Se Doc Brown estivesse acompanhando a apresentação da Tesla, provavelmente teria uma pergunta: onde estão as estradas? Ou melhor, por que ainda precisamos delas?

Pois é, pessoal, nesta quinta-feira, 15 de outubro, Elon Musk apresentou a nova geração do Tesla Roadster em uma instalação da SpaceX, no Texas.

E, desta vez, o esportivo resolveu desafiar a gravidade: subiu uma rampa curva, ficou de cabeça para baixo, saiu do chão, girou no ar e pousou sobre as rodas.

Para completar o espetáculo, o veículo também realizou um salto sobre outros automóveis da marca. Tudo isso utilizando um sistema de propulsores desenvolvido com tecnologia da SpaceX.

É… Parece que alguém assistiu a De Volta para o Futuro II e decidiu transformar a garagem de Doc Brown em um projeto de engenharia.

Entretanto, antes de comprar um almanaque esportivo e programar uma viagem para 2015, precisamos esclarecer uma coisa: o Roadster demonstrou manobras aéreas, não a capacidade de realizar viagens voando… Ainda.

E essa diferença é muito maior do que parece.

Grande Scott! Como esse carro saiu do chão?

 

Ao contrário dos carros voadores de Os Jetsons, que parecem desafiar a gravidade com a mesma facilidade de uma torradeira preparando o café da manhã, o Roadster utiliza princípios bastante conhecidos da física.

Os propulsores empregam gás comprimido para produzir força. Quando esse gás é expelido em determinada direção, surge uma força de reação no sentido oposto, conforme a terceira lei de Newton.

É o mesmo princípio físico que permite a propulsão de foguetes, embora os sistemas e suas capacidades sejam diferentes.

Além disso, o protótipo apresentou ventiladores capazes de criar uma região de pressão reduzida sob o veículo, aumentando sua aderência à superfície. Durante a demonstração, essa tecnologia ajudou o Roadster a percorrer uma rampa invertida.

O resultado foi uma mistura de engenharia aeroespacial com uma pista de Hot Wheels projetada por alguém que claramente não tem medo de altura.

A Tesla também exibiu uma aceleração de 0 a 60 milhas por hora, aproximadamente 97 km/h, em menos de um segundo. É uma demonstração impressionante, mas ainda não equivale à validação independente do desempenho de um automóvel produzido em série.

Os Jetsons podem esperar mais um pouquinho

Se a física permite que um carro saia do chão, por que ainda não estamos sobrevoando engarrafamentos?

Porque saltar não é o mesmo que voar de maneira controlada e sustentada.

Para transportar passageiros pelo ar, um veículo precisa produzir sustentação ou empuxo suficiente durante todo o percurso, controlar sua estabilidade, lidar com ventos e turbulências e possuir reservas de energia adequadas.

Também precisa conseguir pousar com segurança caso alguma coisa dê errado.

No caso do Roadster, os propulsores de gás comprimido enfrentam uma limitação importante: o gás armazenado é finito. Utilizá-lo em manobras rápidas é muito diferente de manter um automóvel suspenso por vários minutos.

Por isso, a demonstração não comprovou que o esportivo poderia atravessar uma cidade pelo céu como os veículos de Blade Runner.

Aliás, existe outro problema que os filmes costumam resolver convenientemente fora das câmeras: o trânsito aéreo.

Imagine milhares de motoristas disputando espaço em três dimensões. Se estacionar no shopping já exige paciência, encontrar uma vaga entre os prédios de uma metrópole poderia transformar qualquer viagem em uma missão de GTA.

Blade Runner estava certo sobre o futuro?

Embora o Roadster ainda não seja o carro voador dos nossos sonhos, a ideia de transportar passageiros em veículos capazes de decolar verticalmente não pertence mais exclusivamente à ficção científica.

Empresas de aviação desenvolvem aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical, conhecidas pela sigla eVTOL. Esses projetos utilizam rotores ou outros sistemas de propulsão para realizar deslocamentos aéreos, geralmente com propostas de transporte urbano ou regional.

A diferença é que esses veículos são concebidos principalmente como aeronaves, enquanto o Roadster continua sendo apresentado como um automóvel esportivo.

E nenhum desses caminhos elimina a necessidade de certificações, regras de tráfego aéreo e sistemas rigorosos de segurança.

O novo Roadster também está longe de chegar às garagens. Após sucessivos adiamentos desde sua apresentação inicial, em 2017, a Tesla agora prevê o início da produção em 2028.

Ou seja, Marty McFly ainda tem tempo de renovar a carteira de motorista.

O futuro chegou ou só deu um pulinho?

A apresentação da Tesla mostrou que é possível combinar tecnologias automotivas e aeroespaciais para realizar manobras que, até pouco tempo atrás, pareciam exclusivas de um filme de ficção científica.

Entretanto, transformar esse espetáculo em um meio de transporte seguro, acessível e aprovado para circular continua sendo um desafio muito maior.

O Roadster não inaugurou a era dos carros voadores. Também não demonstrou que poderemos atravessar cidades pelo céu em breve, mas ofereceu uma amostra curiosa do que acontece quando engenheiros resolvem testar os limites de um automóvel.

Em De Volta para o Futuro II, Doc Brown dizia que, para onde estavam indo, não precisavam de estradas.

Por enquanto, a Tesla ainda precisa. Mas, pelo visto, já está procurando maneiras de sair delas.

 

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