Dois sóis no horizonte. Um planeta coberto por lava. Tempestades intermináveis. Mundos congelados onde a vida parece impossível. Florestas tão exuberantes que parecem saídas de um sonho.

Durante décadas, esses cenários viveram apenas na imaginação de escritores, cineastas e artistas. Eles nos levaram a Tatooine, Mustafar, Arrakis, Pandora e tantos outros lugares que pareciam existir apenas porque alguém teve uma criatividade absurda.

Só que aconteceu algo curioso.

Enquanto Hollywood gastava bilhões imaginando novos mundos, astrônomos apontavam telescópios para o céu… e descobriam que o Universo já havia criado versões ainda mais insanas.

Hoje conhecemos planetas onde pode chover ferro, mundos com dois sóis, gigantes gasosos açoitados por ventos que ultrapassam milhares de quilômetros por hora e infernos cósmicos capazes de fazer qualquer vilão repensar seus planos de dominação.

A pergunta é inevitável: se esses planetas realmente existissem nos filmes… os heróis conseguiriam sobreviver neles?

Por isso, aperte os cintos; o hiperpropulsor foi acionado.

Tatooine vs. Kepler-16b

Uma das imagens mais icônicas de Star Wars é Luke observando o pôr do sol… ou melhor, os dois pores do sol de Tatooine.

Durante muito tempo isso parecia apenas um detalhe cinematográfico.

Até que os astrônomos descobriram Kepler-16b, um planeta que realmente orbita duas estrelas. Ou seja: dois sóis existem de verdade.

Kepler-16b

É claro que Kepler-16b não é um deserto habitado por Jawas e Tusken Raiders. Trata-se de um gigante gasoso, sem superfície sólida conhecida para caminhar.

Mas a ideia central de George Lucas estava correta.

Mustafar vs. 55 Cancri e

Pois é, nem Darth Vader aguentaria fazer churrasco aqui. Afinal, Mustafar é praticamente um vulcão transformado em planeta: rios de lava, calor infernal, explosões por todos os lados.

Parece exagero… Até conhecer 55 Cancri e.

55 Cancri e

Esse exoplaneta orbita tão perto de sua estrela que sua superfície pode ultrapassar 2.000 °C, quente o suficiente para manter enormes regiões cobertas por rochas derretidas. Alguns modelos sugerem um verdadeiro oceano global de magma.

Pois é… O castelo de Vader provavelmente derreteria antes da inauguração.

Kamino vs. WASP-76 b

A previsão do tempo informa: chuva de ferro. Leve um guarda-chuva… de titânio.

Kamino impressionava por viver sob tempestades quase permanentes, só que a natureza resolveu elevar o nível.

WASP-76 b

No exoplaneta WASP-76 b, as temperaturas do lado iluminado são tão altas que o ferro pode vaporizar. Modelos indicam que ventos carregam esse vapor para o lado mais frio, onde ele pode condensar em gotas, o famoso conceito de “chuva de ferro”.

A interpretação ainda é debatida e refinada pelos cientistas, mas o planeta continua sendo um dos ambientes mais extremos já estudados.

Isso significa que você precisaria de muito mais do que um guarda-chuva: precisaria de um milagre.

Arrakis vs. HD 189733 b

Vamos agora parar de puxar a sardinha para o George Lucas e falar de Duna. Afinal, sobreviver lá depende de economizar cada gota de água.

Sim, os vermes gigantes seriam o menor dos seus problemas.

Já no planeta HD 189733 b, provavelmente sua preocupação seria outra.

Concepção artística mostra o planeta HD 189733b passando diante de estrela; no detalhe do canto superior direito, observação de raios-X (Foto: Divulgação/Nasa/CXC/SAO/K.Poppenhaeger)

Esse gigante gasoso ficou famoso porque estudos indicam ventos que podem ultrapassar 8.000 km/h e condições atmosféricas compatíveis com partículas de silicato, originando a famosa comparação com uma “chuva de vidro”, carregada horizontalmente por esses ventos violentíssimos.

