Gotham precisava de uma voz capaz de carregar o peso do morcego. O Olimpo procurava alguém que soasse heroico sem virar estátua de museu.
Enquanto isso, a Grand Line exigia a confiança de quem corta navios apenas para manter a espada aquecida.
No Brasil, esses universos encontraram o mesmo homem diante do microfone: Ettore Zuim.
O ator, dublador, diretor e professor morreu ontem, dia 4 de setembro, aos 66 anos, deixando mais de quatro décadas de trabalhos no cinema, na televisão, nas animações, nos animes e nos videogames.
Ademais, a notícia foi confirmada pela Associação Brasileira de Dubladores, porém a causa da morte não foi divulgada.
A cabine perdeu uma de suas grandes vozes
Ettore ficou especialmente conhecido por dublar Christian Bale em diversas produções, incluindo Bruce Wayne e Batman na trilogia dirigida por Christopher Nolan. Além disso, tornou-se uma das vozes brasileiras mais associadas a Owen Wilson.
Entretanto, resumir sua carreira a dois atores seria como prender o Batman na Batcaverna por falta de gasolina.
Além disso, sua voz atravessou comédias, dramas, animações da Disney, contos de fadas debochados, aventuras piratas, mundos de fantasia e jogos eletrônicos.
Entre seus personagens estão Hércules, Príncipe Encantado, Senhor do Fogo Ozai, Dracule Mihawk, Patrick Bateman, John Connor e Heiter. Cada papel recebeu uma interpretação própria, apesar de todos nascerem da mesma garganta.
Antes de Gotham, havia uma cabine na Herbert Richers

Nascido no Rio de Janeiro em 11 de janeiro de 1960, Ettore Luiz França Zuim começou a trabalhar com dublagem por volta de 1986, na Herbert Richers, um dos estúdios mais importantes da história do setor no país.
Ao longo da carreira, também atuou como locutor, diretor de dublagem e professor. Dessa forma, seu trabalho não ficou restrito aos personagens que chegaram às telas.
Ettore participou da formação de novos profissionais e ajudou a conduzir produções inteiras nos bastidores.
A versatilidade se tornou uma de suas principais marcas. Ele podia interpretar o herói otimista de uma animação da Disney, assumir a arrogância penteada do Príncipe Encantado e, logo depois, vestir vocalmente a capa de um Batman que precisava fazer até uma pergunta simples soar como interrogatório policial.
Em 2023, o artista tornou público que havia recebido o diagnóstico de Doença Arterial Obstrutiva Periférica em estágio avançado. Entretanto, nenhuma fonte oficial relacionou essa condição à morte, cuja causa permanece não informada.
Relembre sua trajetória

- 1997, Hércules: interpretou a versão adulta do protagonista na animação da Disney, dando ao semideus uma voz que combinava força, ingenuidade e coração de tamanho olímpico.
- 2000, Psicopata Americano: dublou Patrick Bateman, personagem de Christian Bale cuja elegância escondia uma coleção consideravelmente preocupante de cartões de visita e impulsos homicidas.
- 2004, Shrek 2: tornou-se a voz brasileira do Príncipe Encantado, filho da Fada Madrinha e prova definitiva de que beleza, ego e competência nem sempre vêm no mesmo pacote.
- 2005, Penetras Bons de Bico: interpretou John Beckwith, personagem de Owen Wilson, fortalecendo uma parceria vocal que se repetiria em diferentes filmes.
- 2005 a 2012, trilogia O Cavaleiro das Trevas: deu voz a Bruce Wayne e Batman em Batman Begins, Batman: O Cavaleiro das Trevas e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Para muitos brasileiros, foi Ettore quem colocou gravidade na máscara usada por Christian Bale.
- 2007, Shrek Terceiro: retornou como o Príncipe Encantado, agora promovido de filhinho da mamãe a líder sindical dos vilões de contos de fadas.
- 2008, Avatar: A Lenda de Aang: interpretou o Senhor do Fogo Ozai, emprestando autoridade e ameaça ao principal inimigo de Aang.
- 2009, O Exterminador do Futuro: A Salvação: voltou a dublar Christian Bale, desta vez como John Connor, líder da resistência humana contra as máquinas.
- 2011, Meia-Noite em Paris: foi a voz de Gil Pender, personagem de Owen Wilson que descobriu que a nostalgia pode funcionar como máquina do tempo e também como armadilha.
- 2013, Injustice: Gods Among Us e Batman: Arkham Origins: levou sua interpretação do Homem-Morcego aos videogames, mantendo a identidade vocal do personagem além do cinema.
- 2015, Batman: Arkham Knight: voltou a vestir a capa pelo microfone em uma das maiores produções da história dos jogos do herói.
- 2020, One Piece: interpretou Dracule Mihawk na versão brasileira do anime, dando ao maior espadachim do mundo a tranquilidade ameaçadora de quem considera uma batalha apenas uma forma mais barulhenta de passar o tempo.
- 2023, One Piece: A Série: retornou ao personagem na adaptação live-action da Netflix, desta vez acompanhando a atuação de Steven John Ward.
- 2023, Frieren e a Jornada para o Além: emprestou sua voz a Heiter, o sacerdote beberrão e afetuoso que integrou o antigo grupo de heróis e se tornou uma figura fundamental na vida de Fern.
Créditos encerram, vozes não

A dublagem possui uma espécie de magia que nenhum estúdio conseguiu patentear. O artista deixa a cabine, mas continua falando toda vez que alguém aperta o play.
Ettore Zuim talvez não aparecesse fisicamente nas cenas, porém ajudou esses personagens a parecerem nascidos falando português.
Sua interpretação ensinou Hércules a encontrar a própria força, deu a Batman o peso necessário para vigiar Gotham e fez Mihawk soar como alguém capaz de encerrar uma luta antes mesmo de desembainhar a espada.
Por isso, os créditos podem terminar, mas a voz continua teimosamente em cena. Basta voltar ao Olimpo, entrar novamente em Gotham ou navegar pela Grand Line para ouvi-la.
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