ENTREVISTA | Virginia Limberger – Criadora da Animação Nacional “Tainá e os Guardiões da Amazônia”

Desde já agradecendo a criadora da animação Virgínia Limberger pela oportunidade.

Como foi o processo de criação da Animação Nacional “Tainá e os Guardiões da Amazônia”?

Complexo! Um desafio para toda a equipe, que já tinha uma extensa experiência na realização de longas-metragens live action, com a produção da trilogia Tainá, voltada para toda a família. Já dominávamos o tema, porém, produzir uma série em animação, para crianças de três a seis anos, não é apenas outro formato, é outro mundo! Exigiu muito estudo e adaptação da nossa equipe. São produtos muito distintos na forma de produzir: no live action podemos trabalhar o roteiro até na edição, na animação tudo deve ser definido antes. No live action você se inspira com os atores, na animação é você quem tem que inspirar os personagens. Tudo é definido com antecedência. A animação exige muito mais foco.
O estúdio Hype, coprodutor da série, foi um grande parceiro para atingirmos esse objetivo. A criatividade do roteirista principal Rafa Campos Rocha e o diretor André Forni, com sua experiência em produção de séries em 3D, também.

Qual a principal mensagem que a animação quer passar para as nossas crianças?

Tainá traz, intrinsecamente, a mensagem positiva de cuidado com a Natureza e de respeito à diversidade cultural. São valores importantes de se aprender desde cedo. Dessa forma, através do lúdico, da aventura, Tainá contribui para tornar o mundo melhor.
Colocamos na tela uma protagonista de aventura, menina indígena, independente e forte, vivendo na nossa Floresta Amazônica. E apresentamos esse mundo para ser respeitado e valorizado pelas crianças da primeira infância.


Qual a importância de animações como Tainá na vida de nossas crianças?

É incrível como as crianças brasileiras se identificam com a personagem! Uma heroína genuinamente brasileira, que está sempre pronta para salvar o dia na Floresta. Ela comanda a ação, no contraponto das antigas princesas. Isso eleva a autoestima das crianças.

Qual avaliação do cenário atual em relação as nossas animações?

Temos uma variedade incrível de gêneros, técnicas e concepções artísticas na produção de animação brasileira, para todos os públicos. É impressionante como o mercado se ampliou e consolidou nos últimos dez anos, vide uma indicação ao Oscar, além de outros tantos prêmios internacionais. Tainá, inclusive, é atualmente finalista do Prêmio Quirino de Animação.
Ao meu ver, os profissionais de qualidade sempre existiram aqui, mas trabalhavam para fora. Iniciativas como o AnimaTV e o AnimaMundi foram essenciais para alavancar a produção de animação nacional. E com o incentivo público à produção nacional de animação (Ancine, FSA, BNDES, entes regionais), foi possível criar projetos e vagas competitivas para que os talentos ficassem aqui, e produzissem propriedades intelectuais para o Brasil.
Para não deixar a peteca cair, precisamos é retomar o incentivo público para o setor, ter recursos para conseguir produzir com qualidade artística e técnica equivalente às produções estrangeiras. Que a Ancine tenha agilidade e prazos concretos para lidar com as demandas da produção. E também que as empresas privadas voltem a patrocinar o audiovisual, que confiem nos produtores culturais. Tem muito projeto bom em desenvolvimento esperando recurso, investimento ou análise da Ancine pra sair e pra virar case de sucesso.

Tainá e os guardiões da Amazônia
Hoje quase não temos mais animações na TV aberta, por mais que muitos possam dizer que TV a cabo se popularizou, ou acesso a internet chegou para mais pessoas, nem todos ainda têm tais acesso, na opinião de vocês, TV aberta não teria mais espaço para tais produções?

Acho que as TVs abertas estão muito mais voltadas a produções para todos os nichos da família. Ou talvez por ter sido difícil manter-se na concorrência com os canais temáticos voltados exclusivamente para o nicho infantil. Mas o infantil sempre dá audiência, há demanda. Ainda mais atualmente em que muitos estão sem acesso a TV Paga e ao VOD, pelo custo.
Tainá está sendo exibida na TV Band com grande sucesso, numa faixa infantil inaugurada no fim do ano passado. Vejo como um acerto estratégico do canal, que está conquistando audiência desde a infância. O canal estuda inclusive abrir mais espaço em breve para o show de Tainá.

Além da Animação Nacional “Tainá e os Guardiões da Amazônia”, vocês estão trabalhando em alguma outra animação? Quais outros trabalhos de vocês?

