Imagine poder escolher uma lembrança que você gostaria de nunca mais ter.
Pode ser um término doloroso, uma perda ou aquele momento constrangedor que seu cérebro, numa demonstração impressionante de falta de solidariedade, resolve reprisar justamente quando você está quase dormindo.
Agora imagine entrar em uma clínica, apontar exatamente qual recordação deseja remover e, algumas horas depois, sair de lá sem sequer se lembrar de que aquilo aconteceu.
Parece absurdo, mas foi exatamente essa possibilidade que transformou Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças em uma das histórias mais fascinantes sobre memória já levadas ao cinema.
E a cultura geek não parou por aí.
Enquanto Homens de Preto resolveu o problema com um clarão, Blade Runner imaginou lembranças pertencentes a outras pessoas sendo implantadas artificialmente. Já Ruptura separou a vida profissional da pessoal dentro da própria mente, enquanto Black Mirror foi para o extremo oposto e perguntou o que aconteceria se pudéssemos registrar tudo e nunca mais esquecer.
Por caminhos completamente diferentes, todas essas obras esbarram na mesma questão: até onde conseguiríamos mexer nas nossas próprias lembranças?
Curiosamente, a resposta da neurociência começa com uma surpresa. Aquilo que lembramos pode ser muito menos permanente do que gostamos de acreditar.
Brilho Eterno: existe uma tecla Delete dentro do cérebro?

Em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Joel descobre que Clementine recorreu à empresa Lacuna para eliminar as recordações do relacionamento dos dois. Devastado, ele decide fazer exatamente o mesmo.
Para isso funcionar na vida real, precisaríamos de algo parecido com um mecanismo de busca cerebral: localizar tudo relacionado a uma pessoa, selecionar o pacote inteiro e apertar Delete.
Só que nosso cérebro não organiza o passado como um computador armazena arquivos.
A neurociência trabalha, entre outros conceitos, com os chamados engramas, conjuntos de células e alterações neurais associados à representação de experiências. Além disso, os diferentes componentes de uma recordação complexa dependem de redes distribuídas pelo cérebro.
Pense no primeiro encontro com alguém. Você pode guardar o rosto daquela pessoa, o som de sua voz, o lugar onde estavam, uma música tocando ao fundo, determinado cheiro e, sobretudo, aquilo que sentiu naquele momento. Com o passar dos anos, outras experiências também passam a se conectar à mesma pessoa.
Tentar remover apenas esse indivíduo sem atingir nenhuma dessas associações seria muito mais complicado do que deletar uma fotografia do celular.
Portanto, a Lacuna ainda pode guardar suas máquinas no depósito da ficção.
Entretanto, Brilho Eterno tropeçou em algo surpreendentemente verdadeiro.
Plot twist: toda vez que lembramos, podemos mexer no passado
Costumamos tratar nossas lembranças como pequenos filmes armazenados na cabeça. Algo acontece, o cérebro grava e, anos depois, basta apertar mentalmente o play.
A realidade é consideravelmente mais bagunçada.
Quando uma recordação já consolidada é recuperada, ela pode entrar temporariamente em um estado no qual se torna suscetível a modificações antes de ser estabilizada novamente. Esse processo recebe o nome de reconsolidação.
Em outras palavras, recordar não é necessariamente abrir um arquivo intocável. É reconstruí-lo.
Nesse processo, detalhes podem sofrer alterações, informações posteriores podem se misturar à experiência original e até a resposta emocional associada ao acontecimento pode mudar.
Foi justamente essa maleabilidade que levou pesquisadores a fazer uma pergunta digna da Lacuna: se uma lembrança fica temporariamente vulnerável quando é recuperada, seria possível interferir nela?
A resposta nos aproxima um pouco da ficção, embora não da maneira que Joel gostaria.
A ciência não consegue apagar seu ex, mas pode tentar diminuir o peso da lembrança
Pesquisadores já estudaram maneiras de interferir em respostas emocionais associadas a determinadas recordações durante a janela de reconsolidação.
Em experimentos envolvendo medo condicionado, por exemplo, intervenções realizadas após a reativação da experiência conseguiram reduzir posteriormente certas respostas de medo. Entre as abordagens investigadas estão procedimentos comportamentais e o uso experimental de medicamentos, como o propranolol.
Aqui, porém, existe uma diferença fundamental em relação a Brilho Eterno.
Os participantes não acordaram sem saber que determinado acontecimento havia ocorrido. Tampouco esqueceram pessoas inteiras ou tiveram capítulos da própria vida arrancados da cabeça.
