Teoria Geek

Ciência Geek | E se encontrarmos um ET e nem percebermos?

Cabeça grande. Dois olhos. Duas pernas. Dois braços. Uma boca estrategicamente posicionada abaixo do nariz.

Troque a pele por verde, azul ou cinza, acrescente algumas antenas e pronto: Hollywood acaba de descobrir uma nova espécie extraterrestre.

Conveniente, não?

Pois é, durante décadas, filmes, séries e games nos acostumaram a imaginar alienígenas como versões remixadas de nós mesmos. Os Na’vi de Avatar são altos, azuis e têm cauda, mas continuam inconfundivelmente humanoides.

Já Star Wars transformou a galáxia praticamente numa convenção interplanetária lotada de bípedes.

Até os assustadores xenomorfos de Alien, por mais grotescos que sejam, ainda possuem cabeça, membros e uma organização corporal que reconhecemos facilmente.

Só existe um pequeno problema: a evolução não recebeu o roteiro.

Se a vida surgisse independentemente em outro planeta, bilhões de anos de evolução aconteceriam sob outra gravidade, outra atmosfera, outra estrela, outra temperatura, outra química e uma sequência completamente diferente de acidentes evolutivos.

Então como seria um alienígena de verdade?

A resposta científica é frustrante e fascinante ao mesmo tempo: não fazemos a menor ideia.

Mas conhecemos suficientemente bem a evolução para perguntar quais ideias da ficção fazem sentido e quais provavelmente fariam Darwin pedir para mudar de planeta.

Então, hora de colocar alguns dos ETs mais famosos da cultura geek na mesa de dissecação.

Metaforicamente, claro. Afinal, não queremos começar uma guerra interplanetária logo na introdução.

Star Wars: uma galáxia muito, muito distante… cheia de gente suspeitamente parecida conosco

Passeie por uma cantina de Star Wars e encontrará de tudo: Twi’leks, Togrutas, Zabraks, Rodianos, Wookiees e uma quantidade impressionante de espécies inteligentes.

É uma das maiores qualidades daquele universo.

Cientificamente, porém, algo chama atenção: muitos deles são humanoides demais.

Duas pernas. Dois braços. Cabeça sobre os ombros. Olhos na frente. Boca. Mãos capazes de manipular objetos… Se essas espécies realmente tivessem evoluído de maneira independente em planetas diferentes, seria razoável tantas acabarem com o mesmo projeto básico?

Talvez não seja tão absurdo quanto parece.

Existe na evolução um fenômeno chamado convergência evolutiva. Linhagens muito diferentes podem desenvolver soluções semelhantes quando enfrentam problemas parecidos. As asas surgiram independentemente em aves, morcegos e insetos; estruturas capazes de formar imagens evoluíram várias vezes; corpos hidrodinâmicos apareceram em animais de origens muito diferentes.

Ademais, o paleontólogo Simon Conway Morris é um dos pesquisadores que defendem que a convergência pode restringir algumas das soluções disponíveis à evolução.

Isso não significa que Chewbacca esteja esperando nosso telefonema; significa apenas que certas soluções podem reaparecer.

Se inteligência tecnológica exige manipular objetos, por exemplo, algum equivalente funcional às nossas mãos poderia ser vantajoso. Locomoção também precisa ser resolvida de alguma maneira. Sensores precisam captar informações do ambiente.

Mas daí até termos uma galáxia inteira frequentando o mesmo alfaiate anatômico existe um salto do tamanho da Estrela da Morte.

Veredito Ciência Geek: Star Wars talvez tenha razão ao imaginar funções semelhantes. O improvável é todo mundo resolver esses problemas parecendo primo distante de alguém da Terra.

Avatar: Pandora poderia realmente produzir um Na’vi?

James Cameron fez algo particularmente interessante em Avatar: Pandora não recebeu apenas alienígenas; recebeu um ecossistema.

Animais, plantas, predadores, presas e organismos interagem de maneiras que dão ao mundo uma sensação de história evolutiva. Isso já coloca Pandora vários parsecs à frente da velha fórmula “jogue um monstro no planeta e pronto”.

Mas aí chegamos aos Na’vi: olhos, nariz, boca, braços, pernas, mãos, estrutura corporal vertical, expressões faciais facilmente interpretáveis por humanos…

Convenientemente bonitos também. Hollywood ainda precisa vender ingresso.

