A estrada era longa. No caso dos The Hollies, muito longa.
Afinal, foram mais de seis décadas atravessando mudanças de formação, transformações na indústria, gerações diferentes de fãs e um catálogo capaz de colocar “Bus Stop”, “Long Cool Woman (In A Black Dress)”, “The Air That I Breathe” e “He Ain’t Heavy, He’s My Brother” no mesmo setlist sem precisar explicar por que aquelas músicas ainda estavam ali.
Agora, porém, essa estrada chegou ao fim.
Os Hollies confirmaram que não voltarão a fazer turnês. Tony Hicks, guitarrista e integrante da banda desde 1963, decidiu abandonar os palcos por motivos de saúde.
Em seguida, Bobby Elliott, baterista que entrou no grupo naquele mesmo ano, escolheu se aposentar das apresentações em respeito ao companheiro com quem dividiu praticamente toda a história da formação clássica.
Consequentemente, não estamos diante de dois músicos contratados deixando uma banda antiga.
São dois homens que estavam lá quando boa parte das músicas que hoje chamamos de clássicas ainda nem havia sido gravada.
Tony parou. Bobby decidiu que também era hora
O comunicado publicado pelo grupo é curto, porém carrega um peso que os números ajudam a dimensionar.
Segundo a banda, Hicks optou por se afastar das turnês por razões de saúde. Diante da decisão, Elliott também resolveu encerrar sua trajetória ao vivo, levando em consideração tudo o que os dois compartilharam ao longo de uma jornada extraordinariamente longa.
Por fim, os Hollies resumiram o encerramento com gratidão aos fãs que os acompanharam ao redor do mundo.
Hicks tem 80 anos. Elliott, 84. Ambos ingressaram nos Hollies em 1963, apenas um ano depois da formação do grupo em Manchester. Desde então, permaneceram como dois dos pilares instrumentais mais constantes de uma banda que mudou diversas vezes ao redor deles.
Por isso, talvez a decisão de Bobby diga tanto quanto a questão de saúde de Tony.
Depois de mais de seis décadas dividindo palcos, estúdios e aeroportos, um resolveu que não podia mais continuar.
O outro aparentemente decidiu que não fazia sentido seguir sem ele.
O último show acabou sendo bem menor do que a despedida
Curiosamente, não houve uma grande noite de despedida com duas horas de repertório, convidados especiais e telão mostrando fotografias antigas.
Segundo o Stereogum e registros de setlist, a última apresentação dos Hollies aconteceu em 9 de janeiro de 2026, em Scottsdale, no Arizona. Foi um set curto, com apenas quatro músicas: “On a Carousel”, “Long Cool Woman in a Black Dress”, “The Air That I Breathe” e “He Ain’t Heavy, He’s My Brother”.
Além disso, aquele show havia marcado o retorno do grupo aos palcos depois da turnê de 2023. Naquele momento, naturalmente, ninguém sabia que aquelas quatro músicas acabariam funcionando como epílogo.
O encerramento, portanto, não teve confete.
Teve justamente quatro canções que ajudam a contar boa parte do motivo pelo qual a banda conseguiu permanecer relevante durante tanto tempo.
E talvez haja algo estranhamente adequado em terminar com “He Ain’t Heavy, He’s My Brother”.
Antes de a estrada ficar pesada, ela começou em Manchester

Os Hollies nasceram em Manchester, em 1962, inicialmente ao redor de Allan Clarke e Graham Nash. Logo depois chegaram Tony Hicks e Bobby Elliott, enquanto a formação foi se consolidando durante um período em que grupos britânicos começavam a atravessar o Atlântico em escala quase industrial.
O diferencial aparecia principalmente nas harmonias vocais.
Enquanto outras bandas da chamada Invasão Britânica apostavam mais fortemente no blues, no rock cru ou numa imagem rebelde, os Hollies desenvolveram um som construído sobre melodias extremamente acessíveis, refrões fortes e vozes cuidadosamente combinadas.
O Rock & Roll Hall of Fame resume bem o resultado: foram 22 singles nas paradas, colocando o grupo entre os nomes comercialmente mais bem-sucedidos daquela geração britânica.
