O universo geek acordou com Eternia um pouco mais vazia: Jon Cypher, ator que atravessou mais de cinco décadas entre televisão, cinema e teatro e ficou eternizado como Duncan, o Mentor de Mestres do Universo, morreu aos 94 anos.
Uma última jornada
Cypher morreu no dia 3 de agosto, em sua casa em Central Point, no Oregon, Estados Unidos. A notícia, no entanto, só ganhou ampla repercussão na imprensa nesta semana.
Segundo informações divulgadas pela família, o ator estava acompanhado da esposa, Carol Rosin, no momento da morte. A causa não foi revelada.
Para diferentes gerações, o rosto de Cypher pode despertar lembranças bastante distintas. Os fãs dos dramas policiais provavelmente o reconhecerão como o chefe de polícia Fletcher Daniels, de Hill Street Blues — exibida no Brasil como Chumbo Grosso.
Já para quem cresceu sob os poderes de Grayskull, não há muita dúvida: ele é Duncan, o Mentor (Man-At-Arms) do filme Mestres do Universo, de 1987.
Antes de Eternia, havia um príncipe

Jon Cypher nasceu em 13 de janeiro de 1932, em Nova York, e se formou no Brooklyn College em 1953. Sua história diante das câmeras começou de uma maneira que pouca gente consegue colocar no currículo: como um príncipe ao lado de Julie Andrews.
Em 1957, ele interpretou Príncipe Christopher na transmissão televisiva ao vivo de Cinderella, musical de Rodgers e Hammerstein protagonizado por Andrews. Ademais, o especial se transformou em um fenômeno da televisão norte-americana: estimativas da época apontam uma audiência superior a 100 milhões de pessoas. Nada mal para uma estreia.
Mas Cypher não fez das telas sua única casa. O teatro ocupou parte importante de sua carreira, incluindo trabalhos na Broadway. Entre as montagens das quais participou estão The Night of the Iguana, Man of La Mancha, The Great White Hope e 1776. Seu último trabalho na Broadway foi no musical Big, em 1996.
Já no cinema, ganhou destaque em 1971 com o faroeste Valdez Is Coming (Quando os Bravos se Encontram), no qual interpretou Frank Tanner e contracenou com Burt Lancaster.
A televisão, entretanto, acabaria transformando Cypher em presença recorrente na sala de milhões de espectadores.
Do distintivo à espada de Eternia
Entre 1981 e 1987, Cypher viveu Fletcher Daniels em mais de 70 episódios de Hill Street Blues. O personagem fazia parte de uma das produções policiais mais premiadas da televisão norte-americana: a série conquistou 26 Emmys, incluindo quatro vitórias consecutivas como Melhor Série Dramática.
Só que 1987 reservaria a Cypher um passaporte para outro tipo de imortalidade.
Em Mestres do Universo, primeiro longa live-action baseado no universo de He-Man, ele assumiu o papel de Duncan/Man-At-Arms, conhecido no Brasil como Mentor. Era o guerreiro, inventor e aliado de He-Man na batalha contra as forças de Esqueleto. Dolph Lundgren interpretava o herói, enquanto Frank Langella assumia o papel do vilão.
O filme de 1987 não conquistou a glória comercial quando chegou aos cinemas, mas o tempo fez aquilo que o tempo adora fazer com certas produções: transformou o longa em objeto de nostalgia e culto entre fãs da cultura pop dos anos 1980.
Relembre sua trajetória
De príncipe encantado a policial, de adversário de Burt Lancaster a guerreiro de Eternia: a carreira de Jon Cypher dificilmente poderia ser acusada de monotonia. Relembre alguns de seus trabalhos mais marcantes:
- 1957 — Cinderella — Príncipe Christopher
Na histórica adaptação televisiva ao vivo do musical de Rodgers e Hammerstein, interpretou o príncipe ao lado da Cinderela de Julie Andrews. Foi sua estreia na televisão e colocou o ator diante de uma audiência gigantesca. - 1971 — Valdez Is Coming (Quando os Bravos se Encontram) — Frank Tanner
No faroeste estrelado por Burt Lancaster, viveu o poderoso rancheiro Frank Tanner, figura central no conflito enfrentado por Bob Valdez. - 1977–1979 — As the World Turns — Dr. Alex Keith
Cypher entrou também no universo das soap operas norte-americanas, interpretando o médico Alex Keith na longeva produção televisiva. - 1981 — General Hospital — Max Von Stade
Na famosa novela norte-americana, interpretou Max Von Stade durante a célebre trama envolvendo a família Cassadine. - 1981–1987 — Hill Street Blues (Chumbo Grosso) — Chefe Fletcher Daniels
Um dos papéis mais conhecidos de sua carreira. Daniels era o chefe de polícia da premiada série policial e garantiu ao ator presença recorrente durante boa parte da produção.
De Chumbo Grosso às batalhas de Eternia
- 1987 — Mestres do Universo — Duncan/Man-At-Arms (Mentor)
O papel que o colocou definitivamente no radar dos geeks. Duncan é um dos principais aliados de He-Man, guerreiro e inventor de Eternia. Cypher contracenou com Dolph Lundgren, Frank Langella, Chelsea Field e outros nomes do longa. - 1988–1989 — Santa Barbara — Dr. Arthur Donnelly
Retornou às soap operas como o Dr. Arthur Donnelly na produção vencedora de vários Daytime Emmys. - 1990–1993 — Major Dad — General Marcus Craig
Outra participação de longa duração na televisão na qual interpretou o general Marcus Craig durante os três últimos anos da sitcom protagonizada por Gerald McRaney. - 1999–2000 — Batman Beyond — Spellbinder/Ira Billings
Ele ainda deixou sua voz no universo da DC. Na animação futurista do Batman, dublou Spellbinder, identidade criminosa do psicólogo Ira Billings, vilão capaz de manipular suas vítimas por meio de ilusões.
Enfim, ao longo da carreira, o ator ainda passou por séries como Missão: Impossível, Bonanza, A Super Máquina, Dallas, Dinastia, Knots Landing, Law & Order, Walker, Texas Ranger, JAG e Assassinato por Escrito.
As cortinas se fecham, a jornada continua
Pois é, Jon Cypher começou a carreira como um príncipe em uma televisão ainda aprendendo do que era capaz.
Depois vieram os palcos, os faroestes, os distintivos, as novelas, as comédias e, finalmente, uma viagem a Eternia que o colocaria na memória de uma geração completamente diferente daquela que o conheceu ao lado de Julie Andrews.
Poucos atores conseguem atravessar tantas décadas e deixar lembranças tão distintas pelo caminho.
Dessa forma, para alguns, Cypher sempre será Fletcher Daniels; para outros, aquele príncipe de Cinderella. Já para os geeks que cresceram com He-Man, porém, basta uma armadura, um bigode e o nome Duncan para a memória fazer o resto.
E talvez seja justamente aí que esteja a parte bonita de uma carreira de mais de cinco décadas: o ator se vai, mas alguns personagens simplesmente se recusam a ir embora. Descanse em paz.
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