Seria impossível? Não, mas seria uma coincidência evolutiva extraordinária.

E Avatar cria até uma questão interna curiosa: vários grandes animais de Pandora apresentam seis membros, enquanto os Na’vi possuem quatro. Isso exige uma história evolutiva própria para explicar por que eles divergiram tanto do padrão corporal observado em boa parte daquela fauna.

Ainda assim, Pandora acerta numa ideia muito importante: o ambiente molda o organismo.

Gravidade, composição atmosférica, disponibilidade de energia, temperatura, pressão e ecologia exerceriam pressões seletivas sobre qualquer vida extraterrestre.

Na própria Terra, organismos prosperam desde regiões polares até profundezas oceânicas e outros ambientes que durante muito tempo consideraríamos extremos. É justamente o estudo desses limites que ajuda a astrobiologia a pensar onde procurar vida fora daqui.

Talvez Pandora não esteja errada por criar seres estranhos ou talvez ainda não tenha sido estranha o suficiente.

Alien: parabéns, você encontrou um extraterrestre. Péssima notícia: ele encontrou você primeiro

Se Avatar tentou criar algo belo, Alien decidiu perguntar: “E se a biologia extraterrestre nos odiasse pessoalmente?”

O xenomorfo possui um dos ciclos de vida mais perturbadores da ficção científica. Um organismo deposita um estágio parasitário em um hospedeiro, que posteriormente dá origem a uma criatura completamente diferente.

Parece absurdo… Até você olhar para a Terra.

Afinal, a natureza está cheia de parasitoides e parasitas com ciclos capazes de transformar Alien em documentário de domingo à tarde. Certas vespas depositam ovos dentro ou sobre outros animais; diversos parasitas dependem de hospedeiros diferentes durante seu desenvolvimento; e alguns fungos conseguem até alterar o comportamento de insetos infectados.

A estratégia geral de usar outro organismo para completar parte do ciclo de vida, portanto, não tem absolutamente nada de alienígena.

O problema começa quando nosso pequeno chestburster decide crescer.

O xenomorfo aumenta drasticamente de tamanho em um intervalo curtíssimo. Para fabricar tanta massa, ele precisaria obter matéria e energia de algum lugar. A biologia não possui botão “criar 80 quilos de monstro” (ainda).

E o famoso sangue extremamente corrosivo acrescenta outro desafio: o próprio organismo precisaria possuir tecidos e mecanismos capazes de armazenar e transportar aquela substância sem se destruir.

Ou seja, Alien fez algo curioso: pegou estratégias verdadeiras da natureza e colocou todas no modo pesadelo.

Veredito Ciência Geek: o xenomorfo provavelmente não funcionaria como vemos no cinema. Mas a ideia mais assustadora dele a natureza inventou muito antes de Ridley Scott chegar ao set.

A Chegada: e se finalmente parássemos de desenhar ETs como humanos?

Então chegamos aos heptápodes de A Chegada.

E aqui a conversa muda, porque eles não têm rostos humanos facilmente reconhecíveis. Sua organização corporal é estranha e sua comunicação funciona de maneira radicalmente diferente da nossa.

É exatamente esse tipo de alienígena que levanta uma das questões mais interessantes da astrobiologia: por que inteligência extraterrestre deveria se parecer com inteligência humana?

Na Terra, inteligência complexa não pertence exclusivamente a animais com nosso formato corporal; polvos resolvem problemas sem possuir esqueleto, mãos ou um cérebro organizado exatamente como o nosso.

Além disso, corvídeos apresentam capacidades cognitivas sofisticadas apesar de terem seguido uma história evolutiva completamente diferente da dos primatas.

Dessa forma, isso não prova absolutamente nada sobre extraterrestres.

Mas prova algo sobre nós:não existe apenas uma maneira terrestre de construir um animal inteligente.

E isso faz dos heptápodes uma provocação científica muito mais interessante do que simplesmente colocar uma testa enorme num humano e chamá-lo de ET.

Talvez um extraterrestre inteligente possua olhos… Ou não.

Talvez enxergue comprimentos de onda invisíveis para nós, ou interprete o ambiente por vibrações, campos elétricos, química ou algum sistema sensorial que nem reconheceríamos imediatamente como equivalente à visão ou à audição.