Primeiro vieram músicas como “Stay”, “Just One Look” e “I’m Alive”. Depois, “Look Through Any Window” ajudou a ampliar a presença internacional, enquanto “Bus Stop” consolidou o avanço nos Estados Unidos.
A estrada começava a ficar longa… Só que ainda ninguém imaginava quanto.
Bus Stop fez o ônibus atravessar o Atlântico
“Bus Stop”, lançada em 1966, tornou-se uma das gravações mais reconhecíveis da primeira fase dos Hollies e ajudou a definir a sonoridade que acompanharia o grupo durante os anos seguintes.
Ao lado dela chegaram canções como “Stop! Stop! Stop!”, “On a Carousel” e “Carrie Anne”, várias delas ligadas diretamente à parceria de composição entre Clarke, Nash e Hicks.
Entretanto, a história mudaria em 1968.
Graham Nash deixou os Hollies e seguiu para os Estados Unidos, onde se juntaria a David Crosby e Stephen Stills para formar Crosby, Stills & Nash.
Para muitas bandas, perder um integrante tão importante poderia ter representado o começo do fim.
Os Hollies resolveram simplesmente continuar.
Graham Nash saiu; os hits não
Após a partida de Nash, Terry Sylvester entrou na formação, enquanto o grupo iniciou outro período comercialmente muito forte.
Foi nessa fase que chegaram algumas de suas gravações mais duradouras.
“He Ain’t Heavy, He’s My Brother” alcançou o terceiro lugar no Reino Unido e o sétimo nos Estados Unidos. Mais tarde, “Long Cool Woman (In A Black Dress)” chegou ao segundo lugar da parada norte-americana, enquanto “The Air That I Breathe” alcançou a sexta posição.
Uma curiosidade especialmente boa atravessa “He Ain’t Heavy”.
O piano da gravação foi tocado por um jovem músico que ainda não havia se tornado uma das maiores estrelas do planeta: Elton John.
Nesse período, Hicks continuava na guitarra.
E Elliott permanecia atrás da bateria.
Décadas depois, eles ainda estariam fazendo exatamente isso.
Tony Hicks estava em praticamente todas as fases
A longevidade de Hicks merece um capítulo próprio.
Antes dos Hollies, ele tocava no The Dolphins, grupo que também contou com Bobby Elliott e Bernie Calvert. Quando o empresário dos Hollies tentou recrutá-lo, Tony inicialmente resistiu. Segundo a história registrada no próprio site oficial, acabou aceitando, enquanto Elliott também fez a transição para o novo conjunto.
Na banda, Hicks assumiu muito mais do que guitarra.
O músico tocou banjo, mandolim e sitar elétrico, participou dos vocais e esteve diretamente ligado à composição de diversas faixas importantes.
Consequentemente, sua saída das turnês não representa apenas a aposentadoria do guitarrista de uma formação atual.
Ela remove do palco alguém conectado aos Hollies desde o momento em que o grupo ainda estava descobrindo qual seria sua própria identidade.
Bobby Elliott segurou a batida desde 1963
Se Hicks ajudou a construir a linguagem melódica e instrumental, Bobby Elliott garantiu que tudo continuasse andando.
O baterista entrou para os Hollies também em 1963 e permaneceu na função durante praticamente toda a trajetória de gravações e apresentações posteriores.
Sua história com Tony, aliás, começou antes.
Elliott já tocava com Hicks nos Dolphins e, segundo seu relato, quando Tony recebeu a oferta para ingressar nos Hollies, condicionou a mudança à entrada do baterista. Pouco depois, Bobby estava gravando nos estúdios Abbey Road.
Mais de sessenta anos depois, existe uma simetria quase cinematográfica.
Tony entrou levando Bobby com ele.
Agora Tony sai.
E Bobby novamente decide acompanhá-lo.
Os Hollies sobreviveram às próprias formações
Essa estabilidade da dupla chama ainda mais atenção quando observamos tudo o que mudou ao redor dela.
Allan Clarke deixou de atuar regularmente com o grupo no início dos anos 2000. Depois disso, Peter Howarth assumiu os vocais em 2004, enquanto Steve Lauri também passou a integrar a formação. Ray Stiles já estava no baixo desde 1986 e Ian Parker, nos teclados, desde 1991.
Mesmo assim, Hicks e Elliott continuavam servindo como ligação direta com os anos 1960.
