ESPECIAL TG | PARASITA: Premiações, referências e o impacto cultural coreano.

Não, esse texto não é sobre saúde ou um artigo sobre parasitologia. Apesar de ser um assunto extremamente importante (principalmente nos dias atuais), esse texto é sobre cinema. Mais precisamente, sobre Parasita: o filme sul-coreano que venceu em quatro categorias do Oscar 2020, e teve seu diretor, Bong Joon-Ho, consagrado na noite da maior premiação da indústria do cinema.

Depois de nos recuperarmos das grandes vitórias de Parasita na 92ª cerimônia do Oscar, realizada no Dolby Theater, em Los Angeles – Califórnia, veremos como esses acontecimentos vão reverberar, daqui para frente, na indústria do Cinema.

Premiações

  • – 2019 –
    Palma de Ouro: 2019
    Prêmio BAFTA de Cinema: Melhor Filme Estrangeiro: 2019
    Blue Dragon Film Award for Best Supporting Actress: 2019
    Los Angeles Film Critics Association Award de Melhor Ator Coadjuvante: 2019
    Bandung Film Festival for Imported Film: 2019
    Blue Dragon Film Award: Melhor Diretor: 2019
    Los Angeles Film Critics Association Award de Melhor Diretor: 2019
    Blue Dragon Film Award for Best Art Direction: 2019
    AACTA Award for Best Asian Film: 2019
    New York Film Critics Circle Awards de Melhor Filme Estrangeiro: 2019
    Blue Dragon Film Award for Best Film: 2019
    Los Angeles Film Critics Association Award de Melhor Filme: 2019

  • – 2020 –
    Oscar de Melhor Filme: 2020
    Oscar de Melhor Diretor: 2020
    Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: 2020
    Oscar de Melhor Roteiro Original: 2020
    Prêmio do Sindicato dos Atores: Melhor Elenco: 2020
    Prêmio Globo de Ouro: Melhor Filme Estrangeiro: 2020
    British Independent Film Award – Melhor filme estrangeiro independente: 2020
    Blue Dragon Film Award for Best Leading Actress: 2020
    Writers Guild of America Award de Melhor Roteiro Original: 2020
    Prêmio Independent Spirit de Melhor Filme Estrangeiro: 2020
    Prêmio da Sociedade Nacional de Críticos de Cinema para Melhor Roteiro: 2020
    Prêmio BAFTA de Cinema: Melhor Roteiro Original: 2020
    Critics’ Choice Award: Melhor Filme Estrangeiro: 2020
    AACTA International Award de Melhor Filme: 2020
    Guldbagge Award for Best Foreign Language Film: 2020
    Critics’ Choice Award: Melhor Diretor: 2020
    Robert Award for Best Non-English-language Film: 2020
    National Society of Film Critics Award de Melhor Filme: 2020
    ADG Award de Melhor Design em Filme Contemporâneo: 2020

O impacto na indústria cinematográfica

O que torna a vitória de Parasita tão marcante na história do cinema, e quais os motivos que levaram o longa ao estrelato? Para entender melhor, é preciso olhar para atrás. A Academia possui em seu histórico uma quantidade enorme de más decisões, motivadas essencialmente pela ampla “resistência” que rege os votantes da premiação. Apenas onze filmes de língua estrangeira foram indicados à principal categoria da noite e nenhum havia vencido até então. No passado, as produções estrangeiras ficavam restritas a levar para casa somente o prêmio de melhor filme internacional, não conseguindo competir com os grandes estúdios tradicionais.

Mas, ao que se percebe, o “intocável” Oscar de língua inglesa, foi sofrendo mudanças drásticas nos últimos anos, sendo marcada pela “invasão mexicana” dos diretores Alejandro González Iñarritu, Guillermo Del Toro e Alfonso Cuarón na premiação, conquistando juntos 11 prêmios nos últimos sete anos. Há quem diga que a premiação se tornou política. A verdade é que o cinema sempre foi e será um ato político. Desde a genial sátira de Charlie Chaplin em O Grande Ditador de 1940 em plena ascensão do nazismo, passando por Platoon, dirigido por Oliver Stone em 1986, sendo uma crítica ferrenha a Guerra do Vietnã, até a aclamação de Parasita na cerimônia do último domingo (09).

Sabemos que, no mundo da arte, os artistas não possuem muitas barreiras. Eles têm liberdade de enredos, de direções, de filmografia, de temáticas. Mas, no que tange a indústria, as bilheterias e os estúdios, a máquina de funcionamento é outra. Por este motivo, a vitória de Parasita, como Melhor Filme, se torna extremamente importante, pois rompe barreiras idiomáticas, reconhecendo que existe cinema para além dos territórios ocidentais.

