Parece que alguém tentou pular algumas etapas da missão.
Primeiro, França e Arábia Saudita anunciaram um investimento de aproximadamente € 6 bilhões para desenvolver um gigantesco complexo de lazer em Cergy-Pontoise, na região de Paris.
Logo depois, autoridades francesas começaram a associar o projeto a Dragon Ball, e a notícia rapidamente virou aquilo que qualquer fã gostaria de ler: Goku teria seu próprio parque temático na França.
Havia apenas um pequeno detalhe: ninguém havia garantido as Esferas do Dragão.
Segundo apuração do Le Monde, a Qiddiya Investment Company ainda não obteve autorização dos detentores japoneses dos direitos para utilizar a marca, os personagens e o universo de Dragon Ball no empreendimento francês.
Ou seja, o parque existe como projeto; o dinheiro existe; o terreno está no radar, mas Goku ainda depende da papelada.
O investimento bilionário é real

Aqui é importante separar o Kamehameha do ki imaginário.
O acordo franco-saudita é concreto. O comunicado oficial do Palácio do Eliseu confirma a intenção da Qiddiya Investment Company de desenvolver em Cergy-Pontoise um grande complexo misto reunindo entretenimento, lazer, hotéis, cultura e esporte.
O planejamento prevê até três grandes atrações principais, com investimento total de aproximadamente € 6 bilhões ao longo do desenvolvimento.
A França também informou que o projeto pode gerar cerca de 22 mil empregos.
O que o documento oficial não diz? “Dragon Ball”. Nem Goku, Vegeta ou sequer um Kuririn escondido atrás de uma vírgula.
Então de onde apareceu Dragon Ball?
A associação veio de autoridades e assessores franceses durante a visita do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman.
A Reuters noticiou inicialmente o empreendimento como um parque inspirado em Dragon Ball Z, citando o Palácio do Eliseu e assessores de Emmanuel Macron. Segundo essas fontes, a ideia teria surgido a partir do interesse compartilhado de Macron e Mohammed bin Salman pela obra de Akira Toriyama.
A presidente da região de Île-de-France, Valérie Pécresse, foi ainda mais longe em uma publicação pública, afirmando que Dragon Ball estava chegando à região parisiense e que Son Goku teria seu próprio parque.
Naturalmente, a internet fez o que a internet faz:
“Possível projeto ligado a Dragon Ball” virou rapidamente:
PARQUE DE DRAGON BALL CONFIRMADO NA FRANÇA.
Pois é… Shenlong nem teve tempo de perguntar qual era o desejo.
Só esqueceram de conversar com quem possui Dragon Ball

De acordo com várias fontes ouvidas pelo Le Monde, contudo, a autorização necessária ainda não havia sido concedida.
E conseguir essa licença não parece exatamente equivalente a comprar uma camiseta oficial.
Os direitos relacionados à obra de Akira Toriyama envolvem uma estrutura complexa com empresas como Shueisha, Toei Animation, Bird Studio e Bandai Namco. Além disso, companhias japonesas costumam manter controle rigoroso sobre a utilização internacional de personagens e propriedades intelectuais.
Há ainda uma ironia particularmente saborosa: o comunicado conjunto oficial publicado por França e Arábia Saudita confirma Qiddiya, Cergy-Pontoise, os parques e os € 6 bilhões, mas não associa formalmente nenhuma das atrações a Dragon Ball.
É quase como anunciar o Torneio do Poder antes de convidar os universos participantes.
A publicidade pode ter complicado a própria negociação
O Le Monde aponta outra consequência possível.
Transformar uma negociação ainda em andamento em algo publicamente apresentado como certo pode prejudicar as tratativas com os detentores da licença, especialmente porque empresas japonesas costumam ser cuidadosas quanto à forma como suas propriedades são utilizadas por terceiros.
Isso não significa que o parque de Dragon Ball esteja morto.
Também não significa que a licença será recusada.
Significa apenas que a fase em que estamos é bem diferente daquela sugerida pelas primeiras manchetes.
A Qiddiya pode conseguir os direitos posteriormente e efetivamente construir a atração.
Só não podemos visitar a Capsule Corp ainda.
O caso é curioso porque Qiddiya já conhece esse caminho
Existe outro detalhe que torna tudo ainda mais interessante.
A Qiddiya já conseguiu anteriormente um acordo para desenvolver um parque oficial de Dragon Ball na Arábia Saudita. Portanto, a empresa não chegou à franquia ontem nem está simplesmente desenhando Goku num guardanapo e esperando que ninguém perceba.
Isso certamente torna plausível uma futura negociação para a França.
Mas plausível continua sendo diferente de autorizado.
Até Vegeta entende diferença de nível de poder.
Por enquanto, Paris ganhou três parques. Goku continua no lobby
A história é um ótimo exemplo de como uma informação pode mudar enquanto atravessa governos, assessorias, agências de notícias e redes sociais.
O fato original era enorme por si só: um investimento saudita de € 6 bilhões para criar um grande destino de entretenimento perto de Paris, com até três atrações principais.
Depois surgiu a associação com Dragon Ball.
Autoridades francesas falaram abertamente na franquia.
Veículos internacionais trataram o parque como confirmado.
Por fim, uma apuração posterior encontrou justamente a peça que faltava:a licença.
Então sim, ainda podemos imaginar montanhas-russas da Nuvem Voadora, simuladores de Kamehameha e crianças gastando o salário dos pais numa Capsule Corp Store.
Só não reserve a passagem para encontrar Goku em Cergy-Pontoise ainda.
O projeto bilionário está de pé; a intenção aparentemente também.
Mas, antes de construir o parque de Dragon Ball, alguém ainda precisa completar a missão mais difícil de todas: reunir as assinaturas antes das sete Esferas.
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