Teoria Geek

For Those About to Stop | Chris Slade pendura as baquetas após seis décadas de rock

Chris Slade passou boa parte da vida fazendo aquilo que um baterista de rock deveria fazer: sentar atrás de todo mundo e garantir que ninguém perdesse o rumo.

Foram aproximadamente seis décadas de estrada, passando por Tom Jones, Manfred Mann’s Earth Band, Uriah Heep, David Gilmour, The Firm, Gary Moore, Asia e, claro, AC/DC. Agora, aos 79 anos, o músico galês decidiu que chegou a hora de deixar as baquetas.

Em um vídeo publicado recentemente, Slade anunciou sua aposentadoria da bateria e explicou que as consequências de um AVC sofrido há cerca de sete anos se agravaram. Embora tenha descrito o episódio original como pequeno, o veterano afirmou que os efeitos posteriores acabaram comprometendo sua capacidade de continuar tocando profissionalmente.

A decisão não parece ter sido fácil. Slade admitiu sentir inveja de músicos como Paul McCartney e os Rolling Stones, que continuam ativos depois dos 80, porque desejava seguir o mesmo caminho. No entanto, ao perceber que seu corpo já não acompanhava esse plano, preferiu encerrar a carreira na bateria.

Depois de quase uma vida inteira contando quatro tempos antes de todo mundo entrar, até Mr. Thunderstruck precisou ouvir o próprio corpo.

A história começou muito antes do AC/DC

Nascido em 30 de outubro de 1946, em Pontypridd, no País de Gales, Chris Slade começou profissionalmente ainda adolescente. Aos 16 anos, já tocava com Tom Jones, então acompanhado pelo grupo The Squires. Posteriormente, participou inclusive de “It’s Not Unusual”, sucesso que ajudou a projetar Jones internacionalmente em 1965.

Depois daquela primeira etapa, Slade iniciou uma trajetória quase absurda de conexões com diferentes capítulos da história do rock. No início dos anos 1970, tornou-se um dos integrantes fundadores da Manfred Mann’s Earth Band, permanecendo durante boa parte da década e participando de gravações como “Blinded by the Light”. Em seguida, ainda passou por Uriah Heep e trabalhou com Gary Numan.

Durante os anos 1980, porém, seu currículo ficou ainda mais movimentado. Slade integrou a banda que acompanhou David Gilmour na turnê de About Face e, logo depois, juntou-se a Jimmy Page, Paul Rodgers e Tony Franklin para formar o The Firm. Dois álbuns saíram dessa parceria, enquanto músicas como “Radioactive” levaram o projeto às rádios.

Ou seja, quando o AC/DC telefonou, o sujeito já não precisava exatamente enviar currículo.

Então Malcolm Young viu aquele baterista

Em 1989, Slade estava acompanhando Gary Moore quando chamou a atenção de Malcolm Young. A partir daí, um projeto que pretendia formar com o ex-guitarrista do Aerosmith Rick Dufay acabou ficando para trás, porque surgiu uma oferta ligeiramente difícil de recusar: assumir a bateria do AC/DC.

A entrada ocorreu num momento particularmente importante. Pouco depois, a banda gravaria The Razors Edge, de 1990, álbum que apresentou ao mundo “Thunderstruck” e recolocou o grupo com enorme força comercial no começo daquela década. Slade foi o baterista daquele disco.

Consequentemente, uma das introduções mais reconhecíveis da história do AC/DC também carrega sua batida.

Embora Angus Young seja responsável por conduzir o riff elétrico de “Thunderstruck”, Slade ajuda a transformar a tensão inicial numa locomotiva quando o restante da banda entra. Para milhões de fãs que conheceram o AC/DC naquela fase, aquela formação não era uma passagem menor. Era o AC/DC que estava dominando estádios naquele momento.

Donington transformou a passagem em documento histórico

A importância daquela formação ficou eternizada em Live at Donington, registro do gigantesco show realizado no festival Monsters of Rock, em 1991.

Slade aparece atrás de um kit enorme, bateria montada como se a ideia fosse enfrentar um ataque aéreo, enquanto Angus Young corre quilômetros pelo palco e Brian Johnson tenta sobreviver vocalmente ao repertório. O próprio site do baterista destaca aquela apresentação entre os grandes momentos de seus anos com o grupo.

Mais tarde, ele ainda participou de “Big Gun”, gravada para a trilha de O Último Grande Herói. Sua primeira passagem terminou quando Phil Rudd retornou ao AC/DC para a fase de Ballbreaker.

Porém, a história ainda teria bis.

Vinte anos depois, o telefone tocou novamente

Quando os problemas legais de Phil Rudd impediram sua participação na turnê de Rock or Bust, o AC/DC recorreu a um velho conhecido.

Slade voltou em 2015 e assumiu novamente a bateria nos shows, inclusive durante a fase em que Axl Rose substituiu temporariamente Brian Johnson. Assim, mais de duas décadas depois de The Razors Edge, ele estava outra vez sentado atrás do logotipo mais famoso do rock australiano para tocar diante de dezenas de milhares de pessoas.

Enquanto isso, seu próprio projeto, The Chris Slade Timeline, precisou entrar em pausa. Depois do fim da passagem pelo AC/DC, entretanto, a banda voltou à atividade e permitiu que o baterista revisitasse músicas de praticamente todas as fases de seu currículo.

Até pouco tempo atrás, Slade ainda falava sobre a possibilidade de voltar ao AC/DC caso Angus Young o chamasse novamente. A disposição existia.

O corpo, infelizmente, acabou tomando outra decisão.

A Timeline ainda não recebeu um ponto final formal

Existe um detalhe importante no anúncio.

Slade disse que deixará de tocar bateria profissionalmente, mas pediu aos fãs que continuem acompanhando as páginas da Chris Slade Timeline, onde pretende publicar materiais ocasionalmente. Portanto, não houve anúncio formal sobre encerramento definitivo da banda ou sobre o futuro de seus demais integrantes.

Também não foi revelado qualquer show especial de despedida.

A aposentadoria chegou da maneira mais simples possível: um homem diante da câmera explicando que gostaria de continuar, mas já não consegue.

Talvez isso torne tudo ainda mais difícil de romantizar.

Sessenta anos cabem em muita música

  • Tom Jones.
  • Manfred Mann’s Earth Band.
  • Uriah Heep.
  • David Gilmour.
  • Jimmy Page e Paul Rodgers no The Firm.
  • Gary Moore.
  • Asia.
  • AC/DC duas vezes.

Quando Slade afirma que teve uma boa jornada, está sendo bastante modesto.

Poucos bateristas conseguem atravessar tantas fases diferentes da história do rock sem permanecer associados exclusivamente a uma delas. Chris poderia ser lembrado pelo AC/DC, porém sua carreira já era gigantesca antes de Malcolm Young vê-lo tocar.

Agora, o músico que queria seguir até os 80 precisou parar alguns meses antes de chegar lá.

As baquetas finalmente descansam e o trovão continua registrado em The Razors Edge, em Donington e em milhares de palcos espalhados por seis décadas.

For those about to stop, we salute you.

 

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