Tainá foi nossa estreia na animação. E hoje, podemos dizer que Tainá é um case de sucesso. A trilogia de filmes foi licenciada para TVs de 45 países. A série está no ar no Brasil e na América Latina, na Band Brasil, Nick Jr. e Netflix. Os clipes musicais da Tainá estão no YouTube em português e em espanhol. Temos parceiros na distribuição na Europa e na China (é incrível ver Tainá dublada em chinês!).
Então nosso primeiro projeto no gênero animação é continuar com as aventuras de Tainá! Tainá e os Guardiões da Amazônia – em Busca da Flecha Azul, o longa metragem, e a segunda temporada da série estão em pré-produção. Vamos ainda ampliar a marca para outros segmentos: TAINÁ – o Musical, para os palcos, também está em desenvolvimento, com o incrível Jorge Takla.
Temos outros projetos em animação em desenvolvimento, mas ainda não prontos para divulgação, aguardem (risos). Posso adiantar que estamos estudando a adaptação de um quadrinho, numa linguagem e para um público bem diferente de Tainá.
Além das animações, temos em pós produção a comédia live action: Quem Vai Ficar com Mário?, que deve ser lançada quando os cinemas reabrirem, pós a pandemia. E estamos desenvolvendo Bibi, um longa metragem sobre um recorte na brilhante trajetória da grande Bibi Ferreira. Esse projeto está relacionado ao DNA da produtora, que foi quem produziu a peça Piaf com a atriz por seis anos no Brasil e um ano em Portugal.


Qual o segredo para estimular as crianças o respeito à diversidade, às diferenças culturais, com uma mensagem de amizade e ecologia?

Tainá é fruto da intuição do Pedro Rovai, seu criador, que foi fundador e diretor da Sincrocine até seu falecimento no final de 2018, e de muita pesquisa – sobre o nicho infantil, sobre o tema da ecologia e da Amazônia, das lendas, da estética para esse público… Todos os animais que aparecem na série, por exemplo, mesmo estilizados são de fato animais amazônicos. Há um compromisso com a informação correta.
A dinâmica para prender a atenção de uma criança tem vários ingredientes, que variam, conforme a idade e também com o tipo de projeto. Música, por exemplo, é um elemento que funciona muito bem para os pré-escolares.
Mas o segredo mesmo acho que é valorizar a inteligência emocional da criança. Não adianta forçar, tem que conquistar. Não adianta fazer conteúdo didático que só dite o que a criança deve fazer. Em Tainá, tentamos envolver as crianças em histórias de aventura, na Floresta, mas com fragilidades, questões e sentimentos das personagens que causam identificação em qualquer criança, seja urbana ou do campo ou mesmo da floresta. A gente cativa a criança com essa universalidade e, ao mesmo tempo, a insere num universo novo, apresentando a Floresta e defendendo sua preservação. Mostra o quanto o diferente pode ser amigo e parecido, defendendo assim o respeito e o entendimento do outro.

Vocês fazem ações ou tem parcerias para que tais animações possam chegar em crianças de baixa renda, que não tenham acesso por outros meios de comunicação? Alguma ação que gostariam de compartilhar com os nossos leitores?

Com os filmes de Tainá conseguimos fazer muitas ações. Cinema itinerante, cinema para todos, em praças, atividades em colégios, cartilhas educacionais para os colégios, etc. Foi muito bacana.
Para a série, estamos tentando repetir a ação em colégios, com cartilhas que estimulem atividades interdisciplinares, mas ainda não conseguimos parceiros. Precisamos de investimentos para isso e, atualmente, está muito difícil. Mas estamos procurando parceiros! Entrem em contato (www.sincrocine.com.br)!


Mensagem final para os nossos leitores e muito obrigado pela oportunidade.

Ficamos muito felizes e realizados de ter conseguido produzir essa série e agradecemos muito o espaço que vocês estão dando para Tainá aqui no Teoria Geek.
O feedback que temos tido do público, de como as crianças estão adorando a série, mostra a qualidade e o valor da produção de animação nacional. Tanto a qualidade técnica como a criativa, as histórias, as personagens que encantam.
Acho importante terminar ressaltando que, para que produções como esta sigam acontecendo, a receita é simples: investimento público e privado e a confiança dos canais, redes e plataformas. Com isso, temos tudo para entreter e conquistar o público, no Brasil e no exterior! E, no caso de Tainá, levando uma mensagem positiva para todas as crianças.

Confira as 3 musicas mais populares da animação:

Lembrando que a animação está disponível na Netflix, uma ótima animação para seus filhos(as).

Sidney Postiglioni
Apenas um cara apaixonado por séries, cinema, games e cultura pop em geral.