A Fundação SCP possui protocolos para conter criaturas, objetos amaldiçoados e fenômenos capazes de desmontar a realidade. Contudo, aparentemente ninguém preparou um procedimento para a chegada de Hollywood.

A A24 entrou como coprodutora e distribuidora mundial de V/H/S: SCP, primeiro longa-metragem baseado no universo colaborativo da Fundação SCP. O filme chegará aos cinemas em 2027, mas uma anomalia já escapou antes das filmagens: a licença virou motivo de disputa pública.

A anomalia saiu da wiki

Produzido pela A24, Spooky Pictures e Image Nation Studios, o longa incorporará a Fundação SCP à franquia V/H/S, conhecida por suas antologias de terror em formato de filmagens encontradas.

A combinação parece ter sido criada dentro de um laboratório. Afinal, boa parte das histórias de SCP utiliza documentos, gravações, relatórios e imagens de segurança para apresentar entidades inexplicáveis encontradas por organizações que claramente não oferecem adicional de insalubridade.

Segundo o TheWrap, a A24 possui os direitos mundiais de distribuição dessa produção. Entretanto, isso não significa que o estúdio tenha comprado a Fundação SCP ou conquistado exclusividade sobre seu universo.

Hollywood encontrou o monstro do Creative Commons

Pouco depois do anúncio, autores e administradores da SCP Wiki divulgaram um comunicado oficial afirmando que não foram consultados pelos produtores. A equipe também declarou que tentou estabelecer contato, mas ainda não recebeu resposta.

A ausência de autorização não representa automaticamente uma violação. Os textos, personagens e conceitos da wiki são publicados sob a licença Creative Commons CC BY-SA 3.0, que permite adaptações comerciais sem a necessidade de negociar individualmente com todos os colaboradores.

Porém, licença aberta não significa terra sem lei. As obras derivadas precisam fornecer os créditos correspondentes e, segundo a interpretação apresentada pela equipe da wiki, permanecer disponíveis sob a mesma modalidade de compartilhamento.

O verdadeiro objeto anômalo é o contrato

Os administradores contestaram principalmente qualquer interpretação de que a A24 possa controlar exclusivamente adaptações de SCP. Outras pessoas continuariam livres para criar filmes, jogos e histórias baseadas nesse universo, desde que respeitassem as condições da licença.

A equipe também afirma que o longa não poderia ser protegido por mecanismos capazes de impedir sua cópia e redistribuição. Consequentemente, modelos tradicionais de exclusividade cinematográfica, streaming e proteção digital poderiam entrar em choque com a cláusula ShareAlike.

Essa é, por enquanto, a posição da SCP Wiki. Não existe decisão judicial estabelecendo como cada condição será aplicada ao filme, tampouco foi anunciado processo contra a A24 ou os demais produtores.

Não é uma guerra judicial, pelo menos ainda

O projeto continua previsto para 2027, sem diretor, elenco ou data específica divulgados. Também não houve resposta pública das empresas às preocupações apresentadas pelos administradores.

A questão central não é se Hollywood pode produzir uma adaptação comercial de SCP. A própria licença permite isso. O impasse está em como lançar mundialmente um filme baseado numa criação coletiva sem tratá-la como uma propriedade convencional, comprada e trancada dentro de um cofre.

Antes de conter qualquer monstro, V/H/S: SCP precisará conter uma crise de comunicação e classificar corretamente sua própria licença. Quanto à proteção, talvez seja prudente começar pelos créditos.

Hollywood entrou procurando uma franquia de terror e encontrou algo muito mais assustador: uma obra sem dono único e um contrato que qualquer usuário da internet pode ler.

 

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