O alvo é outro: a intensidade de determinados componentes emocionais associados à recordação.
Imagine continuar sabendo perfeitamente que algo aconteceu, mas não experimentar a mesma reação avassaladora toda vez que aquilo volta à mente. Em vez de destruir uma página da história, a ciência tenta compreender se é possível mudar a maneira como nosso cérebro reage ao relê-la.
Joel queria esquecer Clementine.
A neurociência está muito mais próxima de investigar como alguém poderia lembrar sem carregar exatamente a mesma dor.
E essa diferença é enorme.
Homens de Preto: olhe para a luz e… espere, o que eu estava dizendo?
Se Joel precisou contratar uma clínica inteira, os agentes J e K encontraram uma solução bem mais prática.
Óculos escuros, um neuralizador e um conveniente:FLASH!
Pronto. Você não viu alienígena nenhum.
Infelizmente, não existe um aparelho capaz de emitir um clarão e remover seletivamente os últimos minutos da vida de alguém. Além disso, mesmo que conseguíssemos interferir na formação de novas recordações, ainda teríamos uma questão bastante complicada: como o aparelho saberia exatamente onde começar e parar?
Memórias recentes passam por processos de consolidação que ajudam a estabilizá-las. Interferir nessa etapa pode prejudicar sua formação, algo conhecido inclusive a partir de condições médicas e efeitos de determinadas substâncias. Ainda assim, estamos muito longe de programar uma máquina para apagar tudo o que aconteceu entre 14h32 e 14h47, preservando perfeitamente o minuto anterior e o seguinte.
O neuralizador também apresenta outro problema delicioso: acontecimentos não existem isoladamente.
Uma conversa pode ativar conhecimentos antigos, emoções, rostos familiares e associações anteriores. Remover somente os minutos desejados sem bagunçar nada ao redor exigiria uma precisão que a neurociência atual simplesmente não possui.
Portanto, caso um alienígena atravesse sua sala hoje, temos más notícias: você vai precisar conviver com a lembrança.
Blade Runner: e se você lembrar perfeitamente de algo que nunca viveu?
Esquecer já parece assustador.
Descobrir que suas lembranças nunca foram suas é pior.
Em Blade Runner, Rachael acredita possuir recordações da infância e as utiliza, naturalmente, como parte da própria identidade. Só que essas experiências não pertencem a ela.
Foram implantadas.
Não chegamos nem perto de transferir uma infância completa de uma pessoa para outra, mas a ideia toca em uma vulnerabilidade real da mente humana: podemos lembrar com enorme convicção de acontecimentos que não ocorreram exatamente da maneira como recordamos.
As chamadas falsas memórias são estudadas há décadas. Informações recebidas posteriormente, sugestões e a própria reconstrução de um acontecimento podem modificar aquilo que uma pessoa acredita ter vivenciado.
Isso não transforma ninguém em replicante, evidentemente. Porém, derruba uma certeza bastante confortável: sentir que uma lembrança é verdadeira não garante que todos os seus detalhes correspondam perfeitamente ao que aconteceu.
Experimentos com animais tornam a discussão ainda mais interessante. Pesquisadores já conseguiram manipular circuitos associados a engramas em camundongos e produzir artificialmente determinadas associações. A distância entre isso e baixar as férias de infância de outra pessoa para dentro da sua cabeça continua gigantesca, mas esses estudos mostram que a base neural das recordações não é completamente inacessível à manipulação experimental.
A Tyrell Corporation ainda não abriu inscrições.
Mesmo assim, Blade Runner acertou em cheio numa pergunta desconfortável: se nossas lembranças ajudam a definir quem somos, o que acontece quando não podemos confiar totalmente nelas?
Ruptura: seria possível deixar sua vida pessoal na porta do escritório?
Para quem já recebeu mensagem de trabalho às dez da noite, a proposta da Lumon Industries talvez pareça menos distópica por alguns segundos.
Em Ruptura, os funcionários passam por um procedimento que divide o acesso às suas memórias. Dentro da empresa, a versão conhecida como “innie” não consegue acessar as experiências da vida externa. Ao deixar o trabalho, o “outie” retorna sem saber o que ocorreu durante o expediente.
Trabalho e vida pessoal finalmente separados.
Talvez separados até demais.
O grande obstáculo científico está no fato de que nosso cérebro não possui duas gavetas independentes chamadas EMPRESA e RESTO DA MINHA EXISTÊNCIA.