O problema não é que não sabemos qual alternativa está correta.

É que temos apenas um planeta inteiro de exemplos e todos eles são parentes, em algum grau, dentro da mesma história da vida terrestre.

Talvez o primeiro alienígena que encontrarmos seja decepcionante

Depois de décadas assistindo a invasões extraterrestres, existe uma possibilidade cruel que Hollywood raramente gosta de lembrar.

Nosso primeiro alienígena pode ser… uma meleca.

Ou algo microscópico.

Nenhuma nave, nenhum raio laser e muito menos uma mensagem dizendo “levem-me ao seu líder”.

Apenas química.

Isso porque durante a maior parte da história da Terra, a vida foi microbiana. Por isso, cientistas não procuram somente civilizações capazes de mandar mensagens pelo espaço.; procuram biossignaturas: características químicas, estruturas ou substâncias que possam indicar atividade biológica presente ou passada.

Em exoplanetas, uma das técnicas consiste em analisar a luz que atravessa suas atmosferas. Determinados comprimentos de onda são absorvidos por determinados gases, deixando uma espécie de “código de barras” químico que permite inferir componentes atmosféricos. Combinações interessantes de gases podem se tornar candidatas a biossignaturas.

Mas nem aí podemos gritar “ET!” e abrir o champanhe.

Até oxigênio pode, em determinadas condições, ser produzido por processos não biológicos. É por isso que uma possível biossignatura precisa ser analisada dentro do contexto do planeta e ter explicações alternativas descartadas.

Até hoje, nenhuma vida extraterrestre foi confirmada. E talvez esse seja o fato mais importante desta matéria.

Plot twist: talvez o problema não sejam os aliens. Somos nós

Existe uma limitação inevitável na busca por extraterrestres: nós sabemos procurar aquilo que conhecemos.

Carbono é excelente para formar moléculas complexas. Água líquida é fundamental para toda forma de vida terrestre conhecida e funciona como meio para inúmeras reações bioquímicas. Por isso, procurar água, moléculas orgânicas e determinadas condições ambientais é uma estratégia científica perfeitamente razoável.

Mas há uma ironia nisso: estamos tentando encontrar a segunda origem da vida usando como manual de instruções… a primeira.

A própria NASA reconhece esse desafio. Procurar DNA ou RNA, por exemplo, pode ser excessivamente “terrocêntrico”, porque não sabemos se uma biologia independente utilizaria as mesmas moléculas para armazenar informação.

Da mesma forma, pesquisadores desenvolvem formas cada vez mais amplas de identificar sinais de vida sem depender de uma única característica terrestre.

É como procurar alguém numa multidão tendo apenas uma fotografia de você mesmo.

Funciona muito bem se a pessoa procurada for parecida com você.

O problema começa se ela não for.

Então Hollywood errou os alienígenas?

Provavelmente.

E também provavelmente acertou algumas coisas.

A evolução convergente mostra que a natureza pode chegar independentemente a soluções semelhantes. Portanto, olhos, estruturas de locomoção, sensores ou apêndices capazes de manipular o ambiente não precisam necessariamente ser exclusividades terrestres.

Mas isso está muito longe de dizer que um extraterrestre terá dois braços, duas pernas, dois olhos e a gentileza de manter o rosto numa posição conveniente para o close da câmera.

Talvez a ficção científica tenha passado décadas cometendo um erro perfeitamente compreensível.

Afinal, tentamos imaginar o desconhecido usando as únicas peças que possuímos: nós mesmos.

E talvez o verdadeiro choque do primeiro contato não aconteça quando uma nave gigantesca estacionar sobre uma cidade.

Talvez aconteça muito antes, quando um telescópio detectar uma química estranha em algum ponto distante, uma sonda encontrar algo microscópico onde nada deveria estar vivo ou um instrumento registrar um sinal que simplesmente não conseguimos explicar.

Nesse dia, a pergunta deixará de ser: “Como são os alienígenas?”

Pela primeira vez na história, poderemos perguntar: “Será que conseguimos reconhecer vida quando ela não se parece com nada que já vimos?”

Talvez os alienígenas da ficção científica sejam estranhos demais.

Ou talvez o Universo ainda esteja esperando a oportunidade de nos mostrar que nossa imaginação nunca foi estranha o bastante.

 

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