Em outras palavras: não é uma chuva que cai; é uma chuva que tenta cortar você ao meio.

Nem o melhor traje destilador de Arrakis resolveria esse problema.

Pandora vs. K2-18 b

Pandora talvez seja o planeta fictício mais bonito do cinema: florestas luminosas, vida abundante, ecossistemas gigantescos…

Existe algo parecido? Ainda não sabemos.

K2-18 b

Mas K2-18 b se tornou um dos exoplanetas mais estudados justamente porque está em uma região onde pode existir água líquida, e observações recentes alimentaram discussões sobre possíveis moléculas de interesse biológico em sua atmosfera.

Isso não significa que exista vida confirmada; estamos falando de uma hipótese em investigação.

É justamente isso que o torna fascinante.

Pandora ainda pertence ao cinema, mas talvez exista algum lugar no Universo esperando para surpreender a ciência.

Pois é… Esse é o único planeta desta lista onde a resposta mais emocionante ainda pode estar no futuro.

Plot twist: a ciência chegou atrasada nessa viagem

Depois de conhecer todos esses mundos, é fácil imaginar que George Lucas, Frank Herbert ou James Cameron tenham se inspirado em descobertas da astronomia.

Mas a verdade é justamente o contrário.

Quase todos os planetas reais desta matéria ainda eram completamente desconhecidos quando essas obras foram criadas.

Quando Star Wars chegou aos cinemas, em 1977, nenhum exoplaneta havia sido confirmado pela ciência. O primeiro planeta orbitando uma estrela semelhante ao Sol só seria descoberto em 1995, e um mundo com dois sóis, como o icônico Tatooine, apenas em 2011.

Frank Herbert escreveu Duna em 1965, quarenta anos antes de os astrônomos identificarem HD 189733 b, um planeta tão extremo que seus ventos supersônicos e a possibilidade de chuva de partículas de vidro fariam até os Fremen repensarem uma expedição.

Kamino apareceu em Star Wars: Episódio II em 2002. WASP-76 b, o planeta famoso pela hipótese de chuva de ferro, só seria descoberto em 2013. Já Mustafar estreou em 2005, quando 55 Cancri e ainda era apenas mais um exoplaneta muito quente. A ideia de que ele poderia esconder vastos oceanos de magma surgiu apenas anos depois, graças a observações muito mais detalhadas.

Isso significa que esses autores conseguiram prever o futuro? Não. Na verdade, fizeram algo talvez ainda mais extraordinário: eles compreenderam que o Universo não tinha obrigação alguma de parecer com a Terra.

Dessa forma, enquanto a ciência ainda procurava seus primeiros exoplanetas, escritores e cineastas já imaginavam mundos governados por leis diferentes, atmosferas hostis, céus improváveis e paisagens que pareciam absurdas.

Décadas depois, quando nossos telescópios finalmente começaram a enxergar esses lugares, descobrimos que o cosmos era exatamente como a boa ficção científica sempre suspeitou: estranho, imprevisível e infinitamente mais criativo do que nossa experiência cotidiana permitia imaginar.

A natureza não conhece limites de orçamento

Enfim, Hollywood criou alguns dos mundos mais memoráveis da cultura pop.

Mas bastou a humanidade desenvolver telescópios mais poderosos para descobrir algo extraordinário: o Universo já estava escrevendo sua própria ficção científica há bilhões de anos.

Planetas com dois sóis. Mundos onde o calor transforma rochas em oceanos de magma. Gigantes gasosos com ventos supersônicos e atmosferas tão extremas que desafiam nossa própria imaginação.

Talvez nunca caminhemos sobre esses lugares. Talvez alguns jamais recebam uma visita humana.

Ainda assim, cada descoberta nos lembra de uma verdade fascinante: a ficção científica nunca foi uma fuga da realidade. Ela sempre foi uma tentativa de alcançá-la.

Talvez seja por isso que a boa ficção científica nunca envelheça. Ela não tenta adivinhar o futuro. Ela expande os limites da imaginação humana até um ponto em que, anos depois, a ciência finalmente consegue alcançá-la.

 

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