Quando alguém entra no escritório, leva consigo o idioma que aprendeu, conhecimentos gerais, habilidades motoras, hábitos, personalidade, experiências anteriores e inúmeras outras informações adquiridas ao longo da vida. Esses sistemas interagem continuamente.
Uma tecnologia capaz de bloquear somente as recordações autobiográficas desejadas, preservando todas as competências necessárias para trabalhar normalmente, precisaria controlar redes cerebrais com uma precisão que ainda pertence à ficção.
Só que Ruptura encontra algo muito mais interessante do que uma dificuldade neurológica.
Se duas versões da mesma pessoa possuem conjuntos completamente diferentes de experiências e nenhuma consegue acessar a vida da outra, qual delas é o verdadeiro indivíduo?
Talvez as duas.
Nesse momento, a série deixa de perguntar apenas como nossas lembranças funcionam e começa a questionar até que ponto elas sustentam nossa identidade.
Black Mirror: talvez esquecer não seja o problema, mas a solução
Depois de tantas tentativas de eliminar ou controlar recordações, Black Mirror resolveu seguir na direção contrária.
No episódio The Entire History of You, as pessoas utilizam um implante conhecido como “grain”, capaz de registrar aquilo que veem e ouvem. Posteriormente, qualquer momento pode ser reproduzido com uma fidelidade que nossa memória biológica jamais conseguiria oferecer.
Parece maravilhoso.
Nunca mais esquecer onde colocou as chaves, perder um aniversário importante ou lembrar daquela resposta perfeita somente duas horas depois da discussão.
Porém, como quase sempre acontece em Black Mirror, a maravilha tecnológica dura pouco.
A capacidade de rever cada palavra, expressão e pequeno detalhe transforma o passado em material para análise obsessiva. Em vez de uma lembrança se modificar, perder nitidez ou simplesmente desaparecer com o tempo, ela permanece disponível para ser reproduzida outra vez.
E outra.
E mais outra.
A neurociência mostra que esquecer não é simplesmente uma falha irritante do cérebro. A perda e a seleção de informações também fazem parte do funcionamento normal da memória.
Talvez guardar absolutamente tudo não fosse um superpoder.
Poderia ser uma prisão com botão de replay.
Então podemos apagar uma lembrança?
Se a pergunta for se conseguimos escolher uma pessoa, remover todas as experiências relacionadas a ela e continuar vivendo normalmente, a resposta continua sendo não.
A Lacuna permanece fechada para negócios, o neuralizador continua com os Homens de Preto, a Lumon não consegue separar sua segunda-feira do domingo e a Tyrell Corporation ainda não pode vender uma infância nova.
Por outro lado, a pergunta se torna muito mais interessante quando trocamos apagar por modificar.
A ciência já demonstrou que nossas recordações não são blocos completamente imutáveis. Quando recuperadas, algumas podem passar por processos de atualização; associações emocionais podem ser alteradas em determinadas condições experimentais; além disso, pesquisas com animais mostram que circuitos envolvidos na formação e recuperação de memórias podem ser manipulados.
Nada disso permite deletar uma pessoa.
Ainda assim, revela algo talvez mais fascinante: nosso passado permanece no cérebro de uma maneira muito mais dinâmica do que imaginávamos.
Mas você realmente gostaria de esquecer?
Joel e Clementine queriam se livrar da dor.
Rachael precisava das próprias lembranças para acreditar na pessoa que pensava ser.
Os funcionários da Lumon descobriram que separar experiências também poderia significar dividir a própria existência.
Já Black Mirror fez o caminho inverso e mostrou que a incapacidade de esquecer pode ser tão destrutiva quanto perder uma recordação.
Por trás de tecnologias completamente diferentes, todas essas histórias acabam chegando ao mesmo ponto.
Lembrar não serve apenas para arquivar aquilo que aconteceu conosco. Nossas experiências participam da construção da identidade, influenciam decisões e modificam a maneira como interpretamos aquilo que acontece depois.
As pessoas que amamos, as escolhas ruins, as perdas, os constrangimentos e até aqueles episódios que gostaríamos desesperadamente de arrancar da cabeça ajudaram a construir quem existe hoje.
Talvez um dia a neurociência consiga interferir em lembranças com uma precisão que atualmente pertence à ficção científica.
Caso esse dia chegue, porém, a pergunta mais difícil provavelmente não será: “Qual lembrança você gostaria de apagar?”
Será outra: “Quanto de você desapareceria junto com ela?”
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