Na internet, o impacto do prêmio foi estrondoso! Milhares de pessoas ficaram felizes pelo reconhecimento do filme pela Academia. Em poucos minutos, “#Parasite” já estava nos Trends Topics do Twitter, com comentários alegando que “não aceitavam menos”. A mensagem do filme reverberou ainda mais no Brasil, nas últimas semanas, trazendo uma crítica ao sistema. O roteiro aponta algumas falhas que denunciam grandes contrastes na sociedade coreana.

 

A marca do diretor Bong Joon-Ho

Durante o discurso de Bong Joon-ho quando venceu a estatueta por Melhor Diretor, o mesmo reconheceu a importância de alguns cineastas ali presentes e confessou que aprendeu com eles. Inclusive, citou uma frase de Scorcese que o inspira:

“Quanto mais pessoal, mais criativo.”

Pensando nisso e usando suas características de crítica e sátira sociais aliadas a uma comédia de toques cruéis e cenas de violência, ele passeia dentre os mais diversos gêneros e faz uma abordagem direta sobre a questão central do longa: quem são os parasitas? 

Por definição, em termos biológicos, parasita significa: “organismo que vive de ou em um outro organismo, obtendo assim sua sobrevivência”. E, a julgar por quem “se infiltra” nas vidas das outras pessoas, com trapaças e mentiras, nós somos levados a uma dada perspectiva. Mas Bong ao longo do filme questiona essa noção. Ao olharmos o outro significado da palavra parasita, vemos que a mesma também pode ser vista como termo pejorativo, descrevendo indivíduos que vivem às custas alheias por questões de “exploração”. Daí, as dúvidas sobre “Quem são os explorados do filme?” e “Quem vive às custas de quem?”.

Bong mostra, aqui, uma enorme maturidade em tratar do tema, promovendo diversas reflexões. O contraste entre as realidades das duas famílias é apresentado de diversas formas, desde o ambiente, ao esquema de cores utilizado. Do escuro e sombrio, ao iluminado e cativante. No uso de falas inteligentes e recheadas de trapaças à ingenuidade de quem é tratado sob a égide da frivolidade. O diretor brinca com os dois polos do sistema, usando um humor ácido em queda livre, ao passo que somos inseridos a um inferno social e emocional. Neste meio tempo, onde as ambas realidades estão sendo apresentadas de formas polarizadas, nos damos conta das reações a uma situação extrema, tendo, nesse caso, a família como alvo de defesa e ataque.

Um dos pontos menos comentados entre os críticos, no entanto, é sobre a busca pela ascensão social que é apresentada de duas maneiras no filme. Embora o filme trabalhe muito sobre uma dada forma, mostrando a vitória momentânea, finaliza com outra completamente diferente que, agora, nos remete a um outro tipo de reflexão: a que envolve o trabalho árduo e planejado, para um mesmo objetivo. Contrastando e usando, novamente, uma pitada de crítica em seus apontamentos, o diretor deixa sua marca, trazendo um equilíbrio crítico em sua obra.

Algumas referências interessantes

Para quem já assistiu, é impossível não relacionar com outro filme do diretor, que também foi aclamado – principalmente no meio cult -, O Hospedeiro. As semelhanças, na forma como as histórias são contadas, trazem essa inevitável comparação. Mas, acima de tudo, de reconhecimento, afinal, os enredos são completamente diferentes.

Porém, existe um elo entre ambos, composto por quatro elementos:

1. O diretor e seu estilo;
2. A cinematografia coreana;
3. A condição humana na sociedade;
4. E, por último, o que nos liga a essa sociedade.

Para desenvolver melhor, é preciso dizer: a maiores semelhanças entre as histórias, são a união de uma família por uma causa e uma situação de exclusão, a qual, incrivelmente, é o suficiente para que cenas de um e de outro se cruzem, em diversos momentos. A forma como o diretor trabalha em “O Hospedeiro”, é a mesma como trabalha em “Parasita”. No final, a espinha dorsal é a mesma: Ambos os roteiros, além de unirem pessoas diferentes com o mesmo sangue, os coloca dentro de uma situação, seja por oportunismo ou fatalidade, na qual a única coisa que se torna possível fazer, é reagir.

E nessa cadeia de reação, formada por cada, e constante, necessidade de tomar uma decisão, ou uma atitude, é que entra a grande questão de ambos os filmes: é possível o nosso lado animal (instintivo) viver em sociedade? E, por fim, em algum momento não fomos animalescos (reativos)?

Com todas as teorias e interpretações sobre os dois filmes, acho relevante sempre pontuar que, na maior parte estamos falando de seres humanos, e não importa a classe social que você pertence: o medo básico e as necessidades fisiológicas são as mesmas. Porém, existe um detalhe, o qual, infelizmente, não é tão bem explorado: o emocional e o mental dos personagens. E isso vale para ambos os filmes! O que falha, peca e perde o sentindo em certos momentos, é a falta de coerência com os sentimentos expressados.