Dessa forma, alguém que comprasse ingresso para ver os Hollies em tempos recentes não estava simplesmente assistindo a uma banda tributo oficialmente licenciada.
Havia no palco dois integrantes que participaram da era clássica e ajudaram efetivamente a construir aquelas gravações.
Agora essa ponte se fecha.
O Rock Hall reconheceu uma história que ainda estava acontecendo
Em 2010, os Hollies foram introduzidos no Rock & Roll Hall of Fame. Entre os membros reconhecidos estavam Allan Clarke, Graham Nash, Tony Hicks, Bobby Elliott, Bernie Calvert, Eric Haydock e Terry Sylvester.
Naquele momento, entretanto, a carreira ao vivo ainda estava longe de terminar.
Hicks e Elliott seguiram excursionando, enquanto o catálogo continuava encontrando públicos que sequer eram nascidos quando “Bus Stop” apareceu nas rádios.
Essa talvez seja uma das características mais impressionantes dos grupos sobreviventes da Invasão Britânica.
Eles não permaneceram apenas dentro de documentários; continuaram entrando em ônibus, azendo passagefm de som, subindo em palco e tocando músicas com mais de meio século de idade para gente que, em alguns casos, tinha idade para ser neta dos primeiros fãs.
Até que o corpo finalmente cobra aquilo que a história tende a esquecer.
O fim das turnês não significa necessariamente o fim dos Hollies
Aqui está a distinção mais importante do anúncio.
Os Hollies não declararam formalmente que a banda foi dissolvida.
O comunicado afirma especificamente que a carreira de turnês chegou ao fim. Não há decisão anunciada sobre futuras gravações, projetos de arquivo ou qualquer outra atividade em nome do grupo.
Alguns veículos utilizaram expressões como “calling it quits” ou trataram a notícia como encerramento integral da banda. Entretanto, essa leitura vai além das palavras escolhidas no comunicado oficial.
Portanto, o que podemos afirmar com segurança é que não haverá mais The Hollies na estrada.
O resto continua em aberto… Se aparecer música nova algum dia, será outra história.
He Ain’t Heavy. A estrada, aparentemente, era. Por isso, talvez seja inevitável recorrer à música mais sentimental do catálogo.
“He Ain’t Heavy, He’s My Brother” fala sobre continuar carregando alguém porque existe afeto suficiente para que o peso deixe de importar.
Décadas depois, Bobby Elliott tomou uma decisão que parece ecoar involuntariamente esse espírito.
Tony Hicks não podia mais seguir.
Então Bobby decidiu não seguir sozinho.
Não precisamos romantizar a questão de saúde, tampouco fingir que existe algum final planejado poeticamente. O envelhecimento é uma realidade para qualquer artista cuja carreira consiga durar tempo suficiente.
Entretanto, há algo bonito na maneira como esse capítulo se fecha.
Hicks e Elliott chegaram juntos aos Hollies em 1963, atravessaram Graham Nash, atravessaram mudanças de vocalista, viram o vinil perder espaço, o CD dominar, o streaming aparecer e antigas músicas encontrarem novas gerações e foram introduzidos no Rock & Roll Hall of Fame e, mesmo depois disso, continuaram saindo em turnê.
Agora os amplificadores podem finalmente descansar.
O ônibus partiu, mas as músicas não
Talvez a maior prova da longevidade dos Hollies esteja justamente no fato de que boa parte de seu repertório já sobreviveu a inúmeras mudanças culturais.
“Bus Stop” continua reconhecível.
“The Air That I Breathe” ainda aparece em playlists e regravações.
“Long Cool Woman” continua com aquele riff que parece pertencer a uma estrada infinita.
Enquanto isso, “He Ain’t Heavy, He’s My Brother” provavelmente continuará encontrando alguém que precisa ouvir exatamente aquela frase. O Rock Hall não exagera ao colocar o grupo entre os nomes comercialmente mais importantes da Invasão Britânica.
A diferença é que, daqui para frente, essas músicas não viajarão novamente com Tony Hicks e Bobby Elliott dentro de uma van, ônibus ou avião esperando o próximo palco.
Depois de mais de seis décadas, o destino finalmente deixou de ser outra cidade.
Os Hollies chegaram ao último ponto da turnê.
The road was long. Longa o bastante.
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