o ponto de inflexão moral — ou quase — da narrativa, aquele momento em que o roteiro testa se Becket ainda possui algo semelhante a um coração. E o patriarca? O confronto final transforma herança em duelo ideológico: velho dinheiro versus ambição ressentida.

Arrependimentos?

É aqui que o filme revela seu maior trunfo e sua maior limitação. Ao contrário do cinismo quase clínico do original, esta versão insiste em oferecer fissuras emocionais ao protagonista. Becket hesita? Talvez. Arrepende-se? Não exatamente. O roteiro flerta com a ideia de conflito moral, mas nunca a abraça de verdade. Ele não é um sociopata puro — é um oportunista racionalizado. O problema é que, ao tentar humanizá-lo, o filme dilui parte da acidez que tornaria a jornada mais desconfortável (e, paradoxalmente, mais honesta).

O triângulo amoroso sintetiza essa tensão. Julia (Margaret Qualley) é a chama cúmplice: ambiciosa, ambígua, sedutora na medida exata do perigo. Ela não apenas deseja Becket — deseja o que ele pode se tornar. Já Ruth (Jessica Henwick) encarna o contraponto moral, a possibilidade de uma vida comum, quase banal. Não se trata apenas de duas mulheres disputando um homem, mas de dois futuros competindo por uma consciência. E o filme é mais interessante quando transforma romance em campo de batalha ético.

A Imagem Diz Tudo

Visualmente, a obra aposta numa sofisticação fria: mansões minimalistas, jantares silenciosos, closes que capturam microexpressões de cálculo. Há algo de thriller corporativo misturado com comédia de costumes — uma combinação que funciona melhor nas mortes mais irônicas do que nos momentos introspectivos. Quando abraça o humor negro, o filme brilha; quando tenta ser drama psicológico, perde parte da mordida.

Inevitável falar do ancestral ilustre. Kind Hearts and Coronets (lançado no Brasil como As Oito Vítimas) é uma obra-prima de elegância cruel. Lá, o protagonista eliminava seus obstáculos com uma frieza quase burocrática, enquanto a sátira à aristocracia britânica era tão seca quanto devastadora. A grande diferença? O clássico não pede desculpas. Não oferece redenção emocional. Não suaviza seu anti-herói. Já Manual Prático da Vingança Lucrativa é filho de seu tempo: precisa justificar, contextualizar, “psicologizar”. Se o original era um sorriso envenenado, o novo é um pitch deck com manchas de sangue.

Veredicto Final

No fim, o filme funciona como retrato ácido do sonho americano distorcido: meritocracia como desculpa para eliminar concorrentes — literalmente. Não é tão cirurgicamente cruel quanto o clássico, mas tem energia, charme e um protagonista carismático o suficiente para fazer você torcer — ainda que contra seu próprio juízo.

E talvez essa seja sua maior ironia: em 1949, matar por título era absurdo aristocrático. Em 2026, matar por bilhões soa quase como estratégia de mercado.

 

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