Em resumo: em várias ocasiões, sentimentos são postos em formas de palavras ou expressões, mas não possuem tanta validade na prática. Pode ter sido intencional, o que faz muito sentido, pois no final de ambos deixa aquela sensação de “aconteceu a maior tragédia de todas, minha vida está uma bagunça, destruída e eu continuo aqui, sem sair do lugar”.

Um contraste necessário

Todavia, filmes coreanos como Trem para Busan e Rastros de um Sequestro (ambos estão na Netflix!) trazem muito mais e deixam uma mensagem muito mais forte.

Enquanto Parasita é um filme de fácil digestão – por ser divertido e inconfortável -,  nos apresenta críticas aos dois polos de realidades, onde uma se contrasta a outra, Trem para Busan, mostra que no momento do real desespero, ainda existem pessoas dispostas a ajudarem as outras. É um filme onde sacrifícios são feitos, mas tudo em busca de, ao menos, ajudar quem possui mais necessidade e proteger quem se ama. Agora, Rastros de um Sequestro fala muito sobre como o dinheiro afeta as pessoas, só que da perspectiva emocional; ou seja, é exatamente o oposto de Parasita. Diferente, retrata até que ponto somos capazes de arriscar e desgraçar a nossa vida pelo dinheiro; sim, mas pelo dinheiro o qual irá “salvar” a vida de alguém que amamos.

Se forem assisti-los e colocá-los lado a lado, conseguirão sentir muito mais empatia na história particular, diferente da sua ou da que você assiste todos os dias nas ruas e noticiários. Pois não é uma questão de realidade, apenas, e sim de sentimento, de empatia (pura e simplesmente): a única realmente capaz de unir pessoas e apaziguar nosso lado mais animal.

Conclusão

Podemos concluir, para além do básico, que o diretor trabalhou os indivíduos de duas realidades de modo extremo, a ferro e fogo, apresentando os dois lados como parasitas da história e uma solução de longo prazo, em contraste com uma ascensão rápida e momentânea.

“Quando vocês superarem as barreiras de filmes com legendas, conhecerão muitos filmes incríveis” – Bong Joon Ho

A onda coreana do cinema, chamada de Hallyuwood (hallyu = invasão coreana), vem de muitos anos de trabalho por parte do governo coreano e pelos talentosos diretores e atores do país asiático, que viu no mercado uma forma de promover a cultura e a economia do país (como acontece com a onda dos kdramas e kpop).

Como dito, não é de hoje que a indústria cultural coreana vem aprimorando seus trabalhos e ganhando o mercado internacional, mas só recentemente tem ganhando reconhecimento e notoriedade. O filme “A casa do lago”, por exemplo, aclamado pelos críticos, foi inspirado em “Il Mare” (título coreano). Outros filmes americanos tiveram inspirações de filmes coreanos: Into The Mirror (Geoul Sokeuro), A Tale Of Two Sisters (Janghwa Hongryeon), The Ring (Ringu) e Oldboy (de mesmo título).

Agora é a vez de Parasitas servir de inspiração para uma minissérie da HBO, com Mark Ruffalo, como publicamos aqui.

Agora é promover e continuar torcendo para que a indústria cinematográfica e o público que ama Cinema se permitam, cada vez mais, romper barreiras territoriais e idiomáticas. E que as velhas instituições dêem, sempre que possível (e merecidamente), mais lugar e reconhecimento ao cinema oriental que tem crescido lentamente, mas de maneira qualitativa, ano após ano.


Este especial foi feito por várias mãos!
Contou com a colaboração do Briann e Clara dos Filmes TG;
e, Luísa e Rackys do Asian TG.

4 Comentários

  1. Perfeita leitura de Parasite feita por vocês!
    Parasite rompe barreiras e escancara agonias vividas no cotidiano . Joga luz sobre as mazelas dos dos dois lados e nos força e enxergar como nunca tínhamos enxergamos antes.
    👏👏👏👏👏👏❤❤❤❤

  2. Realmente, o que somos capazes pelo dinheiro? Assisti aos filmes citados e é muito difícil prever nossas ações, sentimentos do momento, etc, mas creio que por amor (seja por um filho, por um irmão, pais…) somos capazes de tudo. No filme Parasita vemos as coisas “acontecendo”, enredando os personagens, amarrando-os e levando-os a um fim que não teria outro desfecho, ou melhor, não teria um desfecho muito diferente. Parabéns pelo texto, vamos torcer pra que esses prêmios realmente tragam muitos mais bons olhos às produções coreanas e que elas possam ser mais e mais divulgadas e apreciadas pelo mundo!!

  3. Realmente vai dar um destaque imenso para o universo Coreano, tenho certeza que muita gente vai se interessar mais e assistir! Eu amei o filme, a história e os atores! Amei a matéria Rackys!!!👏🏻👏🏻👏🏻

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