Quando Jurassic Park chegou aos cinemas, a promessa era irresistível: pegar DNA antigo, completar os buracos genéticos e trazer dinossauros de volta à vida.

Era absurdo, perigoso e maravilhoso.

E, claro, deu tudo errado, porque se tem uma coisa que a franquia ensinou é que bilionário com laboratório, mosquito no âmbar e complexo de Deus raramente termina em piquenique no parque.

Contudo, décadas depois, uma pergunta ficou no ar: a ciência já conseguiu trazer animais extintos de volta?

A resposta curta é: sim.

A resposta honesta é: sim… mas não exatamente como Jurassic Park prometeu.

A primeira “ressurreição” durou poucos minutos

O caso mais famoso antes da atual onda de “desextinção” aconteceu com o bucardo, uma subespécie de cabra-dos-pireneus extinta em 2000.

Cientistas haviam preservado células do último animal conhecido e, em 2003, conseguiram criar um clone. Por alguns minutos, o bucardo voltou a existir.

Só que a história teve um final triste: o filhote morreu pouco depois do nascimento por problemas pulmonares. Mesmo assim, o caso entrou para a história como o primeiro animal extinto clonado com sucesso e também como um lembrete bem cruel de que “trazer de volta” não significa, necessariamente, “salvar”.

Foi quase um “checkpoint” da ciência: tecnicamente funcionou, mas ainda faltava muito para zerar o jogo.

O lobo-terrível voltou? Calma, John Hammond

Em 2025, a empresa Colossal Biosciences chamou atenção mundial ao anunciar filhotes associados ao projeto de “desextinção” do lobo-terrível, o famoso dire wolf, espécie extinta há milhares de anos e queridinha de quem assistiu Game of Thrones achando que queria um pet daquele tamanho.

A empresa usou DNA antigo para identificar características do lobo-terrível e editou geneticamente lobos-cinzentos modernos para produzir animais com traços semelhantes.

Só que aqui entra o grande “mas” da história.

Muitos especialistas argumentam que esses animais não são lobos-terríveis de verdade, e sim lobos-cinzentos geneticamente modificados para parecerem com eles. A própria cientista-chefe da Colossal, Beth Shapiro, esclareceu que os animais são lobos-cinzentos editados, não cópias perfeitas do animal extinto.

Ou seja: não é exatamente ressuscitar um monstro da Era do Gelo; é mais como criar um “cosplay genético” extremamente sofisticado.

Então o que é desextinção?

A palavra parece simples, mas esconde uma briga científica daquelas.

Para muita gente, desextinguir significaria trazer de volta um animal exatamente igual ao que desapareceu.

Só que isso é quase impossível na maioria dos casos.

O que os cientistas tentam fazer hoje é criar animais vivos com características importantes de espécies extintas. Em vez de reconstruir cada pedaço do passado, a ideia é aproximar funções, aparência e traços genéticos usando parentes modernos.

É por isso que alguns pesquisadores usam termos como desextinção funcional.

Traduzindo para o modo Teoria Geek: não estamos baixando o arquivo original do animal extinto. Estamos tentando reconstruir uma versão jogável com os dados que sobraram.

E os mamutes?

Pois é… O mamute-lanoso ainda não voltou.

Mas é um dos projetos mais ambiciosos em andamento.

A ideia da Colossal é usar o elefante-asiático como base genética e inserir características associadas ao mamute, como adaptação ao frio e pelos mais densos. Como etapa preliminar, cientistas da empresa criaram camundongos geneticamente modificados com traços inspirados no mamute, especialmente relacionados à pelagem.

Isso não significa que temos um mamute.

Significa que os cientistas estão testando, em animais menores e mais fáceis de estudar, se determinadas alterações genéticas conseguem produzir características parecidas com as de uma espécie extinta.

É o tutorial antes do chefão.

Dodô, tilacino e outros fantasmas da natureza

O dodô, ave símbolo máximo da extinção causada pela ação humana, também está na mira. A proposta envolve trabalhar com células reprodutivas de aves próximas, como pombos, para tentar recriar características do animal extinto.

Em 2025, a Colossal anunciou avanços no cultivo de células germinativas de pombos, passo considerado importante para esse tipo de projeto.

Outro alvo é o tilacino, também conhecido como tigre-da-tasmânia, extinto no século XX. A ideia segue lógica parecida: usar parentes vivos, edição genética e reprodução assistida para tentar criar um animal com características do marsupial desaparecido.

Esses projetos ainda não significam que dodôs e tilacinos estão andando por aí.

Por enquanto, eles continuam mais perto do laboratório do que da natureza.

Então Jurassic Park estava certo?

Mais ou menos.

A franquia acertou uma coisa importante: o DNA é a chave da história.

Sem material genético, não há como reconstruir um animal. O problema é que DNA não dura para sempre. Ele se fragmenta com o tempo, e estudos estimam uma meia-vida de cerca de 521 anos para o DNA em determinadas condições. Mesmo em cenários ideais, todo o material genético em ossos estaria destruído em algo próximo de 6,8 milhões de anos.

Agora vem a pá de cal no sonho jurássico (ou não): os dinossauros não aviários desapareceram há cerca de 66 milhões de anos.

Ou seja, encontrar DNA utilizável de T-Rex, Velociraptor ou Triceratops continua extremamente improvável. O Museu de História Natural de Londres também destaca que, por causa desse intervalo gigantesco, é muito improvável que DNA de dinossauro tenha sobrevivido até hoje.

Em resumo: mamute talvez; dodô, quem sabe… T-Rex? Aí já é pedir demais até para a ciência com skin de ficção científica.

O verdadeiro problema talvez não seja trazer de volta

Mesmo quando a tecnologia avança, surge outra pergunta: trazer de volta para quê?

Um animal extinto não vive sozinho. Ele depende de habitat, alimentação, clima, relações ecológicas e outros membros da própria espécie.

Trazer um bicho do passado para um mundo completamente diferente pode ser menos “bem-vindo de volta” e mais “boa sorte, guerreiro”.

Por isso, muitos cientistas defendem que essas tecnologias também devem servir à conservação de espécies ameaçadas hoje, ajudando a preservar diversidade genética e evitar novas extinções.

Porque, convenhamos, ressuscitar espécies é impressionante, mas impedir que elas desapareçam talvez seja ainda mais importante.

John Hammond estava quase certo. Só errou o bicho

Enfim, Jurassic Park prometeu dinossauros. A ciência entregou cabras clonadas, lobos editados, camundongos peludos e planos para mamutes, dodôs e tilacinos.

Pode parecer menos cinematográfico, mas talvez seja ainda mais fascinante.

Porque, pela primeira vez, a humanidade não está apenas estudando fósseis em museus. Está tentando entender se é possível devolver ao mundo partes da biodiversidade que desapareceram.

Pois é… Ainda não temos um T-Rex rugindo atrás de um jipe. E, sinceramente, talvez seja melhor assim.

Mas a ciência já abriu uma porta que parecia trancada para sempre. Agora resta saber se vamos atravessá-la com responsabilidade… ou se vamos precisar de um velociraptor batendo na janela para lembrar que brincar de Deus nunca foi uma boa ideia.

 

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